O NHeLas continua te contando como foi o NHL Draft de 2015 (se você não leu a primeira parte, clique aqui), considerado um dos melhores da história da NHL. Além dos jogadores que trouxemos para vocês na parte I, outros nomes importantes também foram selecionados em Sunrise, Flórida.
MIKKO RANTANEN, RW, COLORADO AVALANCHE (#10 overall): já veio para o Brasil, logo é nosso favorito
Rantanen iniciou a carreira profissional no HC TPS da SM-Liiga, primeira divisão da Finlândia, aos 16 anos. Nos dois anos que seguiram o winger se destacou, chegando ao Draft como o primeiro patinador no ranking europeu. Na Flórida, o finlandês foi selecionado pelo Colorado Avalanche com a décima escolha, assinando seu contrato com o clube americano antes do training camp daquele ano.
Embora tenha impressionado durante o training camp, Rantanen atuou em poucos jogos na NHL antes de ser mandado para a American Hockey League (AHL). O finlandês disputou a temporada 2015-16 e algumas partidas do ano seguinte pelo San Antonio Rampage, antes de voltar aos Avs. Em Denver, o winger teve uma temporada razoável, com respeitáveis 20 gols naquela que ficou conhecida como uma das piores campanhas da história da Liga.
O ano seguinte, entretanto, foi um divisor de águas na carreira de Rantanen. Com 84 pontos em 81 partidas, o finlandês finalmente despontou como uma estrela. Jogando ao lado de Nathan MacKinnon e Gabriel Landeskog, o trio se tornou uma das melhores linhas da NHL já no início da temporada seguinte, 2018-19. Com a ajuda de Rantanen, os Avs chegaram aos playoffs em três temporadas consecutivas, e atualmente são considerados como uma das equipes favoritas.
O altíssimo desempenho do winger fez com que ele tivesse um grande aumento em seu segundo salário. Em 2019 o finlandês assinou um novo contrato, avaliado em 9,25 milhões de dólares por ano. Atualmente, o atleta tem 99 gols e 151 assistências, somando 250 pontos em sua carreira profissional pelo Colorado Avalanche.
MATHEW BARZAL, C, NEW YORK ISLANDERS (#16 overall): o muso do hockey twitter brasileiro
O canadense iniciou sua carreira no major juniors no Seattle Thunderbirds da Western Hockey League (WHL), onde se destacou. Entretanto, equipes como o Boston Bruins (que contou com TRÊS escolhas seguidas naquele ano) optaram por não escolher o center, e ele foi selecionado em 16º pelo New York Islanders.
Embora tenha assinado o contrato com os Isles após o draft, Barzal voltou à WHL para mais uma temporada depois de ser draftado. Sua estreia na NHL só aconteceu na temporada seguinte, em 2016-17, na qual disputou duas partidas antes de ser devolvido aos Thunderbirds. A entrada definitiva do canadense na Liga ocorreu em 2017-18, quando ele impressionou a todos.
O resultado da campanha de estreia de Barzal foi acima das expectativas, vez que ele pontuou 85 vezes em 82 partidas, vencendo o Calder Trophy de melhor rookie. Entretanto, tais números não foram o bastante para chegar aos playoffs com os Isles. O center apenas teve tal experiência em 2018/2019, mas seu desempenho até agora irá dar uma boa dor de cabeça para o New York Islanders quando começarem as negociações de seu próximo contrato.
KYLE CONNOR, LW, WINNIPEG JETS (#17 overall): de Michigan a Manitoba em um ano (ou menos)
Antes do draft, o americano jogou pelo Youngstown Phantoms da USHL. Após ser selecionado pelo Winnipeg Jets no primeiro round de 2015, Connor jogou na Universidade de Michigan por uma temporada, tendo marcado 71 pontos naquele ano. Apesar de ter coletado diversos prêmios e batido recordes por seu desempenho na temporada de calouro, ele perdeu o Hobey Baker, dado ao MVP da NCAA, para Jimmy Vesey da Universidade de Harvard (atualmente jogador do Buffalo Sabres).
Embora Connor tenha assinado seu contrato profissional em abril de 2016, a estreia dele no gelo veio apenas na temporada 2016-17. O americano passou este ano alternando entre aparições pela equipe da NHL e o Manitoba Moose, seu afiliado na AHL. No ano seguinte, Connor disputou apenas quatro partidas na AHL e se tornou um jogador da NHL full time, com 57 pontos em 76 partidas.
Nos dois anos seguintes o winger americano se tornou cada vez mais importante para Winnipeg. Isto porque a equipe tem dificuldades em se tornar um pólo atraente para eventuais free agents e então precisa construir um plantel forte com suas escolhas no Draft. Connor foi definitivamente um tiro certeiro dos Jets, já que marcou 66 pontos em 2018-19 e já havia superado esse número em menos jogos nesta última temporada, somando 73 pontos antes da paralisação. Em setembro de 2019, ele estendeu seu compromisso com os Jets por mais sete anos, com salário de aproximadamente US$7,1 milhões anuais.
THOMAS CHABOT, D, OTTAWA SENATORS (#18 overall): e o fardo que ele carrega nas costas (também conhecido como seu próprio time)
Toda vez que ouvimos as palavras “Com a X escolha, o Ottawa Senators escolhe…” atualmente, um sentimento de pesar toma conta do nossos corações. Afinal, a organização não vem sendo um bom exemplo de, bem, organização. Entretanto, quando esse jovem defensor canadense foi draftado, há cinco anos, as coisas não iam de mal a pior para a equipe da capital do Canadá. Ora, o principal defensor do time era Erik Karlsson (com duas pernas inteiras) e o sueco era o coração pulsante da defesa dos Sens. Assim Chabot teria, em teoria, Karlsson como seu mentor quando chegasse à NHL.
Durante sua carreira no major juniors, o defensor defendeu o Saint-John Sea Dogs da Quebec Major Junior Hockey League (QMJHL). Mesmo após ser draftado em 2015, Chabot retornou à QMJHL para ganhar mais experiência. Sua estreia profissional aconteceu apenas na temporada 2016-17, quando ele disputou um jogo pelos Senators antes de retornar para os Sea Dogs. No ano seguinte, em 2017/2018, o defensor começou a temporada na AHL, no Belleville Senators. Mas logo o canadense foi chamado para a NHL, tendo completado a temporada com 63 partidas jogadas na Liga.
No ano seguinte, o defensor teve um desempenho muito bom, apesar de sua equipe seguir aos trancos e barrancos. Com 55 pontos, Chabot pontuou no top 10 entre os defensores da NHL. Por conta das mudanças sofridas no elenco de Ottawa, o canadense viu não só o seu tempo no gelo aumentar, como sua emergência como uma das figuras de liderança dentro do vestiário dos Sens. Devido ao seu potencial, Chabot emerge com a possibilidade de ser um dos grandes defensores da Liga no futuro. Assim, em setembro de 2019 ele assinou sua extensão com Ottawa, avaliada em 8 milhões anuais por mais oito anos.
BROCK BOESER, RW, VANCOUVER CANUCKS (#23 overall): Prince Charming em uma aventura pelo Oeste canadense
O americano jogou por times da United States Hockey League (USHL), tendo sido draftado do Waterloo Black Hawks. Diferentemente da maioria de seus compatriotas, ele não fez parte do USA Hockey National Team Development Program (USNTDP). Após ser escolhido pelos Canucks, Boeser foi jogar hockey universitário pela University of North Dakota na National Collegiate Athletic Association (NCAA).
Depois de duas campanhas encorajadoras na NCAA (apesar de uma lesão no pulso que o tirou do gelo por dois meses), Boeser fez sua estreia profissional pelos Canucks no final da temporada 2016-17. O sucesso do americano, entretanto, veio apenas no ano seguinte, quando ele fez 55 pontos em apenas 62 partidas disputadas. Embora tenha perdido quase 20 jogos no final da sua temporada de estreia por conta de uma lesão nas costas, Boeser ainda foi indicado ao Calder Trophy de 2018, que foi vencido por Mat Barzal.
No ano seguinte o americano começou a temporada bem, mas outra lesão, dessa vez em sua virilha, impediu que ele participasse de todos os jogos da temporada 2018-19. Em 69 partidas Boeser somou 59 pontos, sendo eles 26 gols e 30 assistências. No final da intertemporada o winger assinou um bridge contract (isto é, uma extensão curta) com os Canucks por três anos, com salário de aproximadamente 5,8 milhões de dólares anuais. Antes da paralisação pelo COVID-19, o americano havia feito 45 pontos em 57 partidas disputadas nesta temporada.
SEBASTIAN AHO, C, CAROLINA HURRICANES (#35 overall): will the real Sebastian Aho please stand up?
O center começou a sua carreira profissional no Oulun Kärpät da Liiga, primeira divisão finlandesa, na temporada 2013-14. Suas atuações em seu país natal foram impactantes o bastante para que ele fosse colocado no top 20 de patinadores europeus no ranking antes do draft. Ainda assim, Aho só foi selecionado no segundo round, quando o Carolina Hurricanes o selecionou com a 35ª escolha daquela noite. O contrato com a equipe da NHL só foi assinado no ano seguinte, em 2016, quando o finlandês se mudou para a América do Norte.
A partir daí, Aho foi se destacando cada vez mais na equipe que o draftou. Embora tenha um xará sueco, o finlandês de Carolina consegue se destacar como o Sebastian Aho mesmo sendo tímido e uma pessoa de poucas palavras nas entrevistas que concede. Em sua primeira temporada, ele não conseguiu chegar aos 50 pontos, mas a partir do ano seguinte não marcou menos do que 65. Sua temporada mais bem sucedida foi, sem dúvidas, a terceira e última em seu contrato de calouro. Aho fez 85 pontos e foi fundamental na ida do seu time para os playoffs. O problema, todavia, foi na hora de negociar a renovação contratual com os Canes.
Por ter definitivamente sido parte importantíssima do tour de force que foi a última temporada dos Canes, o finlandês foi uma das estrelas da janela de negociações. Afinal, ele nos forneceu o DRAMA (!!!!) de uma offer sheet na intertemporada passada. Além de gols bonitos, Aho definitivamente sabe oferecer entretenimento para a torcida. No final das contas, o center assinou um contrato de cinco anos, diminuindo seu caminho até a free agency, avaliado em pouco mais de 8,4 milhões anuais. Na temporada 2019/2020, Aho fez 66 pontos em 68 partidas disputadas.
MACKENZIE BLACKWOOD, G, NEW JERSEY DEVILS (#42 overall): uma figura importante no próximo capítulo das rivalidades da Metro? Só o tempo dirá.
As traves de New Jersey não são traves quaisquer. Os goleiros que vieram depois do lendário Martin Brodeur sentiram a pressão da posição (embora Cory Schneider tenha tido seus bons momentos no gol dos Devils). Ao draftar Mackenzie Blackwood, primeiro goleiro ranqueado na América do Norte em 2015, os Devils pensaram que talvez seria diferente com o jovem canadense. Não que Blackwood estivesse perto da expectativa de ser um goleiro generacional (essa discussão será retomada no texto de 2016, aguardem!), é claro.
O canadense iniciou sua carreira de major juniors no Barrie Colts da Ontario Hockey League (OHL), onde jogou por três temporadas. A profissionalização veio quando ele se tornou elegível para disputar a AHL, tendo então passado a integrar o elenco do Albany Devils (que eventualmente se tornou o Binghamton Devils) para adquirir experiência. No ano seguinte ele dividiu seu tempo entre a AHL e a East Coast Hockey League (ECHL), onde jogou pelo afiliado dos Devils, Adirondack Thunder.
Em 2018-19, Blackwood começou a temporada na AHL, como esperado. Entretanto, uma lesão de Cory Schneider em dezembro fez com que ele fosse promovido à NHL. Desde então o canadense vem sido revezado com Schneider, já que o último está na metade final da sua carreira. Com 70 partidas disputadas, sendo 64 iniciadas por ele, Blackwood tem um uma porcentagem de defesas de .916 e média de 2,72 gols sofridos por jogo. Considerando o último ano dos Devils, onde ocorreram grande parte destes jogos, ele tem, de fato, potencial para ser um bom goleiro na Liga.
MENÇÕES HONROSAS:
Travis Konecny, RW/C, Philadelphia Flyers (#24 overall): conhecido por sua tenacidade, o canadense teve seu contrato renovado por mais seis anos em 2019. Diferentemente do que acontece com muitos jogadores, Konecny rendeu muito mais após a assinatura do contrato do que no ano que antecedeu esta. Os 5,5 milhões anuais podem se tornar uma pechincha em breve…
Anthony Beauvillier, LW, New York Islanders (#28 overall): aquele que tentou entrosar com a Anna Kendrick no Twitter e virou herói de diversas histórias muito prováveis e verídicas.
Travis Dermott, D, Toronto Maple Leafs (#34 overall): conhecido por sua ofensividade, Dermott jogou no Erie Otters da OHL com Connor McDavid, Dylan Strome e Alex DeBrincat. Além disso, é pai de pets muito fofos.
Brandon Carlo, D, Boston Bruins (#37 overall): junto com Zdeno Chara em 2016-17, ele formou o que é provavelmente uma das defesas mais altas da história da NHL, além de terem quase 20 anos de diferença entre eles.
Roope Hintz, C, Dallas Stars (#49 overall): o finlandês chegou na NHL com um bang!, já que foi muito importante para a sua equipe tanto durante a temporada regular, quanto nos playoffs. Afinal, o center fez cinco gols na campanha dos Stars nos playoffs de 2019.
Quando o Brasil se associou à Federação Internacional de Hockey no Gelo, em 1984, provavelmente não se imaginava o exato rumo que o esporte tomaria aqui nas décadas seguintes. Apesar da menor familiaridade com o gelo, em comparação aos vizinhos ao sul, o país foi o primeiro na América do Sul a se vincular oficialmente à IIHF.
Trinta anos depois, brasileiros competiram pela primeira vez em um torneio internacional oficial de hockey no gelo, organizado pela Federação Mexicana do esporte e sancionado pela IIHF. Sem tradição na modalidade, nem estruturas permanentes disponíveis no país, a equipe brasileira terminou a competição em último lugar entre as cinco participantes, com quatro derrotas e um saldo negativo de 48 gols sofridos.
“Coincidiu com duas cidades, Rio e São Paulo, estarem com uma quadra de gelo e com pessoas que eram do (hockey) inline, ou já tiveram experiência no gelo, treinando de uma forma recorrente” disse Julio Baptista, um dos jogadores que participou desta primeira edição do torneio. “E aí juntou esse pessoal de SP e do Rio e fizemos essa primeira viagem, foi tudo novo. Uma galera que foi com a cara e a coragem de viver uma experiência nova, e foi bacana. A gente precisou passar por 2014 pra entender o que a gente precisava.”
“Depois que todos participaram, eu voltei para o Brasil e a primeira coisa que a gente precisava era de um treinador” recordou Alexandre Capelle, na época dirigente do hockey no gelo pela Confederação Brasileira de Desportos no Gelo.
No ano seguinte, o convite veio novamente para participar do torneio no México. Desta vez, com algum apoio também da CBDG, o país voltou para o segundo ano da competição e alcançou a primeira, e até hoje mais importante conquista brasileira no hockey no gelo: a medalha de bronze.
Para este capítulo do 10 for 10, o NHeLas conversou com o presidente do Brazil Ice Hockey e Federação Paulista de Hockey no Gelo, Alexandre Capelle, o treinador, Jens Hinderlie, e onze atletas da equipe brasileira que participaram do Pan-Americano de Hóquei no Gelo de 2015. Estes atletas são a prova de que é possível ter hockey no gelo no Brasil, e este é um sonho que está apenas começando.
Neste texto, damos voz a esses pioneiros. O NHeLas, acima de tudo, acredita no esporte e nas possibilidades que ele traz. Acredita que se pode quebrar a cultura mono-esportiva no Brasil e incentivar outras práticas, como a do nosso amado hockey. Essas são algumas das recordações daquela equipe sobre o torneio no México; relatos que vão além do jogo, e nos mostram as diversas facetas que uma competição assim pode ter.
(Todas as posições e títulos referem-se a 2015. As entrevistas foram levemente editadas para maior entendimento e clareza)
Bruno Gomes, atacante: Até hoje eu tenho certeza disso: em geral, a gente tinha melhores jogadores de hockey do que todos os outros times. Eles tinham melhores patinadores de gelo, (mas) de todos os jogadores da seleção brasileira, tinha pelo menos uns 10 que já tinham sido campeão mundial, tinha uma história ali de vice-campeão mundial, tinha vários jogadores de roller hockey muito, muito bons. E foi por isso também que a gente conseguiu chegar a esse nível nessa competição.
Luis Roberto Custódio, defensor: Foi um campeonato que deu um ânimo, né? Esse estar no gelo deu um ânimo a mais, e ao mesmo tempo uma tristeza no sentido de ‘por que eu não estava aqui antes?’ Mas foi muito bom, um sonho para todos praticamente, porque mesmo quem já era do gelo, quem tinha um contato maior com o gelo, estava ali, a grande maioria, num primeiro momento com a camisa do Brasil no gelo. Então de alguma forma era realmente um sonho do grupo, para seleção, técnicos…
Allen Ruane, goleiro: É bom esses torneios com todas as equipes da Latin America porque todo mundo é igual, não tem equipes tão fortes ou tão fracas também, nós só precisamos treinar um pouquinho mais.
Henrique Degani, atacante: Engraçado, quando a gente chegou lá, já tinha oito rinques de gelo na Cidade do México, se não me engano. Oficiais. A única coisa que não tinha era alguém que (tivesse) organizado um campeonato, porque todo mundo já podia participar. O meu ponto nem é a falta de quadra aqui no Brasil, o meu ponto é que a gente poderia ter organizado campeonato lá mais cedo ainda, né? A gente não fez nada de diferente, que não tenha sido feito no passado, que levou a gente a jogar esse campeonato.
Pedro Tonietto, goleiro: O sentimento que eu tive esse campeonato inteiro foi incrível. Eu joguei só cinco minutos, contra a Colômbia, num jogo antes do campeonato começar. E por mais que tenha sido só um jogo de ‘pré-temporada’, digamos assim, o fato de colocar a camisa da seleção e pisar no gelo, parece que eu nem sabia patinar mais. Pulei o banco e até chegar lá no gol acho que foram os dez segundos mais lentos da minha vida. Como é em todo jogo em que a gente fica nervoso, depois da primeira defesa as coisas fluem. Mas foi realmente uma experiência incrível, eu acho que nunca vou esquecer daqueles primeiros dez segundos com a camisa da seleção no gelo.
Yan Graciano, atacante: Eles meio que me fizeram o ‘bicho’ da seleção, porque eu era o mais novo, então eu tinha que carregar equipamento, encher água, mas ao mesmo tempo eu lembro que eu tinha 19 ou 18 anos, e, tirando o goleiro, era o que tinha mais experiência no hockey no gelo, então era meio estranho.
Jens Hinderlie, treinador: Eu sei que muitos deles estavam cansados e os quartos tinham esse cheiro horrível de hockey, que é o pior cheiro que há na Terra; equipamento de hockey, luvas, é simplesmente nojento. Eles tinham que colocar aquilo nos quartos e deixar tomando ar todo o equipamento, com os ventiladores… Esse torneio em si tem seu peso e leva um tempo para se preparar, e o pessoal conseguiu fazer isso num curto período, o que foi uma verdadeira prova de seu já bom condicionamento físico, mas também da determinação para aprender. Muitos deles só queriam aprender e isso é meio caminho andado para qualquer coisa.
Equipe do Brasil no Torneio Pan-Americano de Hockey no Gelo em 2015 (Foto cortesia de Alexandre Capelle)
Antes do torneio
Hinderlie: Em 2015, eu resolvi me mudar para o Brasil e, durante o processo, literalmente um mês antes da mudança, minha esposa, Gabriela, entrou em contato com a Confederação Brasileira de Desportos no Gelo e eles a puseram para falar com o (Alexandre) Capelle. Ela falou para ele da minha paixão pelo hockey e nos colocou em contato. A partir daí, o Capelle e eu começamos a nos falar e basicamente foi assim que começou.
Alexandre Capelle, dirigente do hockey no gelo (CBDG): A gente se conheceu, falei ‘Jens, você não quer ser o treinador?’, ‘Mas de hockey inline?’ e eu falei ‘Não, de hockey no gelo. Vai ter no México de novo, o segundo evento, e gostaria que você fosse como treinador.’
Hinderlie: Eu me mudei para o Brasil e cinco dias depois estava em (Contagem) assistindo a todos esses jogadores de (hockey) inline, e um mês, talvez dois meses mais tarde a gente estava no México e entrou no gelo pela primeira vez. O Capelle tinha uma lista com os caras que estavam interessados, então ele só me pediu para assistir a esses jogadores e eu os vi jogar e fiquei bem impressionado com o nível de habilidade de todo mundo. Eu não cheguei a jogar muito inline na minha vida porque eu cresci em Minnesota e jogava hockey no gelo praticamente em qualquer lugar que eu ia, mas eu fiquei muito admirado com como eles paravam num instante e giravam, e tinham uma boa movimentação lateral… Fifo (Luis Roberto Custódio) foi um jogador pelo qual eu me apaixonei, só a maneira como ele controla o jogo e, mesmo no gelo, ele pode ser um ótimo defensor ou um ótimo atacante. Honestamente, só escolhemos quem achamos que iria ajudar esse time.
Capelle: Em 2015, teve esse campeonato em Minas, o Campeonato Nacional de Hockey, onde estavam as melhores equipes (do Brasil). Se não me engano, tinham 12.Eu conversei com treinadores das equipes (no congresso técnico) dizendo que a gente ia selecionar os atletas e se tivesse alguém interessado, (era para) procurar o Jens para ele fazer a escolha. A maioria foi o pessoal do Rio e de São Paulo, o pessoal que praticava mais o hockey no gelo. Em 2015 a gente tentou levar os melhores atletas, os que tinham experiência no gelo e eram os melhores atletas no Brasil.Tivemos o apoio da Confederação também, tivemos patrocínio da passagem, de uniforme, os treinos e clínicas, as taxas do campeonato, isso tudo a gente conseguiu através do Emílio Strapasson, que era o presidente na época da CBDG. Fica o agradecimento a ele por essa oportunidade da gente conseguir levar os melhores atletas.
Daniel Hämmerle, goleiro: Foi uma ajuda muito significativa que nos possibilitou levar um time bem melhor que a gente levou nos anos anteriores, e a gente conseguiu chegar com uma força muito legal lá, (tanto) que a gente conseguiu trazer medalha. Foi muito significativa a ajuda da CBDG nesse campeonato.
Gomes: O melhor ano que a gente foi, foi quando a gente teve apoio.
Daniel Vannuchi, defensor: Era um sonho começando a se tornar realidade, da gente jogar um campeonato de hockey no gelo, da Confederação ajudar a levar uma equipe competitiva. A maioria dos atletas não tinha experiência com o gelo. A experiência que eu tinha era aqui no hockey no gelo do Rio, mas a quadra era muito pequena, não retrata muito a realidade de como é um campeonato de ice hockey.
A experiência prévia
Ruane: Eu nasci aqui nos Estados Unidos. Minha mãe é brasileira e meu pai é americano. Comecei (a jogar) hockey com onze anos, sempre fui goleiro, no high school, depois faculdade, joguei um pouquinho pro. Mas em 2012, eu fui para o Brasil, eu fui pro Rio, morei lá oito meses e comecei vendo que tinha hockey (no) Brasil. Eu achei o Capelle, outros jogadores, e foi assim.
Hämmerle: Eu patino desde os 10 anos no gelo, eu sou do Rio de Janeiro e tinha uma quadrinha de gelo perto da minha casa, então eu aprendi a patinar lá com 10 anos e nunca parei. Eu decidi jogar hockey e comecei a jogar no gol em 2012. (O Allen) que me ensinou a jogar no gol. Quando eu comecei a jogar hockey ele tava morando no Rio, ele tem família lá, e ele que me ensinou a jogar. Então 2015, eu só jogava no gol há três anos, foi muito em cima da hora.
Graciano: Eu fazia parte da seleção júnior de inline, não a sênior, e na de gelo eu sempre joguei os campeonatos que tinha no Brasil, com o Capelle, mas na época eu estava morando no Estados Unidos, jogando em uma universidade. Eu lembro que eu voltei para o Brasil e o Capelle me chamou. Acabei conhecendo o Jens mesmo no México, mas 99% da equipe eu conhecia do Brasil já.
Tonietto: Para mim foi bem diferente isso tudo porque eu sou gaúcho e moro nos Estados Unidos há algum tempo já, então ninguém tinha ouvido falar de mim. Eu vi o Brasil de 2014, que eles colocaram no YouTube e entrei em contato com o Capelle. A gente já tinha dois goleiros, o Allen e o Daniel, e o Capelle disse ‘olha, não deu pra te colocar no time, ninguém te conhece, ninguém nunca ouviu falar de ti, eu entendo que tu mora nos Estados Unidos, tu joga hockey no gelo todo dia, mas mesmo assim não tem como chamar alguém que não conhece.’ Então eu disse, ‘olha, Capelle, deixa eu ir pra treinar com vocês.’ Foi legal porque eu conheci todo o pessoal lá e, ainda mais que ninguém tinha ouvido falar de mim, todo mundo me recebeu super bem.
Gomes: 2015 acho que a gente chegou quatro, cinco dias antes, se não me engano. A gente ficou concentrado na Vila Olímpica deles, que ficava do lado do rinque de gelo.
Tonietto: Eu acabei indo para um outro lugar, peguei um táxi, o táxi me largou lá, eu estava sem telefone, com todos os meus equipamentos, no meio do nada, no México. Aí eu meio que arranhando o espanhol falei com uma pessoa e ela falou ‘não, não, tem que ir lá num outro lugar, eu te dou uma carona.’ Eu entrei no carro de uma estranha, e ela me largou onde era pra ser, na Vila Olímpica.
Gustavo Tecchio, defensor: Esse espaço que eles cederam para a gente, se não me engano, foi das Olimpíadas que teve no México mesmo. Eles ficaram com o legado das Olimpíadas e eles utilizam para todos os atletas olímpicos deles, tanto que tinha muita gente boa lá de wrestling, judô, que estava tendo campeonato, ginástica artística, o pessoal do vôlei também acho que estavam treinando lá. Então a gente chegou lá e sentiu que a gente foi muito bem tratado e isso acho que pesa positivamente, a gente sempre junto, comendo junto, comida boa, horário pra sair, horário pra voltar, horário ‘pra dormir’.
Julio Baptista, atacante: Nível PANAM mesmo.
Hinderlie: Eu cheguei no aeroporto, conheci o goleiro, Allen Ruane, e alguns dos outros caras, nós pegamos o ônibus para o rinque, fomos direto para o gelo, o Capelle estava lá e já tinha marcado algumas horas de gelo para a gente naquela noite. Não tivemos tanto tempo para nos preparar. A gente tinha literalmente, a princípio, talvez três ou quatro horas de gelo.
Tecchio: E por isso que a gente saiu correndo, acho que a gente treinava de manhã, já se organizava para treinar depois do almoço, já se organizava para treinar no final do dia para estar no gelo o máximo que pudesse e quando chegasse o primeiro jogo, a gente tivesse o mínimo preparo.
Os treinos no México
Degani: Eu lembro que a gente ficava fazendo correria pra treinar em um monte de lugar.
Gomes: É, a gente foi para o shopping, a gente foi para uns quatro, cinco rinques diferentes para treinar. Foi uma semana louca. Todo mundo com vários mundiais de roller nas costas, vários campeonatos mundiais, sul-americanos, com muita experiência no roller hockey e de repente, do nada, a gente estava dentro do gelo. Vários já jogavam, patinavam no gelo, mas nunca competiram em alto nível, e foi legal essa experiência, foi engraçado.
Hinderlie: Assim que a gente percebeu que precisava de mais tempo de gelo, acabamos comprando um monte de horas em lugares diferentes, em vários horários do dia, então a gente precisava percorrer a cidade para chegar nesses outros rinques e usar um ônibus que a Federação Mexicana forneceu.
Custódio: Opa, um micro-ônibus. Vinte caras ‘monstros’ mais as malas ‘monstras’, um em cima do outro, chegava no shopping lá do ‘centrão’ que ninguém acreditava que teria uma pista no terceiro piso, e de repente surge aquela pista gigante.
Tonietto: Era desconfortável ir pro rinque e voltar, mas quando a gente estava no rinque ou quando a gente estava na Vila Olímpica era ótimo. A gente dividia o quarto com quatro pessoas, então a gente estava assistindo às finais da NHL, foi o ano que Tampa perdeu pra Chicago. Eu, que sou torcedor fanático do Tampa, não gostei muito… (risos) A gente assistia hockey, a gente se reunia no restaurante, o Jens conversava com a gente. Quando a gente estava na Vila Olímpica também tinha bastante palestra, a gente fez muito estudo de vídeo, às vezes tinha tempo de ir para a academia, fazer um alongamento, fazer um suporte muscular.
Graciano: Acho que 50% entendia mesmo o que (o Jens) queria fazer, os outros 50% não entendiam nada e dependiam de algum atleta tentar explicar.
Hinderlie: E eu não falava nada de português, o Bruno foi meio que o tradutor para espanhol e português, e um pouco de inglês, então era sempre engraçado porque eu pensava às vezes ‘Estou falando em inglês e muitos deles provavelmente não têm ideia do que eu estou dizendo.’ Foi um tipo de, não sei, sexto sentido ou algo assim que os jogadores conseguiam absorver a magnitude do momento e colocar em prática, talvez nem sabendo se o que eu falava fazia algum sentido para eles. Mas a gente tinha que acordar acho que 4h da manhã para chegar no rinque às 5h30 ou 6h e ninguém estava muito animado com isso. Eles já tinham treinado algumas vezes, eu sei que alguns estavam cansados, com dor, mas da minha perspectiva era só ‘a gente tem que estar no gelo o máximo possível!’ Eu lembro que eu acordei, desci as escadas e eles estavam dormindo nas cadeiras, o Fifo e o Degani, e eu perguntei ‘Vocês estão prontos?’ Eles falaram ‘Não!’ (risos)
Graciano: Os treinos foram bem rigorosos, né? Porque a maioria não sabia patinar direito no gelo, então foi focado mais na patinação do que qualquer outra coisa. Acho que eram duas vezes por dia, duas horas, e acho que o Jens tentou fazer a gente treinar o quanto mais possível, todo dia. Quando acabava os treinos ele tentava achar mais hora para colocar, para tentar meio que correr atrás do prejuízo. Ninguém conseguia patinar, frear, e as regras eram diferentes do inline também, tinha checking, hitting.
Hinderlie: A gente se adaptou e conseguiu incorporar muitas das habilidades e conhecimento do jogo que eu sabia que eram só o básico do hockey. É um jogo completamente diferente do inline.
Vannuchi: Numa quadra oficial grande, a velocidade do jogo é outra, muda totalmente a sensibilidade do patins, então foi muito difícil, foi muito complicado.
Atletas da seleção brasileira reunidos em um dos treinos na Cidade do México (Foto: CBDG)
Hinderlie: Nós treinávamos tiros, antes de tudo a gente precisava parar e girar e aprender como se levantar e cair no gelo. Porque essa é a chave para qualquer iniciante, você tem que aprender a cair porque você tem que aprender como se levantar de uma queda. E o gelo é completamente diferente de estar sobre rodas e sobre patins inline, então frear era muito difícil e levou um tempo para os rapazes entenderem. É claro, você não aprende esse jogo do dia para a noite. Mas quando eles entenderam, acho que assim que voltamos do primeiro jogo, contra o México ‘B’, foi aí que a gente começou a perceber que seríamos um bom time e que a gente poderia jogar esse esporte.
Degani: A gente fazia muita coisa. A gente tinha muito jogo, o conjunto era muito legal, muito bom, mas a gente ainda estava jogando um esporte que era diferente do hockey no gelo. A gente tava jogando o inline sobre o gelo.
Tonietto: Eles tinham o chute, tinham os dangles do pessoal de alto nível, mas não sabiam patinar, não conheciam as regras e como era a cultura do hockey no gelo. E por mais que o meu nível não tava muito alto naquela época, eu conseguia perceber essa diferença do hockey aqui nos Estados Unidos e o hockey que o Brasil tava tentando jogar.
Hinderlie: É uma questão de criar a estrutura para que eles entendessem o básico do gelo, onde estar, o que fazer… e uma vez que eles tinham compreendido, eles podiam desafiar qualquer um que estivesse no nosso nível. Parecia, para mim, que havia mais times com mais coesão, que já tinham jogado no gelo, ou era mais fácil para alguns jogadores (ter acesso ao gelo), e talvez essa seja só a minha impressão, mas, no final, é difícil para um time se estruturar ao longo de seis, sete dias. É um processo, leva tempo para melhorar e construir um time.
Gomes: Quase todos os times tinham jogadores ‘estrangeiros’. A Colômbia, por exemplo, tinha quase todo um time que morava nos Estados Unidos, todos ‘quase gringos’, a Argentina tinha vários também que jogavam fora.
Baptista: Acho que fora o Allen, a gente não tinha nenhuma pessoa de fora.
Tecchio: Mas, como a gente já tinha feito dois amistosos, a gente realmente sentiu que eram equipes muito boas no gelo, tanto Colômbia quanto México ‘B’, que viviam no gelo e tinham condições de estar ali toda semana, e a Colômbia com melhores acessos, acessibilidade que tinha pelas quadras. Percebemos que realmente seria um torneio bem forte pra gente. Contra o México ‘A’ a gente sabia que era dois, três passos que a gente deveria galgar aí no futuro, ainda estamos galgando, não chegamos lá ainda.
Hinderlie: Muito do pessoal jogava defesa no inline, que é um papel mais ofensivo, então entender que o defensor no ice hockey tem que usar bem a visão com o puck, fazer passes. Jogadores como o Zé (José Alexandre Guilardi), Fifo, (Gustavo) Tecchio, (Daniel) Vannuchi, (Marcelo) Campos, todos eles realmente chegaram lá. Eles foram, assim como o Allen, no gol, a grande força do nosso time, foi a nossa defesa e o goleiro. E nós meio que partimos daí, tínhamos o Yan (Graciano), acho que com 19 anos na época, ele era muito jovem e teve shifts muito bons. O (Henrique) Degani foi um jogador bem versátil, marcou alguns gols importantes, o Julio Baptista também estava lá, e ele realmente dava duro em todos os momentos. Como treinador, você só quer que os jogadores saibam que eles têm um potencial maior para atingir e ainda assim, mesmo hoje, eu acho que tem muito potencial com o Brazil Ice Hockey. Então é ajudá-los a entender e ao mesmo tempo falar para eles que é preciso dar 110% em cada shift.
Durante o torneio
Degani: A gente devia ter colocado o Pedro de segundo goleiro e o Daniel na linha.
Hämmerle: (risos) O pessoal brinca porque, como eu comecei patinando no gelo, eu tenho uma patinação legal, minha patinação é razoável, e eu cheguei a jogar na linha muito tempo atrás.
Hinderlie: Você tem um torneio de uma semana, passa muito rápido, e é realmente o único tempo de gelo para eles no ano. Mas todas as peças se juntaram e eles trabalharam muito e mereceram o que conquistaram.
Tonietto: Foi uma experiência para todo mundo, para tentar conhecer o jeito brasileiro de jogar hockey, porque foi realmente a primeira seleção brasileira de hockey no gelo, e cada time tem uma maneira de jogar. Aos poucos a gente foi entendendo a nossa, o que dava certo, o que não dava, mas foi jogo após jogo. Foi uma experiência muito bacana ver o time evoluir daquela maneira.
Degani: Eu lembro que a gente fazia muita falta. O campeonato inteiro a gente fazia muita falta. Acho que a gente fez umas três ou quatro de too many men.
Graciano: (O Allen) foi o que mais passou nervoso jogando.
Ruane: Todo mundo estava feliz porque estava jogando hockey no gelo, eu joguei num nível muito alto aqui e não gosto de perder um jogo. Quando eu perco um jogo eu fico bravo. (risos) Acho que é uma coisa que o pessoal reclama, que eu não tô feliz igual todo mundo. Mas eu não gosto de perder, e todo mundo estava feliz, (ganhando ou perdendo) parece o mesmo não muda muito.
Custódio: Como foi, no meu caso e de muitos, um primeiro momento no gelo competindo de verdade, era a realização de um sonho de criança. Era o sonho em 2015, estar ali no gelo competindo de verdade, e o hockey surge do gelo pra gente, então foi muito legal.
Graciano: Acho que foi a primeira vez para a maioria do time que teve um treinador mesmo, que estava de terno, dando dica sobre tudo, falando o que tinha que fazer, situações de jogo, então acho que a maioria da galera não estava acostumada com isso.
Vannuchi: Foi uma sensação de ser profissional, né? De você estar num alojamento, você tem refeitório, tem toda a estrutura disposta pra você, tinha o Jens de técnico.
Hinderlie: O rinque em si, o Ice Dome, tinha alguns problemas com névoa, então a gente precisava lidar com aquilo, precisava parar o jogo de vez em quando e patinar dando voltas. Mas era um rinque bom, uma estrutura legal. Em qualquer evento esportivo internacional você tem as pessoas torcendo com suas bandeiras, então foi muito legal para esses times ‘B’ mais jovens, porque eles são adolescentes, mas jogam hockey o tempo todo, e para eles competir contra uma equipe nacional como o Brasil eu sei que foi algo importante para aquelas crianças e também para os pais. Era uma atmosfera festiva, para dizer o mínimo.
Tonietto: Tinha uma seleção (brasileira) feminina aquele ano, mas elas não estavam com a CBDG. Então tinha uma certa diferença ali, mas claro, brasileiro é brasileiro e vai torcer para brasileiro, e não foi muita gente, mas tinha uma torcida brasileira legal, a gente gritava, a gente fazia festa. Era muito legal assistir aos jogos do México, os jogos contra o México, porque lotava a arquibancada.
Hämmerle: Lembro que a mãe do Yan e do Leandro (Graciano) estava lá, gritando para caramba. O pessoal da Argentina estava lá, eles levaram time ‘A’, ‘B’ e feminino, então ficava a maior galera lá e a (mãe deles) do lado. (risos)
Hinderlie: A gente teve lideranças fortes, como o Bruno Gomes, eu realmente me apoiei nele bastante naquele primeiro ano porque ele era um jogador mais velho, veterano, que conhecia praticamente todo mundo. Ele mora na Argentina então ele não é um paulista, ele não é um carioca, ele podia meio que fazer essa ponte um pouco.
Hämmerle: Eu lembro muito dos papos do Bruno, das conversas dele, do jeito que ele vinha falar e deixar todo mundo animado antes do jogo. Isso é um papel que ele faz muito bem que eu gosto muito na verdade.
O torneio teve início numa quarta-feira, dia 3 de junho. No segundo jogo do dia, o Brasil fez sua estreia contra o México Sub-17 e venceu por 5-2. Esta foi a primeira vitória na história da competição para a seleção brasileira.
Hinderlie: A gente estava perdendo por 2-0 no começo. Eu acho que tivemos um power play e o puck foi por trás do nosso defensor e eles literalmente tiveram um 2-contra-0 e marcaram o segundo gol. No entanto, conforme a gente se esforçava e batalhava em cada shift, começamos a criar algumas chances, tivemos alguns power plays e marcamos cinco gols sem resposta.
Tonietto: Foi um jogo difícil, aquele time do México era bem novo, eles tinha bastante força, bastante patinação, mas eles não tinham a experiência que os nossos jogadores tinham.
Custódio: A gente tinha uma bagagem já, não eram atletas partindo do zero numa competição. Por um lado ajudou, por outro às vezes atrapalhava, era uma brecada de inline, um giro de inline, enfim… Eu lembro de estar na quadra com um nível de concentração para tudo muito alto e mesmo assim tinha momentos em que a gente acabava fazendo o que era natural para a gente no inline.
Vannuchi: Essa experiência deu uma equilibrada no jogo e fez total diferença. Eu lembro que a gente jogava com muita calma, dava pra ver que a gente, tecnicamente, estava sofrendo para ficar em cima do patins, mas o conjunto era muito bom.
Baptista: Não sei se vocês já pegaram para rever os jogos desse ano, mas nitidamente dá pra ver que é um time de pessoas que não são familiarizadas com o gelo, é uma coisa não tão bonita de se ver, e de repente sai uma jogada de um time bom de hockey. Então acho que a galera estranhou um pouco isso também e foi o que fez a gente vencer, chegar ao gol jogando hockey de uma forma ou de outra; no gelo, mas trazendo coisas do inline. Acho que um outro ponto que diferencia bastante dos outros campeonatos é que como era, para a maioria, a primeira vez de todo mundo ali, todo mundo conseguiu limpar a cabeça e absorver cada coisinha nova que o Jens trazia do gelo. Lembro da gente passar noites vendo e revendo, com planilha, com TV, o que a gente poderia ter feito. Acho que todo mundo limpou literalmente a cabeça e começou a receber e aplicar aquilo.
Tecchio: Mas esse jogo ele chegou pra gente e falou assim ‘Vocês precisam trocar a chavinha, vocês não estão jogando inline. Aqui é gelo. Tratem de abrir a caixa de ferramentas.’
Custódio: E aí você abriu o supercílio. (risos)
Tecchio: (risos) Abriu tudo, né? A gente começou a entender que o checking fazia parte… Ele veio com essa pressão ‘Vocês não estão jogando inline, o contato faz parte.’ A única vantagem que a gente tinha era essa, de ser atletas um pouco mais velhos, com certeza mais velhos, e talvez mais fortes. A gente era mais forte e, claro, a partir do momento que entendeu que podia fazer esse contato a gente acabou ganhando o jogo.
Graciano: A gente segurou mais no físico, porque era uma molecada mesmo do México. Acho que não passavam de 1,75m, eram um monte de criança jogando contra um monte de marmanjo.
Hinderlie: Foi nesse momento que eles entenderam. Levou um período e meio praticamente, mas do segundo até o terceiro período nós dominamos, ficamos em cima deles, e marcamos alguns gols definitivos no power play. Acho que foi nossa linha veterana, Bruno, Johnny (João Henrique Vasconcelos) e Lu (Luis Fernando de Almeida), que mais marcou para a gente.
José Alexandre Guilardi, defensor: Eu acho que esse jogo com o México deu principalmente para a gente a condição de seguir, de participar de fato da competição, porque se a gente tivesse ido mal já nesse primeiro jogo, acho que ia comprometer muito qualquer possibilidade de crescer dentro do campeonato. O fato da gente ter vencido, ter ganho energia e ter surpreendido deu para a gente uma sobrevida e levou a gente até o caminho da medalha, e também nos trouxe muita confiança no Jens. Quando o Jens foi pro vestiário e desceu a lenha na gente e mandou a gente parar de jogar que nem criança e começar a ser jogador de hockey de fato, a gente começou a acreditar no treinador e a coisa funcionou, para o restante da competição também. Acho que isso foi muito interessante desse jogo em específico. E muitas das coisas que o Jens testou durante os treinos e das quais ele tinha só a visão técnica ‘Esse aqui não patina bem, esse aqui não passa bem,’ porque tem as deficiências e tal. Chegou na hora de jogar de fato, a grande maioria, que já tinha muita experiência em quadra e muita noção, conseguiu se sobressair e colocar um jogo de hockey melhor dentro de quadra mesmo sem ter a técnica ideal. Então também mudou aos olhos do Jens, do treinador, a condição dos atletas. Teve até uma reviravolta em termos de linhas e duplas e parceiros logo após esse jogo. Ele conseguiu ver diferente o grupo depois desse jogo, então acho que foi muito importante essa primeira partida para a gente em diversos aspectos. Na verdade, acho que aí foi o grande ponto da medalha. Foi aí nesse jogo que a gente pegou um pedacinho dela já.
Hinderlie: Depois do jogo foi incrível para mim. Eu estava literalmente vivendo em um país estrangeiro há menos de 60 dias e estava ensinando hockey, um esporte que eu cresci jogando em Minnesota, e eu estava no México, treinando esse time, e ver eles cantarem o hino nacional para seu país foi muito emocionante. Até hoje quando eu assisto ainda fico um pouco emocionado, porque foi um momento muito especial. Foi a primeira vitória deles de todas e foi ótimo para eles entenderem que não só eles podiam mudar a história, mas era o começo de tudo relacionado ao hockey naquele jogo, eu acredito. E eu sei que o Capelle ficou muito orgulhoso dos meninos, e todo o esforço que ele havia colocado até então também. Foi um momento muito, muito legal e nós usamos aquilo para vencer mais alguns jogos.
Treinador Jens Hinderlie e jogadores do Brasil no vestiário (cena do documentário ‘Sonhos de Gelo‘/LoonarCity: Jack Davis)
Na manhã seguinte, o Brasil manteve a invencibilidade na competição ao golear a Argentina ‘B’ por 7-0.
Tecchio: Clássico dos clássicos, né? Eles já tinham jogado contra o Brasil em 2014, se não me engano, tinham ganho do Brasil, e talvez não imaginavam que ia acontecer o resultado da forma que aconteceu.
Graciano: Desse jogo eu não lembro bem. Eu lembro que deu confusão, no que deu não sei. (risos) Brasil e Argentina sempre dá alguma confusão.
Hinderlie: Uma coisa que eu percebi logo com esses jogadores foi o fato de que era difícil para eles entender o que era um forecheck. Porque no inline você só está esperando o time voltar e vir até você, e você defende. Ter um forecheck agressivo é algo que a gente ainda tem dificuldade, mas aquele jogo em particular, eu lembro que, porque a gente tinha jogadores grandes, uma vez que eles aprenderam como dar hits e usar o corpo no gelo, isso desgasta o defensor e nós conseguimos ter muitas chances boas, colocar o puck na rede e marcar sete gols. Foi um momento em que eu vi o time começar a se ver como jogadores de ice hockey. Isso foi o que eu falei a semana inteira, o que significava ser um jogador de hockey. Muitos deles estavam lidando com lesões, porque eles nunca tinham recebido checks e isso definitivamente pesa no seu corpo, mas a gente foi o time dominante naquele jogo e conseguiu de fato usar nosso tamanho em nosso favor.
Vannuchi: Foi bem legal esse jogo contra a Argentina porque a gente conseguiu se soltar um pouco mais. Foi um resultado bem importante para construir a confiança da equipe.
Hämmerle: A gente pegou logo o México ‘B’ e depois a Argentina ‘B’, então deu para a gente começar um pouco mais devagar, e devagar que eu digo é pegar uns times mais fáceis no início para poder acostumar com o gelo.
Hinderlie: É um jogo bem simples uma vez que você bloqueia qualquer bobagem que às vezes entra na nossa cabeça quando você tenta fazer demais. Eles conseguiram se manter centrados e jogaram muito bem.
Tonietto: Jogar contra a Argentina é sempre interessante, porque é a rivalidade. Acho que isso existe em todo esporte, no hockey não é diferente. Por mais que a gente seja dois times que estão tentando crescer, tentando achar maneiras de jogar hockey, principalmente em 2015, a gente meio que se ajuda fora do gelo, a gente ainda é meio amigo, mas quando chega na hora do jogo, é jogo. Foi um jogo bom, mas foi um jogo mais fácil, porque o time ‘A’ e o time ‘B’ da Argentina tinham uma grande diferença de nível, então foi mais um ‘jogo de descanso’ entre todos os que a gente tinha. Ainda assim, serviu muito para ver como o time faz gol, quais jogadas dão certo, quais não dão certo, mudar linha, coisas assim que a gente precisa ter essa experiência, jogar contra um time mais fácil, para poder ajeitar as pequenas coisas e poder pegar depois os times mais complicados. Caiu na hora certa, no calendário, o segundo jogo ser contra a Argentina, a gente ganhou dois jogos seguidos e isso levantou a moral do time.
Tecchio: Nesse jogo também, tecnicamente a gente já conseguiu se soltar e viu que era bem mais superior talvez em nível de jogo. Ainda tínhamos nossas deficiências de fundamentos, de patinação e algumas coisas, mas ainda assim a gente conseguiu jogar. Até porque ganhamos de 7 a 0 e acho que podia ter sido até mais. Saímos bem contentes dessa partida.
Hinderlie: Essa foi a minha primeira experiência com (a rivalidade Brasil-Argentina), com certeza, e nos anos seguintes ela se mostrou um pouco mais. Mas foi legal vencê-los e, ironicamente, minha primeira experiência na América do Sul foi na Argentina, numa missão, quando eu tinha 19 anos. Quando eu cheguei lá eles me falavam ‘Boca ou River Plate’, era meio que a moda, e eu sempre tive meio que um amor pela Argentina por causa disso. Aí eu casei com uma brasileira e morei no Brasil e comecei a entender mais a cultura brasileira. Ambos são países ótimos, pessoas ótimas, é claro, mas a rivalidade é bem intensa e foi divertido testemunhar os jogadores se enfrentando e usando dessa rivalidade para jogar no gelo.
Na noite de sexta-feira, 5 de junho, a seleção brasileira sofreu a primeira derrota do torneio para a Colômbia, por 3-0.
Guilardi: A gente tinha empatado com eles num amistoso. Foi 3 a 3.
Gomes: Se não me engano, o amistoso teve que ser parado no meio porque quase terminou em briga.
Hinderlie: Eles estavam tentando se matar. Eles iam para cima dos nossos caras, nós íamos para cima dos caras deles, chegou num ponto em que o técnico da Colômbia e eu só falamos ‘Beleza, a gente precisa parar esse jogo porque vai sair do controle.’
Tecchio: Com certeza contra a Colômbia a nossa expectativa vinha alta. Como a gente tinha ganho esses dois jogos, empatado com eles (no amistoso), falou ‘Bom, vai ser elas com elas, vamos entrar junto com eles.’ Só que daí a gente sentiu que fisicamente o negócio apertou. Contra os meninos do México não tinha muita pressão, Argentina praticamente zero também. Mas contra eles não, contra eles virou aquele jogo de hockey que realmente talvez a gente nunca tivesse tido. Chegava o puck e já tinha um cara em cima de você, então você já tomava um check. Se você estava patinando sem olhar, ‘boom’… Então você não tinha tempo, era um jogo muito rápido, era realmente o que é o hockey no gelo.
Degani: E estava longe, né? Você tinha que receber o passe e ainda estava longe pra caramba do gol.
Tecchio: Ou quando chegava, você estava sozinho, só você e três colombianos chegando já. E eu acho que nesse jogo começou a pesar as pernas de todo mundo. Fisicamente, a gente já estava bem esgotado pela questão de carga horário de treinos, dos amistosos e dos jogos que vinham acontecendo.
Gomes: A gente chegava no banco e pegava no peitoral e tentava abrir e buscar ar porque ninguém conseguia respirar.
Guilardi: Quem estava na defesa percebia que o cansaço estava aumentando na frente e sem recuperação, e nesse jogo da Colômbia a gente sentiu muito. A gente limpou muita sujeira lá atrás. Não tinha muita condição de criar nada porque a gente estava sendo muito pressionado na defesa, então quando a gente pegava o puck, já estava tomando pancada, já estava sem condição de criar. E acho, na minha opinião, que a gente deu uma subidinha na cabeça achando ‘Não, a gente é bom, a gente ganhou aqui, ganhamos aqui, empatou com eles…’
Hämmerle: Mas eles não tinham o jogador principal deles (no amistoso), o capitão, Daniel Echeverri, que era, que é o melhor jogador dos caras.
Guilardi: Um jogador que é um diferencial e chegou na hora de jogar para valer com a gente e ‘apertaram o play’ do rapaz e ele fez valer a condição dele.
Vannuchi: Todos os anos que a Colômbia está com ele, ele leva o time nas costas, ele performa os resultados, então ele é o playmaker da coisa toda e ele realmente fazia diferença.
Tonietto: Esse jogo, na minha opinião, foi o melhor jogo que o Brasil jogou naquele ano, com exceção da medalha de bronze. A gente pegou um time da Colômbia pronto, tinha o número 10 que simplesmente estava destruindo, acho que ele foi, deve ter sido o principal jogador do torneio. E a gente só levou três gols deles. A defesa muito boa, o Allen, nosso goleiro, jogou muito bem, e a gente conseguiu segurar a Colômbia por um bom tempo.
Capelle: Esse jogador realmente fazia a diferença, eu não estou com a súmula aqui, mas, se não me engano, tenho certeza que ele fez os três gols.
Graciano: Eu lembro que a gente só não perdeu por mais porque o nosso goleiro segurou. Acho que era o nosso melhor jogador, ele conseguiu segurar bastante nesse jogo. Esse jogo foi a gente só defendendo, defendendo e indo no contra-ataque.
Hinderlie: Mas naquele jogo nós tivemos chances, tivemos um 5-contra-3 no começo, acho que estávamos perdendo por 2-0 e não conseguimos marcar. E o Daniel Echeverri, número 10 da Colômbia, basicamente tomou controle do jogo e marcou o terceiro no Allen. Nós jogamos forte e eu estava bem orgulhoso dos rapazes e do nosso esforço, mas a gente não conseguia achar um gol, e às vezes isso acontece. Mas no final, a Colômbia acabou vencendo o torneio, então foi um bom feito jogar com um time daquele calibre e que acabou ganhando e derrotando (o México) que, na minha opinião, no quesito habilidade, era o melhor. Nós tivemos oportunidades e não conseguimos convertê-las, porque a gente desafiou bastante a Colômbia. Echeverri tinha bastante o puck e controlava grande parte do jogo, mas quando a gente teve chances e segurou o forecheck, (o goleiro) estava lá para fazer a defesa.
Tonietto: Uma vitória seria muito melhor, mas ainda assim, vindo de duas vitórias, depois segurar a Colômbia no 3 a 0, nossa moral ainda estava muito boa depois do jogo, e o time batalhou muito.
Ruane: Sim, foi bom, mas nossa equipe não fez gol. É difícil ganhar sem gol. Eu não posso fazer gol, é muito difícil. (risos) Mas eu não gosto de perder jogos assim.
Tecchio: Mas a minha visão após o jogo contra a Colômbia, claro a gente perdeu, mas a gente saiu de quadra sabendo que tinha feito um bom jogo, talvez algumas coisas não tinham se ajustado e perdemos… e acho que a gente foi com a mesma confiança contra o México, só que daí o tombo foi um pouquinho maior.
O quarto jogo do Brasil foi contra a seleção principal do México, quase um dia inteiro depois da partida contra a Colômbia. Os brasileiros saíram na frente no placar, mas o time da casa respondeu com força e venceu por 11-1.
Hinderlie: De novo, esse foi um jogo com névoa. O desumidificador não estava funcionando direito o tempo todo e tinha bastante névoa na arena, o gelo estava mais macio do que o devido… mas nós usamos a névoa no começo e marcamos um gol logo na saída de um faceoff, eu acredito, na zona deles.
Custódio: Foi o Degani, na ‘fumaça’.
Graciano: Eu ganhei o faceoff para o Henrique Degani e ele fez o gol.
Hämmerle: Ele falou que chutou e nem conseguia ver o gol direito, de tão embaçado que estava. Eu não sei se foi algum problema de isolamento lá, ficou um nevoeiro absurdo na quadra. A gente falava ‘ó, todo mundo patina em círculos aí para ajudar o negócio a sair’ e aí ficou todo mundo patinando em círculos, e a gente teve que parar para fazer isso umas três, quatro vezes durante o jogo. Foi engraçado, sabe? Todo mundo já super cansado e ainda tinha que ficar patinando em volta. Era bom ao mesmo tempo porque dava uma descansadinha no jogo, mas não ajudou a gente muito, porque os caras descansaram também.
Faceoff entre Brasil e México ‘A’ em meio à névoa (Foto cortesia de Alexandre Capelle)
Hinderlie: O Degani marcou e eles marcaram onze gols depois. Quer dizer, a gente não está no mesmo nível. Eles são 30º no mundo, eu acho. Não tenho certeza hoje, mas na época eles eram.
Baptista: Foi o melhor time do México, na minha opinião, de todos os anos.
Tonietto: A moral estava boa e tudo mais, mas o time do México não era brincadeira. Eles tinham, não lembro se naquele ano ou no seguinte, mas eles tinham ganho um mundial Divisão II ou III, se não me engano. Sei que eles ganharam uns mundiais da IIHF mais ou menos com aquele time que a gente jogou. Era um nível muito acima da gente, o time inteiro treina junto o ano inteiro, todo mundo lá no México, então é bem difícil competir com um time desses quando a maioria dos nossos jogadores estavam aprendendo a patinar no gelo. Mas serviu meio que pra gente acordar e ver que o Brasil ainda tem muito para avançar e que a gente era praticamente o primeiro time que o Brasil teve de hockey no gelo.
Gomes: Se eu não me engano, acho que (o Jens) trocou (de goleiro) quando tomou o terceiro gol seguido. Já no primeiro tempo tomou três gols seguidos e ele tirou, e ele não voltou mais com o Allen.
Tecchio: Três chutes três gols, foi algo assim. A questão da névoa dentro do ginásio às vezes, parecia engraçado para quem estava fora, mas para nós às vezes até ficava meio perigoso, você não via de onde o cara vinha.
Hämmerle: Atrapalha demais, né? Você não consegue ver direito, o puck já vem super rápido pra você ver. Se a iluminação não tá muito boa já atrapalha muito, imagina quando tá foggy.
Tonietto: Eu lembro que o Brasil começou bem no início do primeiro período, mas não tem como, hockey é um jogo pegado, quando começam a jogar o corpo em cima da gente e tudo mais, e pegar a patinação, é bem difícil de correr atrás do jogo. E o México jogou muito bem, também teve isso. É natural também (ter muitas faltas), a pressão começa a subir e a gente estava jogando tão bem, veio de vários jogos que foram muito bons, para depois pegar um time que estava preparado e a gente não conseguiu se aguentar. Então um penalty atrás do outro contra um time que sabe jogar, que sabe patinar, tem um power play muito bem preparado, realmente não ajudou. Não foi que nem o jogo contra a Colômbia que a gente ficou responsável o jogo todo e conseguiu segurar por mais tempo.
Vannuchi: Era basicamente se defender. Eles eram muito fortes, muito consolidados, e esse jogador (Bruno Arroyo), o capitão do México, realmente era um diferencial, ele chamava a responsa. Foi um jogo de muito contato, eu lembro que foi um jogo muito violento
Gomes: Contra o México ‘A’ foi 40 faltas, alguma coisa assim.
Hinderlie: A gente se colocou na penalty kill demais. Provavelmente tivemos o maios número de penalties no torneio, e isso vai acontecer quando você tem jogadores que não sabem dar hit. E sinceramente, a arbitragem no México não era sempre o que talvez devesse ter sido…
Degani: Eu lembro que eles provocavam bastante também.
Tecchio: Eles sabiam que tinham o respaldo da arbitragem.
Gomes: A arbitragem foi ridícula. A gente já jogou campeonato sul-americano e tudo, mas no México foi tanto que a gente decidiu na última vez nunca mais ir também.
Tecchio: Contra o México eu acho que a gente pegou adultos, da nossa idade, caras mais fortes, e aí o negócio pegou mesmo. Foi um jogo de muito contato físico, tanto que isso se prorrogou para 2016 e 2017. A gente teve bons entreveros com eles, mesmo não tendo a mesma qualidade técnica. Mas fisicamente a gente sabia que não ia perder pra eles.
Degani: Eu lembro que uma hora o cara do México foi passar atrás do gol e eu falei ‘Nossa, vou arrebentar esse cara agora.’ Aí ele fez tipo o Sub-Zero, ele fez ‘vup, vup’ e eu não vi nada, só vi borda. Eu não sei pra onde ele foi, até agora estou procurando o cara. (risos)
O jogo da medalha
Diferentemente de outras edições do torneio, em 2015 a competição não contou com uma fase final, e foi definida em turno único. O quinto e último jogo do Brasil foi contra o time ‘A’ da Argentina, uma vitória por 6-1. A equipe brasileira terminou sua participação com nove pontos, ficando em terceiro lugar na classificação geral e conquistando, assim, a medalha de bronze.
Gomes: Essa foi boa, porque eu moro na Argentina e conheço o pessoal. Eles tinham certeza que iam ganhar da gente. Eles tinham certeza. Eu lembro muito bem disso, eles tinham uns gringos que jogavam para eles, muitos jogadores de gelo também, patinavam super bem, mas eles não tinham um time tão bom de jogadores de hockey, ou pelo menos do mesmo nível, e isso fez muita diferença. E a gente jogou muito forte. O quanto a gente derrubou eles no meio do gelo foi impressionante. E o Allen também, nesse jogo ele fechou o gol. Os caras chutavam e até desanimavam de chutar.
Capelle: Eles estavam crentes que iam ganhar, mas esse grupo era muito bom, a gente escolheu no dedo lá em Minas os jogadores, e todos com muita experiência.
Tecchio: Eu lembro que dentro do vestiário já a gente falou ‘Bom, a gente vai para um Brasil e Argentina, acho que é isso que talvez a gente mais espera dentro de um hockey sul-americano. Jogando no gelo ainda contra esses caras, vamos para destruir. Último jogo do campeonato, vamos fazer o que a gente tem que fazer lá.’ E as coisas saíram bem bacanas, acho que foram bons gols ainda.
Tonietto: Pelo que eu percebi, o clima era só ir e dar o nosso melhor, competir. Eu nao lembro como estava a classificação, não lembro se a vitória dava a medalha, mas eu lembro que a nossa mentalidade era ir e jogar o nosso melhor jogo, que é o que a gente pode fazer.
Capelle: Acho que a gente precisava ganhar senão o México ‘B’, pelo saldo de gols, ficaria em terceiro.
Gomes: Deu tudo que no último jogo era Colômbia e México e a gente sabia que era decisivo contra a Argentina, estava definido já.
Graciano: Deu mais briga com a Argentina ‘A’ do que com o ‘B’, o ‘B’ dava só umas discussões, agora com a ‘A’ deu bastante. É sempre legal ganhar (contra a Argentina), principalmente num torneio em que está todo mundo no mesmo barco, tirando o México. Mas jogar contra a Argentina é sempre legal a rivalidade.
Ruane: Acho que é da cultura do brasileiro, tem que ganhar contra a Argentina, todo ano é assim. (risos)
Tonietto: Ganhar da Argentina é ótimo, ganhar do time ‘A’ da Argentina está ficando cada vez mais difícil, todo ano é mais difícil.
Hinderlie: Esse foi um jogo muito bom. Eu tenho quase certeza de que a gente tinha levado em consideração os pontos e sabia que se ganhasse a gente levaria o bronze. Foi similar ao primeiro jogo, contra o México ‘B’, foi surreal, os caras realmente apareceram e continuaram jogando forte durante todo o torneio. Tirando contra o México ‘A’, a gente estava em toda partida e jogamos o nosso jogo. Nesse jogo eu acho que coloquei o Lu, o Degani e o Yan juntos e eles foram super bem. E o Johnny foi uma força consistente com o Bruno o torneio inteiro. Porque o Johnny é nosso principal center, quem disputava o puck e ele ganhou muitos faceoffs para a gente.
Gomes: A gente jogou super bem. A gente terminou esse campeonato e era impressionante a diferença do primeiro jogo amistoso para o último jogo. Impressionante a melhora do time, individual e no todo.
Vannuchi: A experiência jogou para o nosso lado muito bem, então a gente soube lidar com essa intensidade toda do jogo devido à experiência dos jogadores. A gente tinha uma galera já da velha guarda que soube dosar muito bem. Foi o auge. Quando você vê acontecendo, concretizando todo aquele esforço, e uma coisa improvável, né? Quem dava para a gente que a gente ia chegar a conquistar uma medalha de bronze?
Medalha de bronze entregue ao Brasil após o torneio (Foto cortesia de Alexandre Capelle)
Gomes: Sobre essa vitória nossa, acho que foi aí que a gente decidiu que podia ser jogador de gelo e que o hockey brasileiro podia ir para esse lado também, não só roller hockey. Acho que foi muito importante. Quem gosta de hockey, quem ama hockey, a maioria começou vendo e se apaixonando pelo gelo, e foi um sonho estar dentro do gelo, jogando nesse nível. Então foi uma realização para todos.
*Capelle: Eu estava no banco como dirigente e treinador auxiliar do Jens, cuidando do ataque. Fiquei muito feliz no final do jogo e com a importante conquista da medalha de bronze para o Brasil. Foi a primeira medalha que o brasil conquistou num campeonato de hockey no gelo, a primeira de um país sul-americano. Foi maravilhoso. Parabéns a todos os envolvidos.
Hämmerle: Foi sensacional a gente de pé lá no gelo esperando a medalha. Você fica com tanta adrenalina que até esquece das coisas, aí toca o hino e tu chora, muito maneiro.
Tonietto: Eu lembro muito bem a sensação da medalha, sabe? Só estar na fila lá para receber a medalha depois do jogo.
Vannuchi: Foi como se a gente ganhasse o campeonato porque a gente não esperava. A medalha de bronze era uma coisa que parecia longe. E quando você vê que estava acontecendo, esses minutos sempre muito intensos emocionalmente para o atleta, e você saber dosar isso foi a grande diferença da equipe do Brasil. Foi sensacional, a gente indo lá todo mundo no goleiro, todo mundo comemorando, foi algo emocionante, assim, uma comemoração como se fosse um título mesmo.
Depois do torneio
Tonietto: Foi uma festa que eu não imaginava jamais fazer parte disso, sou muito grato de ter incomodado o Capelle para ter ido e fazer parte disso. Foi simplesmente incrível, não tenho nem palavras pra dizer.
Hämmerle: A gente ter conseguido aquela medalha ali foi sensacional, acho que foi a maior conquista da minha vida até hoje, e eu tenho o maior orgulho daquilo. Por mais que eu não tenha jogado, eu estava ali em todos os treinos e eu me empenhei e tava com meus amigos, e foi sensacional. E me fez desenvolver como atleta demais também, porque você tá lá, você tá vendo tudo, você tá participando então você cresce, você cria vínculos mesmo. É muito bom, queria muito voltar no tempo e poder fazer de novo.
Degani: Para a comunidade aqui, brasileira, do hockey foi muito importante esse campeonato. Acho que muita gente que não enxergava o hockey brasileiro como podendo estar presente no cenário mundial, mudou bastante esse conceito. Porque no hockey inline a gente sempre teve conquistas excelentes. A gente teve resultados ótimos, mas mesmo tendo esse respeito no cenário mundial, acho que mesmo dentro do Brasil o fato da gente não ter nenhuma conquista no hockey no gelo, o pessoal falava ‘ah, mas é só inline.’ Acho que para dentro da comunidade brasileira de hockey foi muito importante participar desse campeonato e mais ainda ter ganho essa medalha.
Capelle: Hockey é hockey. É claro que existe uma transição, alguns que podem e jogam no gelo todo dia, outros ficam um ano sem jogar e põem os patins, mas o time evoluiu muito e hoje eu tenho a maior felicidade de ter essa medalha aqui. A gente está no país do futebol, mas uma medalha assim acho que é a mais importante que eu tenho.
Hämmerle: A gente está tentando crescer o esporte, mas tem que ser aos poucos, tem que ter paciência, a gente tem que fazer o que a gente pode e da melhor maneira possível. Daqui a pouco aparecem aí os caras que são melhores que eu, que o Bruno, que o Fifo, o Degani, e vão tomar o nosso lugar, mas alguém tem que começar.
Hinderlie: Foi ótimo ter aquele primeiro torneio de experiência como um time de verdade e eu sinto que muitos dos jogadores achavam que as coisas iam mudar e talvez teria um pouco mais de estrutura e organização, e até hoje isso é difícil, porque não tem um rinque de verdade.
Hämmerle: Hoje a gente está colhendo um pouco dos frutos do que gente fez em 2015. Porque se você for parar pra pensar, o que a gente fez em 2015 não vai trazer frutos em 2016. Nada funciona tão rápido desse jeito.
Hinderlie: Estou animado com o que vai acontecer. Tenho esperança de que como organização a gente possa dar mais oportunidades ao maior número de pessoas possível para jogar esse jogo fantástico. É o melhor esporte coletivo porque você precisa sempre ter certeza de que todos estão na mesma página. Porque se você tem pessoas que são só passageiros e não trabalham junto com o resto, você não vai tem um time de sucesso. Eu acho que o hockey no gelo é um modelo para ajudar as pessoas, no geral, unir todo mundo, porque vivemos em um mundo politizado agora em que tudo é tão dividido e chega a ser repugnante, e eu penso que é ótimo ter um esporte como o hockey, em que você pode colocar tudo de lado e trabalhar em equipe e tentar conquistar algo maior do que você. Isso é o que eu sempre falei para o pessoal, não é sobre você como indivíduo, é sobre o time, sobre todos se unindo e trabalhando duro e usando seus dons e talentos para ajudar o time. Nem todo mundo vai ser um artilheiro, mas você pode entrar no gelo e, se você estiver se movimentando e se esforçando, você pode fazer coisas boas acontecerem, e isso, no final, é o que significa ser um jogador de hockey de sucesso.
*: depoimento editado pós-entrevista, a pedido da fonte.
Seis temporadas. Foi este o tempo necessário que o Chicago Blackhawks levou para conquistar três Stanley Cups. Isso diz muito sobre o time que os Hawks construíram neste período: consistente, equilibrado e campeão.
O ano de 2015 teve gosto agridoce para o time de Chicago. Foi a última taça, na década, conquistada pela equipe, mas que foi precedida de uma temporada espetacular e de superação.
Essa edição do 10 for 10 nos coloca diretamente em 2015 para revisitar a conquista da Stanley Cup pelos Blackhawks.
A temporada
Na pré temporada de 2014-15, os Blackhawks contrataram um novo técnico assistente, Kevin Dineen, com intuito de reforçar a equipe técnica para nova temporada que já batia à porta. Dineen já havia sido colega de time do então head coach dos Hawks, Joel Quenneville, uma das peças essenciais na conquista das duas Stanley Cups anteriores.
A equipe estreou na temporada em 9 de outubro contra o Dallas Stars, na casa do oponente e Chicago saiu vitorioso do confronto, começando o ano em uma nota positiva. Posteriormente, o calendário seguiu em um bom ritmo para Chicago e, ao fim de 2014, a equipe possuía um recorde de 25-10-2, encontrando-se, desta forma, na zona de classificação para os playoffs.
Apesar de estar em boa fase até o momento, o fim de 2014 trouxe notícias trágicas para os Blackhawks: o falecimento do equipment manager da equipe, Clint Reif. O fato abalou toda a equipe, já que Reif era alguém muito querido pela organização. O time acabou fazendo uma homenagem ao falecido funcionário em uma partida contra os Leafs, na qual os jogadores utilizaram as iniciais de Clint em seus capacetes, e a arena inteira fez um minuto de silêncio antes do jogo começar.
Homenagem do Chicago Blackhawks à Clint Reif
O ano de 2015 se iniciou para o time com a sua participação no Winter Classic. O jogo foi disputado contra os Capitals, em Washington, diante de um Nationals Park lotado. No entanto, o fim da partida não foi feliz para a equipe visitante, que acabou voltando para Chicago com uma derrota de 3 a 2.
No restante do mês de janeiro e fevereiro, os Hawks não protagonizam as melhores performances da temporada, e, desta forma, acabam somando muitas derrotas. Porém, em Março, as coisas acabam por se equilibrar, e durante todo o mês, a equipe acabou perdendo apenas 3 jogos.
Infelizmente, um mês e alguns dias após a morte de Reif, Chicago recebeu outra notícia fatídica. Steve Montador, ex-jogador da equipe na temporada 2011-12, também veio a falecer, na metade de fevereiro. O jogador era especialmente próximo de Daniel Carcillo, que ainda jogava pelos Hawks naquele ano. Posteriormente, o cérebro do ex-jogador foi estudado e, em suma, descobriu-se que este sofria de CTE, Encefalopatia Traumática Crônica. A doença foi causada pelas fortes concussões que o atleta sofreu durante a carreira, e sua morte abalou a comunidade do hockey.
Finalmente, a temporada regular chegou ao fim para o Chicago em 11 de abril de 2015, com uma partida contra o Colorado Avalanche. O time, por fim, finalizou o ano com uma campanha de 48-28-6, ocupando o terceiro lugar na Divisão Central e o quarto na Conferência Oeste, com 102 pontos. Assim, na sétima posição overall da Liga, os Blackhawks partiram para os playoffs e as expectativas eram altas.
Os Playoffs
Se formos falar de times que conhecem muito bem os playoffs e a sua dinâmica, esse time é Chicago, principalmente na última década. Após o dois campeonatos conquistados anteriormente, e passando perto em outros anos, os Hawks iniciam sua jornada até a Stanley Cup confiantes de seu potencial, levando este como combustível durante sua estadia na pós-temporada.
O primeiro adversário da equipe foi o Nashville Predators. Este que também vinha de uma grande temporada regular, tendo finalizado esta uma posição acima dos Hawks na Divisão Central.
Chicago ganhou a primeira partida, disputada na casa do adversário, porém perdeu o segundo confronto, também em Nashville. A equipe então voltou para casa, disputando os dois jogos seguintes no United Center e levando a vitória nos dois confrontos. Se vencesse o jogo 5, os Blackhawks passariam diretamente para o segundo round dos playoffs. No entanto, Nashville venceu a quinta partida, levando a série para um jogo seis. Por fim, Chicago saiu vitorioso no sexto confrontro e se classificou para a segunda etapa da competição.
Desta vez, o oponente era o Minnesota Wild. De todos os confrontos, este foi o que o time menos encontrou resistência. A equipe venceu as duas primeiras partidas diante de sua torcida e, seguidamente, as outras duas disputadas na casa do Minnesota. Após quatro vitórias seguidas, os Blackhawks, por fim, avançaram para as Finais de Conferência.
Uma rodada e o Anaheim Ducks. Era apenas isso que separava o Chicago da Final da Stanley Cup. Talvez, esta tenha sido a etapa em que a equipe mais encontrou dificuldades, precisando de todos os sete jogos contra o time de Anaheim. Durante o primeiro jogo do round, os Hawks perderam na casa dos seus adversários. Porém, garantiram uma vitória na segunda partida, deixando assim a sérieequilibrada. Seguidamente, nos Jogos 3 e 4, Chicago voltou para a casa, novamente perdendo uma partida e vencendo a outra. Com a etapa empatada, os times voltaram para Anaheim, onde os Ducks acabam levando a melhor. Mas, ao vencer o Jogo 6, os Blackhawks forçaram uma sétima partida, e, diante dos fãs do seu oponente, a equipe venceu, encaminhando-se por fim para a Final da Stanley Cup.
O destino final do time de Chicago era o confronto contra o Tampa Bay Lightning. Apesar de ter vencido o primeiro confronto, os Hawks acabaram perdendo os dois jogos seguintes, sendo um deles em casa. No entanto, a equipe volta a vencer o Jogo 4 e, em seguida, o Jogo 5. Desta forma, com três vitórias contra duas de Tampa Bay, caso o time vencesse a sexta partida, se consagraria, então, o campeão da Stanley Cup.
Blackhawks campeão
Felizmente para o time da casa, o Jogo 6 aconteceu em Chicago. Aqui, a única coisa que mantia os Hawks longe da Stanley Cup era apenas uma vitória contra Tampa Bay.
A equipe começou bem. Apesar de nenhum dos times ter marcado no primeiro período da partida, foi a equipe da casa quem deu o pontapé inicial, abrindo o placar com um gol de Duncan Keith. É apenas com este gol que a partida se mantém durante o terceiro período. Por um tempo.
Aos 14:46 da última etapa do jogo, Patrick Kane coloca o puck no fundo da rede, aumentando mais ainda a vantagem dos Blackhawks. Nos minutos que se seguiram ao fim do jogo, a equipe da casa continuou segurando o placar.
Quando a sirene final soou, com o placar de 2 a 0 sobre o Tampa Bay Lightning, e diante de um United Center lotado de torcedores eufóricos, o Chicago Blackhawks foi coroado o campeão da Stanley Cup da temporada 2014-15.
Jonathan Toews levantou a Stanley Cup pela terceira vez em cinco anos mas, desta vez, com um gosto especial para o time: das três conquistas, esta foi a primeira em que o capitão ergueu o troféu diante da própria torcida do Chicago Blackhawks. Após a partida, Duncan Keith acabou faturando o Conn Smythe Trophy, eleito o jogador mais valioso (MVP) dos playoffs.
Além da festa no United Center, o time comemorou com um desfile, que lotou as ruas de Chicago das cores e de torcedores do time, e contou com cerca de 2 milhões de pessoas que comemoraram a conquista junto aos jogadores.
2015 marcou o fim de um ciclo para o Chicago. A conquista de três troféus em cinco anos acaba falando muito sobre como a equipe se construiu e reconstruiu neste período, e o porquê levou, merecidamente, o título de melhor equipe da década passada.
Os Blackhawks não foram perfeitos em boa parte destas temporadas, mas não existe espaço para perfeição completa nos esportes. Há erros e acertos. Às vezes mais uns do que outros. Mas, acima de tudo, existe muito trabalho árduo – o suficiente para que três campeonatos fossem conquistados por Chicago em seis anos, e isso ninguém nunca poderá tirar do time, porque ficou marcado na história.
Os últimos anos não têm sido fáceis para os Hawks, e o time tem passado por uma fase de transição. Portanto, como bons fãs do esporte, que possamos lembrar e apreciar essas conquistas e, desta forma, torcer para que, num futuro não muito distante, os Blackhawks voltem a repetir os mesmo êxitos da última década.
Poucos drafts, em qualquer liga que seja, têm o impacto que a seleção de 2015 causou na NHL. Encabeçada pelo talento generacional de Connor McDavid, a classe produziu um grande número de grande jogadores. Alguns deles inclusive chegam aos status de superstar ou franchise player, tamanha a sua qualidade. A última vez que um prospect foi tão desejado e esperado pelas equipes no páreo para a primeira escolha havia ocorrido dez anos antes. Na ocasião, em 2005, Sidney Crosby foi draftado por Pittsburgh.
Com a first pick de 2015, o Edmonton Oilers somava quatro ocasiões em que haviam figurado no topo do draft em uma mesma década. Entretanto, o último nome que a equipe de Alberta havia escolhido, Nail Yakupov, não havia rendido o que se esperava dele. Acrescentar um jogador do calibre de McDavid não implicaria em apenas um aumento na qualidade do plantel. Isso também seria um boost na confiança do torcedor na equipe. Além disso, existe todo o retorno financeiro que ter um superstar proporciona.
O resto do top 3 foi completado pelo Buffalo Sabres, cujos fãs levavam cartazes com os dizeres “Tank for McDavid” (afundem por McDavid, em tradução literal) à arena, e pelo Arizona Coyotes. Em um mar de prospects de qualidade, equipes como Boston, que possuía três escolhas seguidas (#13, #14 e #15), tiveram a oportunidade de selecionar peças importantes para o rejuvenescimento de sua equipe.
A carreira de McDavid na Ontario Hockey League (OHL) já começou dando indícios de como seria dali para a frente. Ao ganhar status excepcional, o canadense se juntou ao Erie Otters com 15 anos de idade. Antes disso, McDavid cogitou a possibilidade de não atuar na Canadian Hockey League (CHL). Assim seria elegível para o hockey universitário, onde atuaria pela Boston University.
Uma vez nos Otters, o canadense já começou sua carreira junior quebrando recordes de maior pontuação por um novato e foi escolhido o rookie do ano na OHL em 2013. Nos anos seguintes McDavid foi ganhando cada vez mais destaque entre os jovens atletas da CHL e em 2014/2015 foi escolhido capitão da sua equipe. Tido como um futuro franchise player em potencial muito antes de seu draft, a possibilidade de poder escolher McDavid colocou muitos times em polvorosa.
Em seu ano de elegibilidade o canadense ficou fora de comissão quase dois meses após quebrar a sua mão em uma briga. Ainda assim, o center teve números significativos na temporada regular da OHL. Além disso, foi o vencedor do prêmio Wayne Gretzky 99, dado ao melhor jogador dos playoffs. A trajetória de McDavid no major juniors se encerrou em 2015 com seu draft. O atleta venceu os prêmios de melhor jogador da OHL e da CHL, se tornando o mais premiado da história da Ontario Hockey League.
Depois de ter sido escolhido por Edmonton, ele assinou seu contrato com o time e fez sua estreia na NHL em outubro de 2015. Entretanto, a campanha de rookie de McDavid foi interrompida após uma partida contra o Philadelphia Flyers. Após uma colisão com um defensor, o center quebrou a clavícula em novembro. McDavid retornou ao gelo apenas em fevereiro, perdendo quatro meses da temporada regular dos Oilers. Ainda assim, o atleta foi um dos finalistas do Calder Memorial Trophy, dado ao rookie do ano, mesmo tendo disputado apenas pouco mais da metade das partidas da sua equipe na temporada. Naquela off-season, o center se tornou o capitão mais jovem da NHL ao receber o C do Edmonton Oilers.
A temporada seguinte foi a guinada para a ascensão de McDavid como um dos melhores, quiçá não o melhor, da Liga. Com uma combinação letal de velocidade e habilidade, o canadense alcançou a marca de 100 pontos ao final de seu segundo ano na NHL. Com 30 gols e 70 assistências, ele venceu o Art Ross Trophy, o Ted Lindsay Award e o Hart Memorial Trophy, além de ter chegado ao segundo round dos playoffs com os Oilers. McDavid foi apenas o décimo atleta a vencer todos os troféus em uma mesma noite na história da Liga. Ainda naquela intertemporada, o canadense estendeu seu compromisso com os Oilers por mais oito anos, passando a ter o maior salário da NHL com 12.5 milhões de dólares anuais.
Nos dois anos seguintes McDavid superou sua campanha premiada, anotando 108 e 116 pontos em 2017/2018 e 2018/2019, respectivamente. Entretanto, o desempenho de sua equipe continuou deixando a desejar, apesar do canadense ter Leon Draisaitl (tal qual Sidney Crosby tem Evgeni Malkin) ao seu lado para partilhar a responsabilidade ofensiva dos Oilers. Os resultados decepcionantes fizeram inclusive com que a habilidade de liderar do center tivesse sido posta em xeque. Edmonton teve então mudanças tanto na comissão técnica quanto em seus gestores, com o fim da era Chiarelli no início de 2019. Em 2018 McDavid foi novamente contemplado com o Art Ross e o Ted Lindsay, além de ter sido um All-Star em todos os anos desde 2017.
Atualmente o canadense é, sem dúvidas, um dos maiores nomes do esporte e já busca seu espaço no Olimpo dos melhores do hockey. Entretanto, embora McDavid tenha números impressionantes (afinal, o atleta tem 469 pontos em 351 partidas), a falta de campanhas vitoriosas com seu Edmonton Oilers é a grande questão para legado do jovem center na Liga. Todavia, para a sorte de McDavid, o atleta tem apenas 23 anos e uma abundância de talento, talvez ele apenas precise de um empurrãozinho dos deuses do hockey para trazer a Stanley Cup de volta a Edmonton.
JACK EICHEL, C, BUFFALO SABRES (#2 overall): o prêmio de consolação na forma de o “faz-tudo” de Buffalo
Ainda que o jogador que fosse selecionado após Connor McDavid tivesse uma autoestima maior do que a Via Láctea (e a deste second pick chega perto disso), seria difícil competir pelos holofotes com o center canadense. Afinal, o Buffalo Sabres havia abertamente tentado perder o máximo possível para otimizar suas chances de ganhar a primeira escolha daquele ano.
Em um ano comum, uma equipe ficaria em êxtase ao ter um atleta como Eichel cair em seu colo com a segunda escolha. Todavia, no draft de 2015 o americano representava nada mais do que o fato de que Buffalo havia perdido a loteria e, consequentemente, a chance de draftar Connor McDavid. Mas posteriormente à sua chegada em Buffalo com uma espécie de complexo de inferioridade em cima dele como uma nuvem tempestuosa, Eichel teve muito sucesso antes de se profissionalizar.
Como grande parte dos atletas americanos, ele passou dois anos no USA Hockey National Team Development Program (USNTDP) entre 2012/2013 e 2013/2014. Na temporada seguinte Eichel foi para a NCAA (National Collegiate Athletic Association) jogar hockey universitário com os Terriers da Boston University. Será que em um universo paralelo Eichel e McDavid seriam parceiros de equipe na Boston University ao invés de rivais?
Antes do draft Eichel venceu o Hobey Baker, prêmio de melhor atleta universitário, o primeiro calouro a ter esta honra desde Paul Kariya em 1993. Após ser escolhido como artilheiro da Hockey East, jogador do ano, calouro do ano e MVP da conferência, dentre outras honras, o americano finalizou a temporada em segundo lugar no ranking dos patinadores norte-americanos.
Eichel assinou seu contrato profissional logo após o draft, tendo, assim, encerrado sua carreira universitária. O americano estreou na NHL quebrando recordes, ao se tornar o Sabre mais jovem a marcar um gol, no início de outubro de 2015. O center terminou sua temporada inaugural na Liga somando 56 pontos em 81 partidas, atrás apenas do, então atleta de Buffalo, Ryan O’Reilly.
A temporada seguinte foi mais curta para o americano, que se lesionou no primeiro jogo e ficou quase três meses fora do rinque. Ainda assim, Eichel terminou o ano com 57 pontos em 61 partidas, superando os números do ano anterior com 20 jogos a menos. Naquela off-season o center também teve seu contrato com Buffalo estendido por mais oito anos, por nada menos do que 10 milhões anuais.
Durante a próxima temporada Eichel foi escolhido para o All Star Game de 2018 e aumentou sua produção ofensiva, embora tenha sofrido outra lesão que o fez perder jogos. Ele terminou o ano com 64 pontos em 67 partidas. Antes do início de 2018/2019 o atleta teve duas grandes mudanças em sua jersey: a alteração do número 15 para o 9, que ele usava na BU, além do C que passou a figurar no seu peito. Em 2018/2019 Eichel teve sua melhor campanha até hoje, com 82 pontos em 77 partidas e, no ano seguinte, 78 pontos em 68 partidas.
Atualmente Eichel tem 337 pontos em 354 partidas e é um center importante não apenas para a sua equipe, assim como para o futuro da seleção americana. Entretanto, após Auston Matthews ter despontado como a maior jovem estrela do hockey americano, o capitão dos Sabres ficou, novamente, em segundo plano.
DYLAN STROME, C, ARIZONA COYOTES (#3 overall): quando tudo o que precisava era trocar o deserto pela ventania
Se alguém sabe o que é ser colocado em segundo plano ao dividir os holofotes com Connor McDavid, esse alguém é Dylan Strome, mas o canadense está acostumado com isso. Vindo de uma família de jogadores de hockey, Strome é o segundo dos irmãos a chegar até a NHL. Seu irmão mais velho, Ryan Strome, é jogador do New York Rangers (e ex-companheiro de McDavid nos Oilers), enquanto o mais novo, Matthew Strome, é prospect do Philadelphia Flyers. O center iniciou sua carreira no major juniors em 2013, pelo Erie Otters da OHL.
Ainda que McDavid fosse o centro das atenções na equipe, Strome se destacou por sua proficiência no ataque. Afinal, ele venceu o prêmio de maior pontuador tanto da OHL quanto da CHL no seu ano de elegibilidade. Uma das razões pelas quais o atleta foi ranqueado em quarto entre os patinadores da América do Norte foi o seu tamanho e tenacidade, que compensavam as deficiências técnicas claras em sua patinação (algo que é comum a todos os irmãos Strome, que são notoriamente patinadores ruins).
Embora o center tenha assinado seu contrato com os Coyotes logo após o draft, ele retornou ao Erie Otters para amadurecer seu jogo. Na OHL ele forjou uma parceria com Alex DeBrincat, estando este em seu ano de elegibilidade para o draft de 2016, e os dois encontraram sucesso juntos. No ano seguinte Strome finalmente fez sua estreia na NHL, mas em novembro Arizona decidiu que ele ainda precisava de mais tempo de major juniors, mandando-o de volta para os Otters.
Tendo atingido o limite de idade permitido para competir na CHL, o center finalmente passou a integrar o elenco dos Yotes. Entretanto, depois de um início decepcionante sem pontuar, o canadense foi enviado para o Tucson Roadrunners, afiliado da American Hockey League (AHL). Em 50 partidas na AHL, ele fez 53 pontos e foi escolhido como All Star desta liga. O retorno à NHL se deu apenas em março de 2018 e o center terminou a temporada com os Coyotes. Ao não se classificarem para a pós temporada a equipe retornou Strome aos Roadrunners para a campanha do time nos playoffs da Calder Cup.
Embora Strome tenha sido draftado com o pedigree de um top prospect, seu desenvolvimento não estava acontecendo no ritmo esperado por Arizona. Por isso, em novembro de 2018 ele foi trocado, juntamente com Brandon Perlini, para o Chicago Blackhawks, por Nick Schmaltz. A mudança de ares parece ter tido um efeito positivo no canadense, que se reuniu com seu ex-companheiro de OHL, DeBrincat, e o center terminou a sua primeira temporada nos Hawks com 51 pontos em 58 partidas. Atualmente Strome soma 105 pontos em 164 partidas na NHL.
MITCH MARNER, C/RW, TORONTO MAPLE LEAFS (#4 overall): vivendo um sonho de infância
Como (quase) toda criança na Greater Toronto Area (GTA), Mitch Marner cresceu torcendo pelo Toronto Maple Leafs. Embora tenha recebido uma oferta de bolsa da Universidade de Michigan, a carreira do jogador canadense iniciou-se no London Knights da OHL. Por sua estatura pequena e porte físico mais miúdo, Marner gerava dúvidas nos olheiros, que preocupavam-se com seu desenvolvimento. Entretanto, o talento do jovem foi o bastante para que esses questionamentos ficassem em segundo plano, e ele acabou sendo draftado em quarto por seu time do coração.
Anotando 59 jogos em 64 partidas, Marner ficou em segundo na corrida por rookie do ano da OHL, sendo desbancado apenas por Travis Konecny, então do Ottawa 67’s. Em seu ano de elegibilidade para o draft, o canadense encontrou em Max Domi o parceiro de linha perfeito. Assim, apesar do seu físico, Marner ficou ranqueado entre os melhores patinadores da América do Norte. Escolhido em quarto por Toronto, ele assinou seu contrato imediatamente, mas retornou à OHL para prosseguir com o seu desenvolvimento, tanto físico quanto técnico.
A temporada seguinte foi como um sonho para o recém-nomeado co-capitão dos Knights. Jogando com Christian Dvorak e Matthew Tkachuk, Marner levou a equipe de London não só ao título da OHL, assim como à Memorial Cup. Ele foi o recipiente do troféu Wayne Gretzky 99, assim como os títulos de MVP e artilheiro das finais da CHL. Não foi uma surpresa quando, no início da temporada 2016/2017, Marner passou a fazer parte do plantel do Toronto Maple Leafs.
O winger terminou a primeira temporada com 61 pontos em 77 jogos, mesmo tendo contraído mononucleose na segunda parte da temporada. Marner ajudou sua equipe a chegar na pós-temporada, onde os Leafs foram eliminados no primeiro round por Washington. Juntamente com Auston Matthews, o canadense se tornou a face do revival dos Maple Leafs nessa nova era do clube. No ano seguinte Marner terminou a temporada com 69 pontos em 82 jogos, mas sua equipe amargou outra derrota no primeiro round, dessa vez para o Boston Bruins.
A terceira temporada do atleta na NHL, em 2018/2019, também era a última de seu contrato de novato. Marner anotou 26 gols e 68 assistências, somando 94 pontos em 82 jogos, sua melhor campanha até agora. A pós-temporada chegou com o canadense cheio de polêmicas à sua volta, especialmente pelos comentários feitos por sua assessoria e vazados na imprensa de Toronto. Depois que Matthews estendeu seu contrato, parecia que Marner havia ficado em segundo plano.
Entretanto, depois de idas e vindas, time e jogador conseguiram entrar em acordo e o winger teve seu compromisso estendido com os Leafs por mais seis anos, avaliado em cerca de 10.9 milhões anuais. Nesta última temporada o atleta somou 67 pontos em em 59 partidas antes da paralisação pela pandemia do COVID-19. No total, Marner tem 291 pontos em 300 jogos (83 G e 208 A).
NOAH HANIFIN, D, CAROLINA HURRICANES (#5 overall): o menino de Boston que foi de Carolina a Calgary
Hanifin atuou pelo USNTDP por um ano, durante a temporada 2013/2014 antes de iniciar sua carreira universitária aos 17 anos, com os Eagles da Boston College. Com o melhor ranking de um defensor na América do Norte (3º lugar), o americano poderia ter sido draftado em qualquer posição após o top 2 já esperado. Entretanto, foi Carolina que o escolheu na quinta posição, para continuar o processo de rejuvenescimento da sua defesa.
Tal como McDavid e Eichel, o defensor estreou na NHL logo após ser draftado. Durante os três anos em que atuou pelos Canes, o americano foi protegido de embates mais complexos, para que seu jogo pudesse se desenvolver no tempo certo até atingir certa maturidade. O americano foi o representante da equipe de Carolina no All Star Game de 2018, a primeira vez que ele foi para o evento. Entretanto, a história de Hanifin com a equipe de Raleigh viu seu fim na intertemporada de 2018.
O defensor, juntamente com Elias Lindholm, foi trocado para o Calgary Flames por Dougie Hamilton, Micheal Ferland e os direitos de Adam Fox, prospect que atuava pela Universidade de Harvard. Em Calgary o jogador passou a ter mais responsabilidades, além de um lugar fixo no top 4 da defesa dos Flames, geralmente formando um par com Travis Hamonic. Embora o defensor tenha dado passos largos em seu desenvolvimento, ainda há um bom caminho a se percorrer para que ele se torne um defensor de peso na Liga.
Ainda assim, Hanifin tem sido importante como um dos principais nomes da defesa de Calgary. O americano é o atleta da classe de 2015 com mais jogos disputados, 389, com uma boa folga em relação aos dois mais próximos desse número, Eichel (354) e McDavid (351). Atualmente ele soma 138 pontos em 389 jogos e no ano passado seu contrato com os Flames foi estendido por seis anos, avaliado em cerca de 4.95 milhões anuais.
IVAN PROVOROV, D, PHILADELPHIA FLYERS (#7 overall): futuro defensor de elite ou espião russo contratado para vigiar o Gritty?
Com a NHL como seu objetivo final, Provorov se mudou da Rússia para os Estados Unidos alguns anos antes de atingir a idade para jogar no major juniors. Assim, quando foi selecionado para o Brandon Wheat Kings da Western Hockey League (WHL), o russo já havia se familiarizado com a cultura norte-americana, assim como as dimensões do gelo e até mesmo a língua. Em seu ano de elegibilidade o defensor fez 61 pontos em 60 partidas pelos Wheat Kings, sendo selecionado pelos Flyers com a sétima escolha do draft.
O russo então assinou seu contrato com a equipe, mas foi retornado à WHL para adquirir mais experiência. A temporada da equipe de Manitoba em 2015/2016 foi quase como um sonho de fadas, já que Brandon venceu o título da WHL e chegou nas finais da Memorial Cup. Entretanto, a equipe não conseguiu vencer sequer uma partida. Ainda assim, Provorov foi selecionado o melhor defensor da WHL naquele ano.
No ano seguinte o russo conseguiu se firmar na equipe dos Flyers depois de impressionar no training camp. Desde então Provorov não deixou de jogar sequer uma partida pela equipe da Filadélfia. Ao final de sua temporada de estreia, o defensor foi selecionado como o melhor de sua posição na equipe, em premiação interna. Ele terminou sua campanha de rookie com 30 pontos em 82 aparições pelos Flyers. Já em 2017/2018 Provorov jogou os playoffs da NHL pela primeira vez em sua carreira, perdendo para o Pittsburgh Penguins no primeiro round.
Mesmo com a derrota, o russo se destacou durante a temporada regular, e foi se firmando cada vez mais como o nome do futuro na defesa laranja. Nos playoffs, Provorov jogou com uma lesão relativamente séria no ombro, que dificultava certos movimentos, inclusive a pegada em seu stick. Em 2018/2019 o jogador teve atuações menos constantes, o que gerou preocupação acerca do seu desenvolvimento, mas na última temporada regular ele voltou a produzir e atuar como um top defenseman. Na intertemporada de 2019 os Flyers estenderam o contrato do russo por mais seis anos, com um salário anual de cerca de 6.75 milhões de dólares.
ZACH WERENSKI, D, COLUMBUS BLUE JACKETS (#8 overall): Big Z chegou com um bang!
Assim como Eichel e Hanifin, Werenski também fez parte do USNTDP antes de iniciar sua carreira universitária. E assim como os dois nativos de Massachusetts, o defensor americano também optou por uma universidade de seu estado, que no caso dele é a Universidade de Michigan. Após jogar seu ano de elegibilidade na NCAA, Werenski foi a escolha do Columbus Blue Jackets no primeiro round do draft de 2015.
Em 2015/2016 o defensor retornou ao Michigan Wolverines para sua segunda temporada com a equipe, e quando esta se finalizou ele assinou seu contrato profissional com os Jackets. Werenski então se juntou ao Lake Erie Monsters da AHL para os playoffs da Calder Cup. O americano ajudou a equipe a conquistar seu primeiro título, com cinco gols e nove assistências na campanha.
Já a sua temporada de estreia na NHL o defensor fez 47 pontos em 77 jogos, o que lhe rendeu uma indicação ao Calder Memorial Trophy. Nos playoffs daquele ano Werenski sofreu uma lesão particularmente feia na série contra os Penguins. Ao levar um puck no rosto, o americano levou vários pontos e seu olho ficou tão inchado que não abriu mais. A lesão inclusive rendeu uma camiseta com o rosto machucado do defensor, com a renda revertida para a caridade.
Em 2018 Werenski participou do seu primeiro All Star Game, representando Columbus juntamente com Seth Jones. Nos playoffs do mesmo ano o defensor lesionou o ombro e, em decorrência da cirurgia necessária, perdeu cerca de seis meses se recuperando. Na off-season de 2019 os Blue Jackets e o americano estenderam o contrato por mais três anos, no valor de 5 milhões de dólares anuais. Em 300 jogos na carreira, o atleta possui 169 pontos.
MENÇÕES HONROSAS:
Pavel Zacha, C, New Jersey Devils (#6 overall): um top prospect da classe de 2015, o tcheco não vingou. Considerando o número e a qualidade dos prospects disponíveis, Jersey fez a escolha errada. Mas como os deuses do hockey às vezes são bondosos, a equipe foi presenteada com dois first overall em um curto espaço de tempo, em 2017 e 2019.
Timo Meier, RW, San Jose Sharks (#9 overall): o suíço jogou quatro temporadas na Quebec Major Junior Hockey League (QMJHL), entre a temporada 2013/2014 e 2015/2016. O atleta tem 157 pontos em 263 partidas e em 2019 assinou um contrato de quatro anos avaliado em 24 milhões de dólares.
Lawson Crouse, LW, Florida Panthers (#11 overall): um dos protagonistas do melhor vídeo pré-draft, quando ele comeu uma minhoca, Crouse foi trocado dos Panthers para Arizona pouco mais de um ano após ter sido selecionado pela equipe da Flórida.
Jake DeBrusk, LW, Boston Bruins (#14 overall): a única escolha certa dos Bruins em suas três picks seguidas durante o primeiro round de 2015, o canadense tem 120 pontos em 203 partidas e uma final da Stanley Cup no currículo.
Colin White, C, Ottawa Senators (#21 overall): outro fruto do USNTDP, o americano jogou pela Boston College do hockey universitário entre 2015 e 2017. Em sua primeira temporada completa na NHL em 2019/2020, ele somou 23 pontos em 61 jogos.
Ei, você que chegou até aqui! Se você está se perguntando cadê o Fulano ou o Beltrano, o NHeLas te explica: com o número invejável de jogadores de impacto produzidos por essa classe, achamos melhor dividir esse texto em duas partes. Logo mais teremos a parte dois por aqui, fiquem de olho!