Categoria: 10 for 10

  • Sobre superação (e outras reflexões)

    Sobre superação (e outras reflexões)

    Uma criança brasileira que cresce correndo por um campo enlameado ou pela sólida terra árida atrás de uma bola provavelmente, à época, tem como seu maior sonho ganhar uma Copa do Mundo usando a camisa canarinho da nossa seleção. Já uma criança canadense que passa meses a fio patinando com um disco no seu stick, no lago congelado atrás de casa, em sua cidade provinciana de Manitoba ou Saskatchewan, deita a sua cabeça no travesseiro (talvez enfeitado com o escudo de sua equipe do coração) e sonha com a glória de levantar a Stanley Cup. 

    Entretanto, tal como o futebol é universal e pode dar oportunidades de jovens garotos mudarem não só as suas próprias vidas, como a de suas famílias, com apenas uma bola no pé, conseguir se tornar um atleta de alta performance no hockey demanda tempo e (muito) dinheiro.

    Por isso é preciso delicadeza para se falar de jovens, pois o draft nada mais é do que a coroação de mais de uma década de preparação desses adolescentes. Afinal, ao vermos Connor McDavid, Nathan MacKinnon e Alexis Lafrenière espinhentos com seus bonés e jerseys novinhas esquecemos que não podiam sequer comprar o próprio drinque nos Estados Unidos (e em algumas províncias canadenses) à época do seu respectivo draft.

    Admito que às vezes eu mesma desejei criticar, e até mesmo critiquei, Fulano ou Ciclano porque não corresponderam às minhas expectativas no gelo. Mas hoje o termo bust (expressão designada ao atleta que não corresponde às expectativas jogadas sobre seus ombros quando foi draftado) me traz verdadeira ojeriza. Será que nós, do alto de nossos sofás, realmente temos o direito de criticar um adolescente que não correspondeu às expectativas que nós, torcedores, atribuímos a ele? 

    Por isso, depois de um ano difícil e visando iniciar 2021 e uma nova década com positividade, decidi trazer apenas histórias positivas e de superação. Jovens atletas que superaram expectativas ou doenças ou dificuldades extremas, para se consagrarem enquanto jogadores da NHL (ou quase) na década de 2010. Ao invés de me limitar àqueles que foram draftados entre 2011 e 2020, eu expandi o propósito para também abarcar as histórias que se passaram no decorrer dessa década. 

    Tamanho não é documento

    Primeiramente, temos casos clássicos de superação, onde o atleta não tinha um determinado pedigree e por isso foi draftado nos rounds mais avançados da seleção. O principal motivo costuma ser o tamanho, afinal, o hockey é, historicamente, um esporte jogado por grandalhões. Atletas de baixa estatura tendiam a ser deixados de lado por mais força e truculência. Essa maré parece ter virado recentemente, mas na década tivemos jogadores que não foram tidos como prospects tão importantes à época de sua elegibilidade.

    Perto de muitos outros jogadores Johnny Gaudreau, do Calgary Flames, é um cisco com seus (supostos) 1,75 e cerca de 74 kg. Quando foi draftado no quarto round, o americano era ainda menor, com cerca de 1,68 de altura. Hoje, entretanto, Gaudreau é uma peça importante na equipe que defende e uma estrela na NHL. O winger é parte importante do elenco dos Flames e seu estilo de jogo inspira muitos jovens atletas que usam da tenacidade e rapidez para compensar a estatura.

    Brayden Point, central do Tampa Bay Lightning, tinha destaque no major juniors, mas seu tamanho (1,78) era um empecilho para que fosse tido como uma potencial estrela na Liga. O canadense iniciou sua carreira timidamente, mas hoje é um dos principais nomes dos Bolts. Ele também foi um dos mais cotados para receber o Conn Smythe quando a sua equipe venceu a Stanley Cup. Point tem uma carreira brilhante pela frente, e quem sabe um dia poderá seguir os passos do também pequeno Martin St. Louis e fazer parte do Hockey Hall of Fame.

    Enfrentando seus demônios

    Talvez o caso mais notório na história recente dentre os atletas da NHL foi a redemption tour do goleiro Robin Lehner. O sueco enfrentou problemas na vida pessoal que repercutiram no seu desempenho no gelo. O alcoolismo e o abuso de pílulas para dormir fizeram com que o jogador chegasse ao ponto de ter pensamentos suicidas. Ao começar o tratamento fornecido pela NHLPA (NHL Players Association, o sindicato dos jogadores), ele foi diagnosticado com transtorno bipolar e pôde receber o tratamento adequado. Com isso, Lehner viu sua carreira ser revitalizada com uma campanha de sucesso no New York Islanders e atualmente é o titular do gol do Vegas Golden Knights. 

    Quando Scott Darling passou a se destacar na campanha de 2015 que levou o Chicago Blackhawks a sua terceira Stanley Cup na década, a história do goleiro parecia digna de contos de fada. O garoto de Illinois, que havia crescido idolatrando Ed Belfour, havia chegado ao topo. Entretanto, a trajetória até ali havia sido cheia de espinhos e muito dolorosa. Darling foi expulso do programa de hockey da Universidade do Maine por seus problemas com alcoolismo. Ele enfrentou uma longa jornada contra o vício até conseguir chegar à American Hockey League (AHL) e, posteriormente, aos Blackhawks na NHL. 

    Em outubro deste ano o jogador Colin Wilson, do Colorado Avalanche, anunciou, através de um relato na Players’ Tribune, que penduraria os patins. Na publicação, o atleta contou sua longa e tortuosa batalha contra o Transtorno Obsessivo Compulsivo, e o quanto tal doença impactou sua vida dentro e fora do gelo. Com a conversa sobre saúde mental ainda sendo um tabu entre os jogadores de hockey, devido ao estereótipo de “durões”, declarações como as de Wilson são muito importantes para que jovens (ou não tão jovens) atletas se sintam mais confortáveis em buscar ajuda quando as coisas não estão bem. Com o fim de sua carreira, Wilson quer retornar aos estudos para ajudar outros atletas no quesito da sua saúde mental. 

    F**k cancer

    De Mario Lemieux a Phil Kessel, a batalha contra essa terrível doença não é novidade para o mundo do hockey. Entretanto, diagnósticos como o de Oskar Lindblom, do Philadelphia Flyers, são dolorosos para qualquer torcedor, independentemente da equipe do coração.

    Em dezembro de 2019, com sua carreira em ascensão e uma posição de cada vez mais destaque no ataque de Philly, o winger foi diagnosticado com Sarcoma de Ewing, uma forma de câncer no osso. Lindblom foi merecidamente ovacionado pela torcida em sua primeira aparição no Wells Fargo Center depois do diagnóstico. Depois de encerrar o tratamento em julho deste ano, o sueco foi declarado livre da doença neste mês de dezembro. Nós do NHeLas mal podemos esperar para ver Oskar de volta ao gelo em laranja e preto! (E a autora que vos fala promete não se importar se ele marcar seu primeiro gol do retorno contra Pittsburgh, embora ela seja torcedora dos Penguins.)

    A juventude destes atletas ao serem confrontados com o câncer é um dos fatores mais chocantes, além do fato óbvio de estarem sempre no auge de sua forma física, por conta da natureza de sua profissão. Com uma carta aberta ao Players’ Tribune, o defensor Shea Theodore revelou que um mero teste antidoping durante o Mundial de 2019 mudou sua vida. Isso porque o exame detectou uma anormalidade, que posteriormente foi diagnosticada como câncer testicular. A questão da idade e o fato de ter sido descoberto tão cedo, possibilitaram que o canadense se recuperasse rapidamente. Dessa forma, ele teve a chance de continuar jogando o esporte que tanto ama. 

    Embora todas as histórias mencionadas aqui tenham me tocado de alguma forma, a de Olli Maatta foi uma das que mais me afetaram enquanto fã. Recém-chegada ao esporte e à NHL, o diagnóstico do finlandês me chocou, e a rapidez com a qual ele se recuperou da cirurgia me deixou mais surpresa ainda. Entre a constatação do cisto e a cirurgia, o defensor jogou três vezes e passou pouco mais de duas semanas se recuperando após a operação. Com apenas 20 anos, Maatta teve sorte da doença ter sido descoberta tão cedo. O finlandês pôde de levantar a Stanley Cup duas vezes seguidas antes de ter sido trocado (para a tristeza da autora que vos fala). 

    O lado torcedora aka os perrengues do meu time

    Além de Maatta, outros membros do Pittsburgh Penguins também enfrentaram problemas sérios de saúde nessa década. O melhor jogador da atualidade (ou segundo melhor, desde que McDavid entrou no chat), Sidney Crosby, já passou por maus bocados. Em meados de 2011, duas concussões próximas uma da outra tiraram o canadense da temporada. Passados nove meses, os sintomas ainda persistiam e já se especulava a possibilidade de uma aposentadoria. Em novembro daquele ano ele retornou ao gelo, mas logo se lesionou de novo. No final, descobriu-se que o atleta havia lesionado o pescoço, e o tratamento passou a ser administrado da forma correta. Desde então, Sid the Kid conquistou duas Stanley Cups, um mundial, uma Copa do Mundo de hockey e uma medalha olímpica. Ele ainda foi primeiro a ser capitão de todas as equipes. 

    2014 foi um ano complicado para os Pens. Embora, em um nível pessoal e nacional, Sidney Crosby e Chris Kunitz tivessem conquistado o ouro em Sochi pelo Canadá, a equipe enfrentou questões turbulentas. Em janeiro daquele ano, aos 26 anos de idade, o defensor Kris Letang foi encontrado no chão por sua esposa. No dia do ocorrido o atleta foi socorrido por sua sogra, que é enfermeira, mas voou para Los Angeles com a sua equipe como planejado, pois já se sentia melhor. Após alguns dias o diagnóstico foi feito: ele havia sofrido um derrame. A recuperação durou meses, mas o canadense conseguiu se recuperar. Posteriormente, venceu duas Stanley Cup com os Penguins, em 2016 e 2017. 

    Nasce o líder de um movimento

    O canadense Akim Aliu balançou o mundo do hockey com seu relato aptamente titulado “Hockey is not for everyone” (hockey não é para todos). Nele, o atleta descreveu as inúmeras vezes em que foi vítima de racismo e preconceito dentro do esporte. Voltando àquilo que falei no início do texto, o hockey definitivamente não é para todos, e sim para um seleto grupo de privilegiados. Mas a história de Aliu, em conjunto com os movimentos sociais que tomaram conta do mundo neste ano, foi um passo importante. Foi fundada a Hockey Diversity Alliance, com o objetivo de promover a inclusão e erradicar o racismo da Liga, jogos foram adiados em solidariedade aos protestos Black Lives Matter e alguns jogadores inclusive se ajoelharam durante o hino. É um começo, mas sabemos que a NHL ainda tem um longo caminho a percorrer. 

    Com esses relatos, eu convido você, leitora/leitor, para nos contar qual foi a sua história de superação favorita nessa década, tratando-se do hockey ou não. 

    (Foto: NBCSports.com/Reprodução)

  • Sobre se apaixonar por um esporte novo

    Sobre se apaixonar por um esporte novo

    Apaixonar-se nem sempre é de um dia para o outro. O sentimento vem com o tempo, primeiro as borboletas no estômago, depois o sorriso bobo no rosto e então a descoberta do novo amor e a ansiedade de querer conhecer mais sobre essa nova paixão. Essa foi exatamente a sensação que eu tive quando, trocando de canal em 2015, deparei-me com hockey passando na televisão. Um esporte que tanto me fascinava, mas só tinha contato através de filmes, séries e livros, sem nunca me tocar que existia toda uma liga e times para se apaixonar.

    Entenda, nunca fui muito fã de esportes, muitos menos quis entender e acompanhar algum. Quer dizer, isto até o hockey entrar na minha vida. Em pouco tempo me vi completamente viciada em pesquisar um mais sobre a modalidade e seus times. No entanto, para a minha infelicidade, a temporada já estava no fim e eu só poderia de fato começar a acompanhar no início da temporada seguinte. 

    Foi exatamente assim que a minha jornada com esse novo esporte começou e o motivo do back-to-back do Pittsburgh Penguins ser tão importante para mim. Naquele ano, eu me vi completamente fascinada por um esporte novo e de uma forma um tanto inusitada. Entretanto, o hockey tem algo que cativa logo de cara, seja pela rapidez do puck no gelo ou até mesmo o amor dos torcedores durante os jogos.

    Os playoffs, então, é algo divino. Quando o nosso time está no gelo, tudo que mais desejamos é estar conectado, assistindo, especialmente quando estamos ganhando. Lembro que no início não foi fácil aprender um novo esporte, principalmente quando levamos em consideração a barreira da linguagem. Mas nada nos impede de estarmos sentados em frente à televisão tentando entender aquele bando de regras e o porque do juiz não separar aqueles jogadores brigando no meio do jogo.

    A descoberta do novo amor

    Em meio à correria da vida adulta, fui aprendendo mais e me apaixonando mais. Na temporada 2015-16, vi-me nervosa acompanhando a saga dos Penguins rumo à vitória da Stanley Cup 2016. O caminho não foi fácil, o time teve um início de altos e baixos naquela temporada. Ao final de 2015, haviam conquistado somente 40 pontos em 37 jogos, foram 18 vitórias contra as 15 derrotas. 

    Ainda assim, os Penguins não se deram por vencidos e, com o novo ano veio uma nova esperança. As vitórias que anteriormente iam caindo voltaram a crescer e a esperança desta fã em acompanhar a sua primeira temporada regular também. Por fim, o time finalizou a temporada com 104 pontos e 48 vitórias, assim permanecendo em quarto lugar geral na Liga.

    Novamente me vi perdida. Os jogos não aconteceriam mais da maneira que eu estava acostumada, e imaginem a minha surpresa ao descobrir que o time agora precisava vencer rounds (além dos jogos é claro).

    Logo de cara enfrentamos o New York Rangers. Não que eu entendesse muito o que estava acontecendo, mas segundo os comentários, aquele era um antigo rival nessa fase. Com apenas cinco jogos, a tão sonhada vitória veio e assim avançamos para a próxima rodada. 

    O que não foi tão fácil assim. Em cada novo round que entrava, a batalha se tornava mais difícil, mas não impossível. Assim, o time eliminou equipes de peso como o Washington Capitals e Tampa Bay Lightning. Mal sabia eu que a caminhada ainda não tinha acabado.

    Como último oponente a equipe de Pittsburgh enfrentaria o San Jose Sharks. O time da Califórnia também vinha de uma boa temporada e uma caminhada árdua. As equipes não estavam para brincadeira e o show no gelo foi simplesmente incrível. A briga pela Stanley Cup estava acirrada e eu fiquei completamente fascinada. Se não bastasse dois overtimes durante aquela série final, foram necessários passar por seis jogos, e a cada novo jogo a energia parecia mais forte. 

    No entanto, todos esses momentos valem a pena quando enfim chega a tão esperada noite. Aquela que todo fã deseja e todo jogador sonha, a noite em que mostra que todos aqueles meses treinando e todo aquele esforço não foi em vão: a noite de levantar a Stanley Cup. 

    Naquele 12 de junho de 2016, o time de Pittsburgh estava longe de casa, cercado por fãs do seu adversário e com a certeza que aquela poderia ser a grande noite. Era o sexto jogo e eles vinham de uma vitória em casa, que deixava eles a um passo de serem campeões.

    Os Pens abriram o placar ainda no primeiro período, garantindo uma vantagem que logo seria retirada pelas mãos de Logan Couture. No entanto, bastou um passe do capitão Sidney Crosby para o defensor Kris Letang para que a vantagem voltasse para as mãos do visitante. 

    Pouco depois foi a vez do sueco Patric Hörnqvist, novamente com uma assistência de Crosby, cimentar o futuro dos Penguins e garantir a vitória. Acho que nunca vou esquecer a alegria no rosto dos jogadores naquele Jogo 6, a energia naquela arena, os fãs vibrando e as famílias entrando no rink pra comemorar. Entretanto, essa noite não consegue se comparar ao ano seguinte quando enfim entendendo o esporte pude acompanhar a temporada inteira. 

    O ano em que tudo virou mágica

    A temporada 2016-17, essa sim foi uma temporada mágica, enfim o prazer de assistir a uma partida e conseguir entender tudo que estava acontecendo. De brigar com a televisão quando o gol do meu time era contestado e até mesmo xingar o técnico quando discordava do empty net. Em meio a hat tricks, que nem eram do meu time mas me dava vontade de jogar um chapéu no gelo, e comemorações de gols, os playoffs estavam cada vez mais perto. Nada se comparava a energia da corrida pela tão desejada Stanley Cup. 

    Os jogos eram eletrizantes. Devo confessar que a vontade de não perder nenhuma partida era tanta que eu contei uma mentira ou cem para sair mais cedo das minhas aulas. O gás da temporada anterior ainda refletia no início desta temporada, os Penguins terminaram o ano de 2016 com 25 vitórias contra apenas 8 derrotas, assim somando 55 pontos. O início de 2017 também foi bastante satisfatório para o time que terminou a temporada regular em segundo lugar na NHL com 50 vitórias e 111 pontos. 

    Novamente a equipe se viu num caminho árduo para a vitória. Os playoffs, assim como no ano anterior, foram de lutas com o time dando duro para avançar entre os rounds. Enquanto no primeiro enfrentaram o Columbus Blue Jackets e jogaram apenas cinco jogos, o round seguinte não foi tão simples assim, enfrentando um oponente forte e o primeiro da NHL na temporada regular. O Washington Capitals fez o time de Pittsburgh suar em sete jogos, levando os fãs à loucura numa série espetacular. 

    Correr para casa vigiando o placar de jogo era algo que nunca imaginei fazer na vida, mas na série seguinte lá estava eu desesperada em mais um round eletrizante de sete partidas e muita emoção.

    A final da conferência contra o Ottawa Senators não foi fácil, e o time canandense lutou bravamente tentando garantir a sua vaga na final. O Jogo 7 com certeza não foi para os fracos de coração. Foram necessários dois períodos até Chris Kunitz balançar a rede e abrir o placar para Pittsburgh. No entanto, a alegria durou pouco quando menos de um minuto depois Mark Stone marcou pelo Senators e empatou o jogo.  

    Com os ânimos a mil, a partida ficou mais acirrada no terceiro período, quando Justin Schultz abriu uma vantagem para os Penguins e Ryan Dzingel empatou novamente o jogo. Sem novos gols e com a partida empatada, não restou outra alternativa a não ser ir para o tão temido overtime. Aqui devo fazer outra confissão, como fã eu simplesmente odeio este momento, juro que sinto até um frio na barriga. 

    Quanto mais dura o OT, mais eu prendo a respiração com medo de ver o meu time perder. Nesse dia em especial, o nervosismo foia ainda maior. O jogo já estava acirrado e já tinha bastante expectativa, afinal o vencedor sairia campeão de conferência e finalista do campeonato. Por isso, foi nescessário não somente uma prorrogação, mas sim duas. Quando por fim Crosby fez um passe para Kunitz que mandou o puck direto pro gol, a arena foi a loucura. Naquela noite, os Penguins se viam a um passo de levantar a taça pelo segundo ano consecutivo. 

    A final que consagrou o back-to-back

    A final foi de muita expectativa: de um lado o campeão da última temporada e do outro o Nashville Predators que não iam para uma final há 19 anos. O round começou bem para os Penguins, que ganharam os primeiros jogos em casa. No entanto, a sorte pareceu mudar quando o time de Nashville ganhou os dois jogos seguintes também em sua casa dando o gás necessário para a briga pelo campeonato.

    O que eles não contavam era que no quinto jogo Matt Murray mostrasse todo o seu potencial ao não deixar um único puck passar pela rede. Enquanto isso, para a infelicidade dos Predators, o puck balançou a rede seis vezes do outro lado, deixando o time de Pittsburgh novamente a um passo da taça.

    No entanto, tudo se resume àquela noite mágica e tão aguardada, a noite em que tudo valeria a pena. O último jogo não foi fácil, o time de Nashville tinha a vantagem de estar em casa e eles definitivamente não queriam perder. Justamente por isso não facilitaram nem um pouco, mas nada podia parar Pittsburgh.

    O time visitante tinha garra, não que o outro time não tivesse, mas tinha algo de especial em torno do elenco dos Penguins naquela noite. Eles mostraram que não estavam para brincadeira, com um gol de Hornqvist no final do terceiro período e de Carl Hagelin em um empty net. O time de Pittsburgh conseguiu a sua segunda vitória consecutiva assim, dando a chance de Sidney Crosby levantar a sua terceira Stanley Cup na carreira. 

    Eu posso ter derramado uma lágrima ou duas, mal sabia eu que aquele seria o primeiro de muitos momentos em que esse esporte me emocionaria. No ano seguinte, eles foram eliminados durante os playoffs, mas ainda assim foi emocionante ver o momento em que Alex Ovechkin levantou a taça pela primeira vez em sua carreira.

    Ali eu pude enfim perceber que, para mim, o hockey é muito mais do que ver o meu time ganhar ou perder. São esses momentos, em que nos emocionamos mesmo com um time para o qual não torcemos.

    Foto: Sports Illustrated

  • Sobre ocupar o segundo lugar – e estar tudo bem

    Sobre ocupar o segundo lugar – e estar tudo bem

    Não é nenhum mistério para quem acompanha a NHL que o Dallas Stars é um dos times underdogs – palavra que muitos associam com “perdedor”, ou “azarado”. Como torcedora, apesar das memórias que o significado da palavra trazem a minha mente, não acho que seja completamente errado se referir a Dallas dessa forma. Em partes, acredito que até o próprio time reconheça as suas falhas e status. 

    Mas, após um ano conturbado, não vim aqui falar apenas do sentido ruim que a palavra traz. Se conseguirmos parar e olhar por outra perspectiva, existe um lado positivo. O lado que nos prova que, apesar da derrota, um underdog nunca desiste de tentar, e de ultrapassar os próprios limites que, não apenas os demais estabeleceram a ele, mas que ele estabeleceu a si mesmo.

    É isso que Dallas tem feito, desafiado a si mesmo a cada temporada, na esperança de alcançar por fim o seu final feliz (uma Stanley Cup, caso ainda reste dúvidas, já que muitas vezes, caro leitor, tenho tendência a ser mais dramática do que o necessário). Por isso, este texto é sobre ocupar o segundo lugar, e porque, por hora, para um time que está encontrando seu caminho de volta, está tudo bem.

    As decepções ensinam mais do que podemos imaginar

    Desde que comecei a acompanhar o hockey em 2018, os Stars tiveram duas decepções, resultado de derrotas. Coincidentemente, ambas nos playoffs. Derrotas que doeram não apenas no torcedor, mas ainda mais no time.

    As decepções tendem a doer ainda mais quando criamos expectativas. Se as coisas estão indo bem, por que não colocá-las em um alto patamar? É algo normal do ser humano. 

    Lá em 2019, após a vitória no primeiro round, não foi diferente com os Stars. Depois de uma temporada difícil, e repleta de obstáculos, a comunidade do hockey considerava quase improvável que o time do Texas avançasse na competição. Ainda mais improvável que chegasse tão longe ao ponto de conquistar sua segunda Stanley Cup. 

    Mas, outra vez, o underdog provou que podia ultrapassar os limites impostos, derrotando assim Nashville e se classificando para a segunda rodada dos playoffs da Stanley Cup de 2019. Do ponto de vista de uma fã, posso garantir para todos vocês que o round contra o St. Louis Blues foi difícil, por falta de uma palavra melhor. 

    No fim, quando o apito final soa, o melhor time acaba ganhando. No hockey, não é apenas o talento que influencia na vitória de uma equipe. O cansaço, condicionamento físico e, principalmente, o timing são fatores cruciais. 

    Aaquele não era o momento do Dallas Stars. Novamente, como fã, a derrota doeu. Lembro de me sentir estranha ao final daquele Jogo 7 contra os Blues em 2019, como se fosse o meu sonho tendo um fim. Mas a derrota não doeu tanto em mim quanto doeu em cada um dos jogadores de Dallas, que trabalharam incansavelmente até o último segundo da partida.

    Em horas como essas, é difícil para o torcedor se colocar no lugar do jogador do seu time, e, por isso, os julgamentos são feitos. Até o momento em que a equipe divulga a lista de lesões dos jogadores nos playoffs.

    Aqui, o nosso coração fica menor, sabendo que tudo que estava ao alcance de cada integrante da equipe foi feito. Inclusive sacrificar-se além dos seus próprios limites, mas essa é uma discussão para outro momento. 

    A derrota foi um balde de água fria para Dallas, que acreditou que o sucesso na corrida dos playoffs seria suficiente. Voltar para casa de mãos vazias não era uma opção que havia sido considerada pelo time a essa altura do campeonato, mas que agora era a realidade.

    No entanto, as decepções ensinam muito sobre quem somos, e fez o mesmo com o Dallas Stars que, ao voltar para o Texas, sentiu que era o momento de aprender sobre si mesmo. Essa era a única forma de entender seus erros para, assim, consertá-los, tentar novamente e ter êxito.

    Exceder as expectativas é a consequência merecida do trabalho árduo

    Mesmo com as lições proporcionadas pela temporada anterior, os Stars não iniciaram 2019-20 da maneira desejada. Contabilizando mais derrotas do que vitórias na tabela, foram meses até que o time atingisse estabilidade na liga e se mantivesse na zona de classificação para os playoffs.

    Mesmo alcançando um bom desempenho em meados do calendário regular, sua instabilidade não tornou o time um dos favoritos a conquistar a Stanley Cup aos olhos de quem acompanha a NHL. 

    Com a pausa devido à Covid-19, a liga se reorganizou, e uma temporada totalmente diferente do que estamos acostumados teve continuidade. Com uma pausa tão grande, a tendência era que times com bom desempenho anteriormente pudessem decair. 

    Apesar do mau desempenho durante o round robin, nós pudemos assistir um Dallas Stars diferente com a volta da NHL. Diferente para melhor. Ao derrotar o Calgary já na primeira etapa, a equipe mostrou que estava ainda mais disposta a batalhar pelo seu lugar na competição.

    No entanto, nós sabemos que vencer o primeiro round dos playoffs não pode ser lido como algo além de vencer o primeiro round dos playoffs. O início da competição é incerto, e até a Final, muitas coisas podem acontecer. 

    Porém, vencer o Colorado Avalanche no segundo round nos fez parar e pensar que, talvez (e apenas talvez), Dallas pudesse avançar consideravelmente na competição. 

    Aqui, presenciamos um Dallas Stars que saiu da sua zona de conforto para tentar uma abordagem diferente e se tornar o time ao qual as pessoas querem assistir. Um Dallas que ataca continuamente desde o primeiro segundo da partida e só descansa quando o apito final soa. Que arrisca com jogadores que, mais tarde, se tornariam figuras essenciais de um elenco que estava redescobrindo o estilo de jogo da equipe. 

    No segundo round, percebemos o quanto o time é importante para as suas grandes lideranças, que souberam se afastar para dar espaço para aqueles que mudariam a história dos Stars nos playoffs de 2020, e colocariam o seu nome escrito na do hockey. Menção honrosa a Denis Gurianov, Anton Khudobin, Joel Kiviranta, e muitos outros que foram cruciais para que o time conseguisse avançar. 

    Se vencer o Colorado Avalanche foi surpreendente, garantir uma vitória na Final de Conferência contra o Vegas Golden Knights fez com que expectativas ainda maiores fossem criadas sobre uma possível vitória da Stanley Cup por Dallas. Esse foi um momento histórico para qualquer pessoa que sempre viu grande potencial no underdog do Sul.

    Foram anos até que os Stars chegassem nessa posição. Em uma temporada tão atípica, que testou muito além dos limites físicos, considerei cada jogador do meu time um vencedor. Vencedores por irem além dos limites estabelecidos por eles mesmos. Vencedores porque ninguém acreditava que Dallas chegaria tão longe na competição.

    Mesmo esperançoso, meu coração de torcedora sabia que, caso o pior viesse acontecer, seria grata por aquela experiência. E o melhor: senti que Dallas seria grato por chegar até aquele momento. Depois de anos remando contra a maré para chegar até a beira mar, colocar os pés na areia já era o suficiente para trazer a melhor sensação do mundo para o time.

    Nada acontece como esperamos – e está tudo bem 

    No entanto, mesmo com o esforço, dedicação, e tudo de mais importante que foi colocado em jogo para garantir o troféu, aquele ainda não era o momento de Dallas. Após seis jogos, o time deu adeus definitivo para a temporada 2019-20 e assistiu ao Tampa Bay Lightning levantar a Stanley Cup – conquista mais do que merecida pela equipe. 

    Como responsável por cobrir o live tweet do dia 27 de setembro no site, eu criei esperanças e também vi meu time ser derrotado diante dos meus olhos. Ao vivo. E doeu. Pela segunda vez. 

    A dor do torcedor se tornou maior por ver a dor nos olhos dos nossos jogadores. Era possível sentir o quanto aquilo era importante para a equipe, e o quanto foi sacrificado para que eles chegassem até aquele momento. 

    Quando se cria expectativas muito altas sobre algo, a queda acaba sendo difícil de superar. E foi. Naquele dia 27 de setembro de 2020 foi muito difícil. 

    Mas quando o caos chegou ao fim, e pude pensar com mais clareza, conclui que, naquele momento, estava tudo bem que, naquela temporada, aquele fosse o fim do Dallas Stars. Então, passei a pensar nas coisas positivas que tudo isso trouxe para o time. 

    Um estilo de jogo ainda melhor, e que mostra a essência dos Stars, diversos recordes que foram ultrapassados, novos talentos descobertos, e quatro rounds dos quais Dallas deveria sentir orgulho. Orgulho por chegar tão longe, e desafiar os seus próprios limites. Orgulho por saber que, no fim, o time fez o que estava ao seu alcance. E acredito que isso seja o mais importante: dar o nosso melhor a partir do que nos é oferecido.

    Confesso que todas essas palavras podem ter soado apenas como um simples apanhado de clichês reunidos em um texto só. Mas o clichê não tira a veracidade do fato de que todas as coisas acontecem quando tem de acontecer. Queira eu, você, os torcedores de Dallas e a própria equipe aceitar ou não. 

    Dallas ainda está se reconstruindo, se reencontrando, e muitas vezes, vai ser difícil aceitar as consequências disso, porque sempre vamos esperar que o melhor aconteça. Essa é uma característica do ser humano – e do fã apaixonado pelo seu time. O Dallas Stars vai se desenvolver, vai mostrar todo o seu potencial, e vai impressionar a todos e a si próprio. O ano de 2020 não era o momento, mas ele ainda vai chegar.  

    Por hora, está tudo bem ocupar o segundo lugar. A vista daqui permite que o Dallas olhe para trás, e veja a caminhada incrível que já percorreu. Mas também possibilita que o time olhe para frente, e veja que o caminho até a Stanley Cup está mais perto do que imaginou. 

  • Sobre ser torcedora de um time de hockey

    Sobre ser torcedora de um time de hockey

    Corações partidos sempre nos proporcionam inspiração para produzir coisas boas. Quem não, dentre as favoritas, tem uma música triste, com uma letra que te faz viajar pelas lembranças e momentos de dor? Ou então, aquele filme em que você sabe que o protagonista morre no final, mas ainda assim não cansa de rever, apenas para revisitar o sentimento mais uma vez? Quem nunca ouviu que as melhores obras de arte foram produzidas em meio ao sofrimento?

    Artistas como Van Gogh, escritores como Lord Byron e tantos outros usaram de seus momentos de conflito para produzir obras de arte. Quando olhamos para o esporte, não é diferente. As repetidas frustrações fazem os jogadores sonharem mais alto.

    E, quando enfim conquistam a taça, a volta por cima vem com um gostinho mais doce. Assim, foi com esse desejo de enfim deixar as frustrações para trás, que grandes campanhas na temporada regular se tornaram a grande conquista da Stanley Cup. Entretanto, a pressão e o nervosismo de ser um time contender pode surtir o efeito contrário. 

    O Tampa Bay Lightning teve duas grandes decepções nessa década. A primeira foi quando perderam a Final da Stanley Cup para o Chicago Blackhawks, em 2015. Posteriomente, talvez de uma maneira ainda mais frustrante, em 2019, perderam quatro jogos seguidos no primeiro round contra o Columbus Blue Jackets, logo após uma histórica temporada regular, com 62 vitórias, e serem cotados como um dos favoritos naquela pós-temporada. 

    As expectativas impostas em um time com grande elenco para ganhar o prêmio acabaram tendo o efeito contrário: quando mais se esperava da equipe, mais eles falharam.

    Assim como na vida, muitas expectativas são jogadas em cima de nós. Não corresponder a elas deveria ser algo naturalizado, uma vez que muitas dessas cobranças são projeções dos outros em nós mesmos. Entretanto, essas expectativas fazem com que esqueçamos que, no fim, todos somos seres humanos, e, como tal, não somos perfeitos. 

    Mas, quando se trata de esportes, as coisas não são tão fáceis assim. Nosso sentido de compreensão parece sumir, ainda mais quando o jogo está 0 a 0 no terceiro período e alguém precisa fazer alguma coisa para sair vencedor. Esquecemos, com muita frequência, de que esses atletas que vemos na TV, tão distantes, são pessoas. Mesmo que tenham habilidades que pareçam ser de outro planeta, eles ainda são, de fato, humanos. 

    Esse costume de colocá-los no pedestal, e até mesmo enxergarmos atletas como semideuses assim como era na Grécia Antiga, aumenta o abismo entre o jogador e os fãs. Contudo, não consigo deixar de perguntar por que, quando Tampa perdeu os quatro jogos do ano passado, doeu tanto em mim, que até passei mal e não pude ir para a faculdade no dia seguinte? Por que a imagem de Nikita Kucherov olhando de longe enquanto os jogadores do Chicago Blackhawks celebravam o recém-conquistado título ainda dói aos fãs, mesmo em quem acompanha hockey há tão pouco tempo? 

    E por que eu guardarei com tanto carinho e emoção a sequência de Steven Stamkos fazendo um gol no Jogo 3, quando todos nós tínhamos certeza de que ele não iria participar de nenhum jogo dos playoffs?

    Quando a força emocional precisa ser maior do que a força física 

    Nos playoffs de 2020, Tampa teve um caminho bem complicado para ganhar a final. O primeiro oponente seria o Columbus Blue Jackets, a mesma equipe que há um ano encerrou o sonho do Lightning de brigar pela taça. 

    Após vencer a série por 4-1, o Boston Bruins seria o próximo adversário, no segundo round. Os rivais de divisão deram trabalho. Mesmo assim, Tampa conseguiu vencer a série em cinco jogos.

    O próximo adversário foi o New York Islanders, na Final da Conferência Leste. A equipe, que possui uma das defesas mais apertadas da NHL, não seria um adversário tão fácil. Todavia, Tampa conseguiu vencer a série por 4-2, em seis partidas. Enquanto isso, do outro lado da chave, Dallas Stars vencia o Vegas Golden Knights na Final da Conferência Oeste. 

    A Final da Stanley Cup seria definida entre Dallas Stars e Tampa Bay Lightning. De um lado, a equipe texana possuía um sistema bem fechado, no qual fazer gols era algo extremamente complicado. Tampa conseguiu passar por tudo isso e ganhou a Stanley Cup em seis jogos, 16 anos após o primeiro título, conquistado em 2004. 

    Essa conquista foi extraordinária por diferentes aspectos. Primeiramente, pois ela ocorreu no meio de uma pandemia, em uma dinâmica de playoffs um pouco diferente. Os times ficaram isolados em uma bolha, em arenas neutras, o que não dava nenhuma vantagem de se jogar em casa, muito menos contavam com a presença das torcidas que sempre impulsionam a equipe. 

    Segundo, o capitão da equipe, Steven Stamkos, estava afastado por conta de uma lesão agravada enquanto a temporada estava em pausa. Mesmo assim, ele escreveu um dos momentos mais icônicos do hockey.

    No Jogo 3, Steven Stamkos entrou na partida, jogou por 2:47 minutos, fez um gol e logo em seguida saiu. Foi a única aparição dele nos playoffs, o suficiente para que o capitão de Tampa eternizasse seu nome na Stanley Cup após levantá-la frente aos seus colegas de equipe. 

    Aliás, Stamkos ter feito aquele gol entrou para a história do hockey não somente devido sua lesão, mas sim por tudo o que o capitão estava lidando naquele momento. Em uma entrevista para o Lightning Insider, Stamkos revelou que no primeiro round contra o Columbus Blue Jackets sua esposa Sandra sofreu um aborto espontâneo na 21° semana de gravidez. Por conta disso, ele teve de sair da bolha por um momento para ficar com sua esposa e família em um momento tão delicado. 

    Acredito que são nesses momentos que a humanidade de um atleta é (finalmente) demonstrada. E são nesses momentos que nós, torcedores, lembramos de que eles não são apenas máquinas supertalentosas. Eles são como nós. Eles sofrem como nós. 

    Então, é aí que a força emocional dos jogadores precisa ser superior à força física. A força física e a brutalidade são duas características clássicas do nosso bom e velho hockey. E para esses homens, que muito provavelmente cresceram em ambientes no qual demonstrar sentimentos é considerado uma fraqueza, saber lidar com esses sentimentos é mais complicado do que ser um saco de pancadas. 

    Stamkos, naquele momento, estava lidando com duas coisas cruciais na sua vida. Um momento extremamente complicado e sensível em sua família, e a necessidade de deixar no passado as duas decepções do Tampa Bay Lightning, com a chegada dos playoffs.

    Certamente, se Stamkos escolhesse sair da bolha e não participasse mais da pós-temporada, para dar apoio completo para sua esposa, alguns torcedores irracionais não reagiriam bem. Afinal de contas, o próprio Tuukka Rask passou por um momento parecido nos playoffs e saiu da bolha. Com isso, ele recebeu críticas de torcedores e até mesmo da mídia. Entretanto, as expectativas dos jogadores favoritos não são feitas para nós. 

    Por fim, Stamkos escolheu prosseguir com sua equipe, mesmo não recuperado da lesão. E mesmo não estando 100%, ele entrou no rink e jogou menos de três minutos. Porém, esses três minutos foram o bastante para fazer história, com o único gol no único jogo dos playoffs em que ele jogou. 

    A complexidade de ser um fã

    A nossa ligação com um time vai além do que entendemos. Isso pode soar um pouco dramático e místico demais, mas é uma realidade. Esse sentimento de identificação, amor e frustração é algo que precisa de estudo. Assim, essa tal ligação mística torna esses momentos no hockey inesquecíveis. Ainda mais quando um time conquistou o prêmio nesse momento tão difícil da humanidade, onde temos que lidar com o distanciamento das pessoas por conta do coronavírus. 

    Eu assisto hockey há quase dois anos. Por isso, a minha curta experiência como torcedora talvez não possa ser equiparada com a de uma pessoa que assiste há anos. Todavia, a experiência de ser fã é uma coisa única. A sensação de dependência e frustração é algo único e universal. É algo que todo torcedor sente. Então de certa forma, existe uma uniformidade na experiência de ser fã. 

    A dependência que sentimos com jogadores literalmente desconhecidos, nossas esperanças e desesperanças depositadas por nós mesmos a eles, e o nosso amor inexplicável por um clube de hockey.

    Talvez eu não saiba exatamente como foi perder a final contra o Blackhawks em 2015, assim como não presenciei a conquista da primeira Cup em 2004. Mas vendo hockey e acompanhando a conquista nesse ano único me fez sentir o que todos os torcedores sentem: orgulho, amor e principalmente respeito por todos os jogadores que tiveram de ultrapassar as próprias barreiras emocionais para conseguir trazer essa Stanley Cup de volta à Flórida.

    Foto: Tampa Bay Times

  • Draft Class de 2019: quem são

    Draft Class de 2019: quem são

    Chegando ao final da década, o NHL Draft de 2019 trouxe a chance para duas equipes escolherem jovens atletas que pudessem se tornar franchise players. Jack Hughes, americano, e Kaapo Kakko, finlandês, lideravam o ranking norte-americano e europeu, respectivamente, e já eram certeza no top 3 daquele ano. 


    A seleção aconteceu em Vancouver, e contemplou o New Jersey Devils, pela segunda vez em três anos, com a primeira escolha. O top 3 contou ainda com New York Rangers e o Chicago Blackhawks. Além disso, a quarta escolha, pertencente ao Ottawa Senators, equipe detentora do pior resultado na temporada anterior, foi automaticamente para o Colorado Avalanche. Isso se deu como condição da troca que levou Matt Duchene aos Sens em 2017.

    Jack Hughes, C, New Jersey Devils: uma rara vitória para os filhos do meio (#1 overall)

    O nome Hughes já era conhecido no meio do hockey, pois o irmão mais velho de Jack, Quinn, foi selecionado por Vancouver no ano anterior. Entretanto, diferentemente do defensor do Vancouver Canucks e também de seu irmão caçula, Luke, o Hughes do meio é um center. Draftado diretamente do United States National Team Development Program (USNTDP), o americano chegou perto de bater o recorde de Auston Matthews na equipe durante seu primeiro ano.

    Já durante o seu ano de elegibilidade, Hughes bateu o recorde absoluto de pontos no USNTDP, com 190. Assim, o calouro ultrapassou a marca de Clayton Keller (hoje jogador do Arizona Coyotes). Após ser a primeira escolha de Jersey no draft, Hughes assinou seu contrato profissional sem mesmo atuar no hockey universitário ou major juniors. Pelo contrário, ele foi diretamente para a NHL. Seu primeiro gol na Liga veio contra o irmão, em uma vitória de 1-0 dos Devils sobre os Canucks. Embora o center tenha sofrido com lesões e marcado apenas 21 pontos em seu primeiro ano, os flashes de talento que ele demonstrou são uma fonte de esperança para a torcida de New Jersey. 

    Kaapo Kakko, RW, New York Rangers: o messias de Manhattan (#2 overall)

    O finlandês começou a carreira no TPS da SM-Liiga, onde marcou 38 pontos em 45 partidas em seu ano de elegibilidade. Além disso, Kakko ganhou medalha de ouro nas três competições da International Ice Hockey Federation (IIHF), o mundial sub-18, o World Juniors Championship e o World Championship. O winger é o jogador mais jovem a conseguir tal feito.

    Após ser selecionado em segundo lugar pela equipe de Nova York, ele assinou seu contrato em julho de 2019. A estreia na NHL veio em outubro do mesmo ano, assim como seu primeiro gol. Kakko foi o segundo jogador nascido no século XXI a marcar um gol na liga, já que o recorde havia sido estabelecido pelo também finlandês Ville Heinola horas antes. 

    Kirby Dach, C, Chicago Blackhawks (#3 overall)

    O canadense iniciou sua carreia no major juniors pelo Saskatoon Blades da Western Hockey League (WHL). Durante sua primeira temporada completa, em 2017/2018, ele marcou 46 pontos em 52 partidas. Já no seu ano de elegibilidade para o draft, o center marcou 73 pontos em 62 jogos, terminando a temporada em terceiro lugar no ranking de patinadores norte-americanos. Selecionado em terceiro pelos Blackhawks, o canadense marcou seu primeiro gol na NHL contra Marc-André Fleury e seu Vegas Golden Knights em outubro de 2019.

    Bowen Byram, D, Colorado Avalanche (#4 overall)

    Ranqueado em segundo dentre os patinadores norte-americanos, Byram também iniciou a carreira na WHL, com o Vancouver Giants. Em seu ano de elegibilidade ele marcou 27 pontos em 60 jogos. Nos dois anos seguintes ele marcou 71 e 52 pontos em 67 e 50 partidas, respectivamente. Além disso, conquistou o ouro do World Junior Championship em 2020 com o Canadá. Espera-se que Byram possa formar uma dupla com Cale Makar no futuro, dessa forma contribuindo para muitas campanhas do Colorado Avalanche ao lado de Nathan MacKinnon e companhia. 

    Alex Turcotte, C, Los Angeles Kings (#5 overall)

    Outro produto do USNTDP, Turcotte foi draftado pelos Kings em quinto lugar em 2019 depois de se encontrar em quarto no ranking de patinadores norte-americanos. Em seguida foi jogar hockey universitário da National College Athletic Association (NCAA) pela Universidade de Wisconsin, onde marcou 26 pontos em 29 partidas. Com o fim da temporada universitária, Turcotte assinou com os Kings em março de 2020, mas não chegou a disputar partidas pela equipe. 

    Cole Caufield, RW, Montreal Canadiens (#15 overall)

    O pequeno americano também fez parte do USNTDP, tendo feito história ao marcar 105 gols pela equipe e passar o recorde de Phil Kessel (estabelecido entre 2003 e 2005). Caufield terminou sua temporada de elegibilidade com 72 gols em 64 partidas, com uma média de 1.56 pontos por partida. Depois do draft, no qual foi selecionado por Montreal, o winger iniciou sua carreira universitária com a Universidade de Wisconsin, onde somou 36 pontos em 36 partidas durante o seu primeiro ano na NCAA. Caufield, ao contrário do seu ex-colega de equipe, pretende jogar pelo menos mais uma temporada com os Badgers. 

    Menções honrosas:

    Moritz Seider, D, Detroit Red Wings (#6 overall): uma das surpresas no primeiro round, o defensor alemão está atualmente na Swedish Hockey League, atuando pelo Rogle BK, devido à pandemia do COVID-19 e suas implicações na Deutsche Eishockey Liga (DEL), a liga alemã de hockey, que atrasou seu início. 

    Dylan Cozens, C, Buffalo Sabres (#7 overall): o canadense terminou sua carreira na WHL com 223 pontos em 179 partidas, além de ter ganhado medalha de ouro com o Canadá no WJC de 2020. 

    Trevor Zegras, C, Anaheim Ducks (#9 overall): o americano marcou 117 pontos pelo USNTDP em seu ano de elegibilidade e competiu por um ano na NCAA pela Boston University antes de assinar seu contrato profissional com os Ducks.

    Spencer Knight, G, Florida Panthers (#13 overall): atualmente o goleiro americano atua na NCAA, pela Boston College. Knight foi o primeiro goleiro na história que os Panthers escolheram no round inaugural do NHL Draft.

    Cam York, D, Philadelphia Flyers (#14 overall): outro produto do USNTDP, York atualmente joga na Universidade de Michigan, onde fez 16 pontos em 30 partidas durante a sua primeira temporada.

  • A conquista da Stanley Cup 2019 pelos Blues

    A conquista da Stanley Cup 2019 pelos Blues

    “Milagres acontecem”.

    Essa foi uma das frases mais proferidas pelo fã de hockey após assistir o St. Louis Blues na temporada 2018/19. No entanto, ‘milagre’ talvez não seja o termo ideal para se referir a ocasião. ‘Trabalho árduo’ são as palavras corretas. 

    De underdogs, ocupando o último lugar na tabela, o time de St. Louis escalou para as primeiras posições da divisão central, eliminou quatro grandes times nos playoffs e, assim, garantiu a primeira Stanley Cup desde sua criação, em 1967.

    Mas a jornada percorrida pelo time foi longa e cheia de desafios. E conquistas assim precisam ser documentadas.

    Portanto, em mais uma edição do “10 for 10”, vamos falar sobre como o St. Louis Blues, mesmo diante de um cenário nada propício, derrubou seus obstáculos e se tornou o campeão da Stanley Cup 2019.

    A pré-temporada dos Blues

    Após uma temporada 2017/18 devastadora, o St. Louis Blues sabia que algumas mudanças precisariam ser realizadas para que o desempenho da equipe melhorasse na próxima. 

    Sem a classificação para os playoffs de 2018, a equipe deu início às novas contratações mais cedo. Em maio do mesmo ano, o time anunciou Mike Van Ryn como seu novo técnico assistente, após Darryl Sydor, que ocupava o cargo, não ter renovado o contrato com os Blues por motivos familiares. 

    No entanto, essa não foi a única aquisição do time durante a pré temporada. David Perron, que havia saído dos Blues em 2017 para disputar uma temporada com o novo time de expansão da época, o Vegas Golden Knights, acabou voltando para a equipe de St. Louis. 

    Dessa vez, o jogador assinou um contrato que garantiu sua estadia no time por mais 4 temporadas. Tyler Bozak também veio para reforçar a equipe durante a free agency de 2018, assim como Patrick Maroon e Jordan Binnington, em contrato de duas vias. 

    Mas a trade com o Buffalo Sabres, onde o St. Louis acabou adquirindo Ryan O’Reilly, foi uma das mais rentáveis contratações para a equipe. Isso porque, na temporada 2018/19, o jogador se mostraria um grande reforço para o ataque dos Blues e se tornaria peça importante na conquista da Stanley Cup em 2019. 

    Porém, inicialmente, as importantes contratações na pré-temporada não pareceram ser o suficiente para ajudar no desempenho do St. Louis.

    A temporada  

    O start dos Blues na temporada 2018/19 não foi o melhor já feito pelo time. Após a derrota para o Winnipeg Jets em sua estréia, a equipe viu seu desempenho cair drasticamente no primeiro mês da competição. Do 10 jogos disputados em outubro, o time se saiu vitorioso em apenas três. Assim, adquiriu 4 derrotas em tempo regular e outras três em overtime, somando apenas nove pontos na tabela.

    Em novembro, o time ainda parecia não ver a luz no fim do túnel. Foram 14 jogos disputados que resultaram, por fim, em apenas seis vitórias. Os placares extensos das derrotas apenas reforçaram ainda mais a decaída de desempenho da equipe.

    E a demissão do técnico, Mike Yeo, ao fim do mês apenas ressaltou a má fase dos Blues. Como solução imediata, o time optou por promover Craig Berube, que atuava como técnico assistente da equipe desde 2017, para a posição de técnico interino da equipe. 

    Mesmo com problemas internos e polêmicas que giravam em torno do time de St. Louis, Berube tentou ao máximo guiar os Blues em outra direção. Uma que, futuramente, pudesse resultar em um melhor desempenho da equipe. E apesar de não terem sido gigantes,  as mudanças realizadas pelo novo técnico começaram a ser notadas em dezembro. 

    O número de derrotas, apesar de não ter sido o ideal, acabou não ultrapassando a quantidade de vitórias. Uma diferença se compararmos com o desempenho da equipe no mês anterior. E dessa forma, após 37 jogos disputados, o St. Louis finalizou 2018 com 34 pontos. Número que não colocou os Blues no topo da tabela, mas que foi o suficiente para mostrar que, talvez, Berube pudesse mudar o destino da equipe em 2019.

    A grande virada

    E foi o que aconteceu. Das 11 partidas que o time disputou em janeiro de 2019, sete resultaram em vitórias. Além disso, a equipe sofreu apenas quatro derrotas em tempo regular e uma em overtime. 

    Um dos principais fatores a influenciar positivamente no desempenho dos Blues foi Jordan Binnington. O goleiro, que assinou um contrato de duas vias com o time em julho de 2018, não havia disputado tantas partidas com a equipe até o momento, já que Jake Allen ainda ocupava a posição de goleiro titular. 

    Mas a chegada de Berube acabou se mostrando uma oportunidade para Binnington, que foi chamado para o time após os Blues terem iniciado janeiro com o pior recorde da temporada. E o sucesso do jogador foi imediato: das 7 partidas em que iniciou nas redes dos Blues no mês, o goleiro venceu cinco. 

    Em fevereiro, notando seu grande desempenho, Berube optou por continuar com Binnington nas redes. E o sucesso do time continuou a prevalecer, pois dos 14 jogos disputados no mês, os Blues saíram-se vitoriosos em 12. Assim, somando apenas duas derrotas (uma em tempo regular e outra em overtime), o time conquistou seu melhor recorde em toda a temporada. 

    Apesar da leve decaída em março, o St. Louis ainda conseguiu se manter perto da zona de classificação para os playoffs, com 8 vitórias em 15 jogos. Em abril, o time continuou o bom desempenho. Tal qual que garantiu à equipe uma boa posição na tabela.

    Com o Fim da temporada regular eapós os 82 jogos mais desafiadores da história do St. Louis Blues, uma colocação no último lugar da tabela, e outras reviravoltas, a equipe se classificou para os playoffs ocupando o terceiro lugar na divisão central e quinto na conferência oeste, com 99 pontos. 

    Enfim, os playoffs

    Devido a instabilidade na temporada regular, muito se especulava que talvez o St. Louis acabasse não avançando não competição. Mas novamente os Blues mostraram que o trabalho árduo desenvolvido pela equipe acabaria trazendo recompensas.

    O primeiro adversário dos Blues nos playoffs foi o Winnipeg Jets, que finalizou a temporada uma posição acima dos Blues na Conferência Oeste. E, por terem vantagem, o St. Louis precisou viajar para o Canadá para a disputa dos dois primeiros jogos.

    Jogar na casa dos Jets não foi um fator intimidador para os Blues, que venceu as duas primeiras do round. No entanto, o oponente retaliou e venceu os jogos 3 e 4 na casa do St. Louis. Mas a vitória na quinta partida colocou os Blues ainda mais perto de uma classificação. 

    Dessa forma, o time de St. Louis precisaria apenas de uma vitória para garantir a ida ao segundo round. E foi o que aconteceu – com a vitória no jogos seis, os Blues avançaram portanto para a próxima etapa da competição.

    No segundo round, o oponente do time foi o Dallas Stars. Apesar de vencer a primeira partida em casa, os Blues foram derrotados no jogo 2 pelos Stars. E a vitória no jogo três também não foi o suficiente, já que o Dallas acabou se saindo vitorioso nas duas partidas seguinte e, dessa forma, assumiu a liderança do round.

    No entanto, a vitória dos Blues no jogo seis deixou a série empatada. Ou seja, seria tudo ou nada para a equipe de St. Louis a partir daqui. E após 3 períodos regulares, e dois overtimes, foram os Blues que levaram a melhor. Assim, o time acabou se classificando para a Final da Conferência Oeste e teria como adversário o San Jose Sharks. 

    O round contra os Sharks não apresentou tantos desafios como o anterior. Mesmo com a derrota para o oponente no primeiro jogo, os Blues venceram a segunda partida e empataram a série. No entanto, voltaram a serem derrotados pelos Sharks no jogo três, entregando outra a vantagem para o San Jose.

    Mas a vitória na quarta partida deu uma nova perspectiva ao St. Louis, que continuou com a sequência de vitórias nos três jogos seguintes. Assim, ao vencer quatro partidas, os Blues venceram o round e, por fim, atingiram o objetivo principal da temporada: ir para a final da Stanley Cup. 

    Campeões da Conferência Oeste, o último desafio dos Blues na conquista pela taça era o confronto contra os Bruins. Foto: Reprodução/nhl.com

    Um passo mais perto

    Boston Bruins e seu grande desempenho. Isso era o que separava o St. Louis Blues da sua primeira Stanley Cup Final. 

    Se classificando para os playoffs na terceira posição overall da Liga, os Bruins contavam com um dos ataques mais eficientes da NHL. E por isso, o St. Louis entendia que as dificuldades que enfrentaria nesse round seriam muito maiores do que as anteriores. Dificuldade que se mostrou presente logo no primeiro jogo da Final, onde o Boston acabou vencendo o St. Louis por 4 a 2 no TD Garden. 

    Os Blues retaliaram ao vencer a segunda partida em overtime, ainda na casa dos Bruins. E mesmo com a derrota em casa no jogo três, não se mostraram abalados, saindo-se vitoriosos nas partidas quatro e cinco. Mas novamente o Boston colocou um empecilho no caminho ao vencer o jogo seis. Assim, o round precisou de uma sétima partida.

    Tudo ou nada. Esse é significado dos jogos 7 em uma Final da Stanley Cup. E aqui, as derrotas, má fase e todos os acontecimentos da temporada serviram como combustível para os Blues no último jogo da competição. Não existia alguém que quisesse mais a vitória do que o St. Louis naquele momento, algo que se mostrou visível no gelo.

    Por fim, campeões da Stanley Cup 2018

    A vantagem obtida pelos Bruins fez com que o jogo sete acontecesse no TD Garden, casa da equipe. Mas o fator não assustou os Blues, pois foi a equipe quem abriu o placar da partida aos 16:47 do primeiro período com O’Rielly. Pietrângelo seguiu o exemplo do companheiro de time e aumentou o placar para os Blues ainda na primeira etapa do jogo. 

    Com a não reação do Boston, os Blues assumiram o restante do controle da partida, fazendo mais dois gols. Portanto, após três períodos, 7 partidas da Final e 4 rounds vitoriosos anteriormente, o apito final soou no TD Garden e oficializou o St. Louis Blues como campeão da Stanley Cup 2018.

    O time comemorando a conquista da taça pela primeira vez. Foto: Reprodução/nhl.com

    A primeira do time em mais de 50 anos de história na NHL. Uma vitória marcada por uma das maiores reviravoltas já feitas por um time da Liga, e que consagrou o St. Louis como uma das melhores equipes da NHL. Ryan O’Reilly, que foi uma das peças essenciais na conquista do troféu pelos Blues, foi o jogador quem levou Conn Smythe Trophy como MVP dos playoffs.

    Após a vitória em Boston, o time viajou para St. Louis, onde comemorou a conquista em parade que contou com a presença de cerca de 1 milhão de pessoas nas ruas da cidade. A conquista da taça foi simbólica e importante, já que o último time profissional de St. Louis a conquistar um troféu foram os Cardinals, em 2011. 

    A conquista da Stanley Cup foi um marco, divisor de águas e contou muito sobre quem é o St. Louis Blues. Novamente, ‘milagre’ não é palavra certa para se referir ao que aconteceu com o time em 2019. A vitória foi fruto de muito trabalho e perseverança da parte da equipe, mesmo quando nada se encontrava a seu favor.

    Por isso, como bons fãs do esporte, torcemos para que o espírito de equipe do St. Louis prevaleça e traga mais frutos para o time como os de 2019. 

  • O caso Akim Aliu e as consequências na NHL

    O caso Akim Aliu e as consequências na NHL

    Em 2019, o mundo do hockey se surpreendeu após Akim Aliu alegar que Bill Peters, na época técnico do Calgary Flames, desrespeitou Aliu referindo a ele por injúrias raciais. O caso aconteceu quando os dois estavam no Rockford IceHogs, da AHL. Ao invés de ser amparado na época, Aliu foi silenciado pela liga e nunca mais teve uma chance na NHL após tal incidente. Peters se demitiu do Calgary Flames quatro dias após as alegações no ano passado. 

    O hockey, por ser um esporte extremamente tradicional, carrega alguns valores que são inadequados nos dias de hoje. Valores estes que usualmente se confundem com virtudes, como por exemplo, o sexismo e o racismo. Contudo, tais valores vão se modificando com o passar dos anos, e eles são apenas reflexos da sociedade atual.

    Neste texto, relembramos os acontecimentos de 2019 e propomos uma reflexão sobre as poucas mudanças que ocorreram após um ano desde as denúncias.

    A história de Akim Aliu

    Akim Aliu é filho de pai nigeriano, Tai, e mãe Ucraniana, Larissa. Quando Aliu tinha 7 anos, a família se mudou para o Canadá. Considerado muito talentoso no gelo, Aliu começou a jogar pelo Windsor Spitfires na OHL. Contudo, a carreira dele seria marcada por incidentes disciplinares, mais tarde revelados pelo próprio como acontecimentos ligados a sua cor e etnia. 

    Na temporada de 2005-06 da OHL, a primeira de Aliu, ele se envolveu em uma briga com Steve Downie. Downie fez um cross-check no rosto do jogador, o que fez com que ele perdesse alguns dentes. Em seu texto para o Players Tribune “Hockey is Not For Everyone”, Aliu disse que Downie fez isso pois Akim é negro, “Ele olhou para mim e viu um menino negro com um sotaque estranho – e não gostou de mim por causa disso. Fui atacado por causa da cor da minha pele. Eu sabia na época. E eu sei disso ainda mais agora.”

    Por conta desse incidente, Aliu solicitou uma troca e foi para o Sudbury Wolves. Ele foi ranqueado como o 5° melhor prospect de 2007, no entanto, foi escolhido pelo Chicago Blackhawks no segundo round em 57° lugar, muito por conta dos incidentes em gelo oriundos de um jovem que se rebelou contra um sistema racista. 

    Por fim, a carreira profissional do canadense foi marcada pela passagem em diversos times, tanto na NHL quanto na AHL. Em 2012, ele assinou pelo Calgary Flames, mas a última equipe em que ele jogou foi HC Litvínov, da principal liga Tcheca

    Os precendentes: demissões de Don Cherry e Mike Babcock

    O famoso comentarista de hockey Don Cherry foi demitido quase um ano atrás, no dia 9 de novembro de 2019. Cherry é uma das figuras mais icônicas e polêmicas do hockey no Canadá, protagonista de falas preconceituosas e controversas. Durante o Coach’s Corner, famoso programa de análise de hockey, Cherry fez comentários que sugeriam que os imigrantes canadenses se beneficiam dos sacrifícios de veteranos e não usavam a remembrance poppy (flor de papoula que demonstra respeito às pessoas que serviram pelo seu país). Assim, reproduzimos aqui as polêmicas palavras do comentarista:

    “Vocês que vêm aqui … vocês amam nosso estilo de vida, vocês amam nosso leite e mel, pelo menos vocês podem pagar alguns dólares por uma poppy ou algo assim … Esses caras pagaram por sua viagem, da vida que você gosta no Canadá, esses caras pagaram o preço mais alto.”

    Esse comentário foi um basta nas falas intolerantes de Don Cherry. Após muitas críticas ao redor da comunidade do hockey, a Sportsnet o demitiu dois dias depois. Contudo, essa ação só foi o começo de uma sequência de fatos que essa demissão acarretaria para a NHL e o hockey.

    No dia 20 de novembro, o Toronto Maple Leafs demitiu o então técnico da equipe Mike Babcock, inicialmente pela performance a desejar que o time canadense apresentava no gelo. Alguns dias depois, ressurgiu uma narrativa de que Babcock havia mandado um rookie dos Leafs, até então sem nome divulgado, fizesse uma lista sobre quem não se esforçava na equipe. Esse calouro era ninguém menos que Mitch Marner, um dos principais jogadores da equipe. 

    Contudo, o caso se agravou quando revelaram que Babcock foi além de solicitar a controversa tarefa: ele havia mostrado essa lista para os companheiros de equipe do então novato Marner. Posteriormente, o right winger disse que por conta do apoio de seus companheiros, não houve nenhum sentimento de rancor entre eles. 

    Tal demissão e o fato publicado em seguida que abriu as portas para o caso de Peters e Aliu. 

    Bill Peters e a injúria racial contra Akim Aliu

    No dia 25 de novembro, Akim Aliu postou em seu perfil do Twitter que Bill Peters em diversas ocasiões referiu-se a ele por diversas expressões racistas em inglês. Após Aliu se rebelar, novamente sem apoio dos colegas ou do seu time, ele foi mandado para o time afiliado. 

    Aliu disse que teve uma situação que aconteceu de manhã, após um treino, quando ele estava comandando o som do vestiário. 

    “Akim, estou cansado de você colocar esse som de “n-word” teriam sido suas exatas palavras. Peters, na época treinador do IceHogs, referia-se à seleção de música hip-hop de Aliu.

    “Ele então saiu como se nada tivesse acontecido. (No vestiário) ficou um silêncio mortal. Eu apenas sentei na minha cabine, não disse uma palavra” lembrou Aliu sobre o ocorrido.

    Dois colegas de time na época confirmaram que o evento aconteceu. O então capitão da equipe do IceHogs, Jake Dowell, confrontou Peters sobre o incidente no escritório do treinador. Dowell não quis comentar, na época, sobre o ocorrido. Mas disse que cooperaria em qualquer investigação conduzida pela NHL ou pelo Flames.

    Aliu ainda disse que Peters o chamou para seu escritório, todavia, não para se desculpar. “Sabe, estou farto dessa música de merda de “n-word”. É todo dia. De agora em diante, precisamos tocar músicas diferentes.” 

    Muitos se questionaram sobre a demora de Akim para falar sobre este assunto, que ao longo dos anos se tornou cada vez mais importante. Aliu citou o exemplo de Colin Kaepernick, que não teve outra chance de atuar na NFL quando virou free agent após ter se ajoelhado em 2016 em protesto contra a brutalidade policial contra negros nos Estados Unidos.

    Aliu disse que se arrepende de não ter confrontado Peters naquela época. Ele ainda afirmou que sua carreira terminou antes mesmo de começar e que perdoaria Peters se ele tivesse se desculpado na reunião. 

    “Não há muito que você possa fazer ou me dizer que eu não possa aceitar um pedido de desculpas,” disse Aliu. “Mas ele não era homem o suficiente para se desculpar comigo e seguir em frente.”

    As consequências na NHL

    Bill Peters assinou a carta de demissão e foi dispensado após um breve período de investigação sobre o caso. Além disso, ele fez um pedido de desculpas para o GM, Treviling, e não para Aliu, no qual admitiu ter feito tais comentários. 

    Na época do ocorrido, escrevemos sobre a declaração de Gary Bettman, onde ele se mostrou disposto a ter um ambiente mais aberto à ocorridos como esse. Entre algumas iniciativas, havia a de uma plataforma de comunicação sobre esses problemas, uma política de tolerância zero e um programa anual de inclusão e conscientização.

    Todos sabemos que a pandemia de COVID-19 veio para acabar com muitas expectativas para a temporada de 2020. Apesar da Stanley Cup ter acontecido, a temporada foi suspensa em março, sem muitas mudanças sociais e sobre diversidade como esperando.

    Entretanto, 2020 foi um ano importante para os grupos sociais marginalizados dos Estados Unidos. Afinal, o movimento Black Lives Matter, após George Floyd, um homem negro, ter sido morto afixiado por um policial branco, causou comoção em várias cidades do país e do mundo colocando em foco a questão racial e a violência policial. 

    Contudo, quando esse fato aconteceu, a NHL foi a última das quatro grandes ligas americanas (NBA, NFL, MLB e NHL) a reconhecer o ocorrido. Além disso, como o campeonato estava na fase de playoffs, a liga só parou os jogos por conta de uma demanda dos jogadores que viram a importância da apoio das ligas esportivas a esse movimento. 

    Após isso ter acontecido, Akim Aliu, em conjunto com Evander Kane, criaram a Hockey Diversity Alliance. Primeiramente, a HDA estava unida com a NHL. Essa organização trouxe diversas demandas de inclusão e antirracismo. Porém, foi anunciando que eles se desligariam da liga, já que a mesma falhou em cumprir com as ações demandadas.

    As mudanças ainda não se concretizaram. No entanto, com a temporada suspensa, não haveria como elas ocorrerem. Ainda com algumas incertezas no calendário, é esperado que as práticas de conscientização e diversidade na NHL sejam feitas durante os próximos anos. 

  • O fim da CWHL, a liga feminina canadense de hockey

    O fim da CWHL, a liga feminina canadense de hockey

    O ano de 2019 foi de muitas novidades no hockey feminino e tudo se originou a partir de um único motivo: o fim da CWHL (Canadian Women’s Hockey League)

    Fundada em 2007, a liga feminina de hockey no Canadá foi extremamente importante para a modalidade, não somente durante as suas 12 temporadas como também após o seu fim. Durante os anos de atividade, a CWHL passou de liga amadora à segunda liga feminina que pagava um salário as suas jogadoras, a primeira tendo sido a NWHL. Ela quebrou barreiras e ajudou o hockey feminino a chegar mais perto do seu maior objetivo: ganhar espaço e reconhecimento.

    No entanto, o caminho para a liga canadense não foi fácil. Apesar da conquista de uma expansão até para a China, a luta era grande e seu fim foi inevitável. Ao todo, 12 times passaram pela CWHL durante suas 12 temporadas. A liga anunciou o seu fim no dia 1º de maio de 2019, deixando um legado e um futuro incerto para o hockey feminino. 

    A história da CWHL

    Fundada em 2007, a CWHL tinha por objetivo conquistar espaço para o hockey profissional feminino. Infelizmente, as oportunidades não foram muitas e o caminho, nada fácil.

    Inicialmente, sem grandes recursos financeiros, a CWHL fez um acordo com as jogadoras: eles pagariam por tudo menos um salário. Ou seja, viagens, equipamentos, aluguel de gelo e qualquer coisa que envolvesse os jogos era bancado pela liga. No entanto, as atletas não receberam para atuar pelas suas equipes.

    Assim, sem muito espaço, as jogadoras aceitaram as condições para terem um campeonato para jogar.

    Foram anos de ajustes e planejamentos até a liga alcançar o nível em que se encontrava em 2019. Formando parcerias com outras ligas femininas, e até mesmo com alguns times na NHL, a CWHL fez tudo que podia para alcançar o seu objetivo.

    Em seu início, a competição pela Clarkson Cup era contra a também extinta WWHL (Western Women’s Hockey League). Cada liga enviava seu time campeão da temporada para a disputa decisiva que durou até 2011, quando a WWHL encerrou as suas atividades. 

    Montreal Stars campeão da Clarkson Cup 2009. (Fonte:Reprodução/hockeygods.com)

    Na temporada 2010-11, após uma reestruturação, veio a expansão. A primeira foi para fora do Canadá, com o primeiro e único time da liga nos EUA, o Boston Blades. A expansão também resultou em novos times no Canadá e o primeiro draft da liga, realizado somente entre os novos times.

    No ano seguinte, a liga conseguiu uma parceria com os times da NHL, o Toronto Maple Leafs e Calgary Flames. Assim, essas franquias passaram a fornecer fundos financeiros para ajudar a manter os times femininos de suas cidades. Foi através desta parceria que o Alberta Honeybadgers trocou de nome e passou a ser o Calgary Inferno. Em 2015, a liga repetiu a parceria, desta vez entre o Montreal Canadiens e o Montreal Stars. Da mesma forma que a equipe de Calgary, o time do Quebec passou a se chamar Les Canadiennes de Montreal. 

    Em 2017, outra reviravolta aconteceu e a CWHL deu mais um passo para o seu crescimento. Isso porque a liga fez uma nova expansão, para a China. m os times Kunlun Red Star WIH, em parceria com o Kunlun Red Star da KHL, e o Vanke Rays. A parceria fez muito bem para a CWHL, afinal, foi através dela que a liga teve condições de enfim começar a pagar um salário para as suas jogadoras. Infelizmente esse também foi o início do fim.

    Mudanças para a última temporada

    A última temporada da CWHL foi bastante movimentada e marcou a última vez em que as jogadoras das seleções canadense e estadunidense participaram de uma liga feminina de hockey profissional.

    Antes do início a temporada 2018-19, a liga passou por mudanças. No dia 19 de julho de 2018, a comissária Brenda Andress, que estava à frente da liga desde o seu início, apresentou a sua renúncia. Assim, a ex-jogadora Jayna Hefford foi nomeada comissária interina e passou a comandar a CWHL.

    Pouco menos de um mês depois, no dia 3 de agosto, uma nova mudança: as equipes da China se unificaram e foram renomeados para Shenzhen KRS Vanke Rays. Dessa forma, a liga ficou com apenas um time em sua expansão na China e seis times ao total.

    Shenzhen KRS Vanke Rays após a unificação dos times (Fonte: Reprodução / sportsnet.ca)

    Outra mudança também envolvendo um time de expansão aconteceu poucos dias depois, no dia 20 de agosto. Em razão da criação da NWHL e com ela o Boston Pride, a cidade de Boston passou a ter dois times femininos em duas ligas diferentes. Além disso, as jogadoras do Boston Blades que faziam parte da seleção americana migraram para o Pride.

    Assim, a equipe precisou de novas jogadoras. Porém, para evitar problemas, o time da CWHL foi realocado para Worcester, Massachusetts, e renomeado como Worcester Blades. 

    Mesmo antes das mudanças da CWHL, o mundo do hockey feminino já vinha sendo movimentado com as jogadoras e ex-jogadoras fazendo uma campanha nas redes sociais, pedindo uma liga unificada. A campanha, que que teve adesão de muitas profissionais da área, tinha a hashtag #OneLeague como forma de apoio.

    Última temporada

    A temporada final da CWHL teve início no dia 13 de outubro de 2018, com uma partida entre Les Canadiennes e Calgary Inferno. O campeonato seguiria o seu curso normal, uma vez que o encerramento das atividades da liga ainda não havia sido anunciado. 

    Na época, a liga contava com seis times: Calgary Inferno, Les Canadiennes, Markham Thunder, Toronto Furies, Shenzhen KRS Vanke Rays e Worcester Blades. Cada time participou de 28 jogos na temporada regular e os quatro melhores classificados puderam disputar a Clarkson Cup. 

    Naquela temporada, os Blades não conquistaram nenhuma vitória, enquanto os Vanke Rays empataram na pontuação com os Furies. No entanto, o time de Toronto tinha uma vitória a mais que a equipe chinesa, e garantiu assim a sua vaga nos playoffs. Com o quarto lugar definido, o primeiro, segundo e terceiro lugar respectivamente ficaram por conta do Calgary Inferno, Les Canadiennes e Markham Thunder. 

    Desta maneira, o primeiro time da tabela competia contra o quarto time, enquanto o segundo e terceiro disputavaam entre si. Como é comum nas ligas menores durante os playoffs, só havia duas séries, a final e a semifinal. A semifinal era uma série melhor de três, e a final disputada em uma única partida. 

    A final foi definida com o time de Calgary e de Montreal vencendo seus oponentes, e ambos conquistando o mesmo placar de 2 a 1 na série. A decisão foi realizada no dia 24 de março de 2019, no Coca-Cola Coliseum, na cidade de Toronto, Canadá.  

    Com nomes conhecidos pelo público através das seleções norte-americanas e a forte rivalidade entre os times, a partida marcava a terceira vez em quatros anos que eles se enfrentavam. O confronto se tornou ainda mais aguardado com a promessa de muitas emoções.

    O placar da final foi aberto pela atacante Zoe Hickel, do Calgary Inferno. Posteriormente ela também marcou o quarto gol de sua equipe. Além de Hickel, balançaram a rede para o Inferno as jogadoras Brianna Decker, Halli Krzyzaniak e Rebecca Johnston. Ao final da partida, Decker foi premiada como a MVP do jogo.  

    Do outro lado, foram dois gols marcados, ambos pelas mãos da artilheira Ann-Sophie Bettez. Infelizmente, os esforços das jogadoras dos Canadiennes não foram suficientes e o time de Calgary venceu a partida por 5 a 2.

    Marie-Philip Poulin em seu último ano como capitão do Les Canadiennes. (Fonte: Reprodução/torontoobserver.ca)

    Outro nome conhecido do público para a partida era o da capitã do time de Montreal, a MVP da temporada Marie-Philip Poulin. No entanto, a atleta não participou da decisão devido a uma lesão sofrida na partida anterior. 

    Por fim, apenas alguns dias depois, em 31 de março de 2019, a diretoria da CWHL anunciou o fim de suas atividades. O motivo alegado foi por falta de recursos financeiros. Segundo a Liga, a divisão dos patrocinadores entre as duas ligas profissionais femininas afetou financeiramente a CWHL. Esta vinha contando com o apoio na parceria com os times chineses para manter a liga  nas últimas temporadas.

    Influência no hockey feminino

    O fim da CWHL influenciou de diversas maneiras o mundo do hockey feminino. Apesar de contar com uma liga a menos hoje, de certa forma, a modalidade ganhou mais visibilidade e espaço no esporte.

    Com o fim da CWHL, as jogadoras passaram a ter apenas a NWHL como opção para praticar o esporte na América do Norte de maneira profissional. Entretanto, ganhar um salário não significa especificamente ganhar um bom salário e ter boas condições de trabalho.

    Apesar da liga estadunidense ter sido a pioneira nessa questão, ela ainda não possui os mesmos recursos que outras maiores possuem. O patrocínio ainda é pouco, bem como as oportunidades. Dessa forma, diversas jogadoras da CWHL e da NWHL se uniram e criaram a PWHPA.

    A associação busca melhores condições de trabalho e mais reconhecimento para a modalidade feminina. Com isso, elas começaram ainda em 2019 o Dream Gap Tour, turnê que passa pelos estados norte-americanos promovendo o esporte. Assim, elas conseguiram alcançar feitos ainda inéditos como participar do All-Star Weekend da NHL.

    No ano de 2020, a PWHPA ainda entrou para a história do hockey feminino ao conquistar um patrocínio de um milhão de dólares, o maior investimento na modalidade já realizado no continente.

    A NWHL também não ficou para trás. Apesar de ainda ter pouco patrocínio, a liga realizou a sua primeira expansão para o Canadá com o Toronto Six. Além disso, ela também conquistou mais espaço no esporte na busca pelo reconhecimento e oportunidades. Entretanto, essas conquistas ainda são pequenas para o hockey feminino.

    A luta por melhores condições de trabalho e valorização da modalidade, que na Olímpiada de 2018 foi uma das competições de maior destaque, está apenas no início de um longo percurso a ser cumprido.  

    Fonte: Reprodução/chatnewstoday.ca

  • Draft Class de 2018: onde estão

    Draft Class de 2018: onde estão

    Três anos após a campanha não-oficial do “Tank for McDavid”, o Buffalo Sabres finalmente foi contemplado com a primeira escolha do draft em 2018.  Esta foi a terceira vez que a equipe do estado de Nova York recebeu o direito de escolher primeiro, depois de 1970 e 1987. Os demais integrantes do top 3 foram as equipes do Carolina Hurricanes e do Montreal Canadiens. 

    Ottawa, tal como Colorado no ano anterior, caiu para a quarta posição ainda que tenha tido uma temporada tenebrosa em 2016/2017. Você tem curiosidade em saber da onde o fulaninho de classe de 2018 brotou? Então vem com a gente saber mais sobre esse draft. 

    RASMUS DAHLIN, D, BUFFALO SABRES (#1 overall)

    O sueco chegou ao draft como a escolha óbvia para a first pick. Dahlin, além de ter sido ranqueado como o melhor prospect europeu, teve a oportunidade de participar dos jogos olímpicos de inverno de 2018. O defensor foi o atleta mais jovem na modalidade naquela edição da competição. Uma das principais razões pelo sueco ter se destacado foi seu jogo ofensivo, que complementa as suas habilidades defensivas. Com comparações a Erik Karlsson e Victor Hedman, ficava claro que a equipe que draftasse Dahlin teria uma peça chave para sua franquia durante muito tempo. 

    Após a seleção de Buffalo, o defensor se tornou o primeiro sueco a ser a first pick desde que o Toronto Maple Leafs draftou Mats Sundin em 1989. Embora sua estreia tenha sido com uma derrota de 4-0, Dahlin se tornou o quinto defensor na história da NHL a marcar 30 pontos em uma temporada. Com 44 pontos depois de seu ano de estreia, o sueco foi um dos finalistas do Calder Memorial Trophy, mas perdeu para o compatriota Elias Petterson. Dahlin ainda está no início de sua trajetória na Liga, mas ao assistirmos suas atuações já fica claro o porquê do sueco ser um dos pilares do rebuild dos Sabres, ao lado de Jack Eichel. 

    ANDREI SVECHNIKOV, RW, CAROLINA HURRICANES (#2 overall)

    O winger foi para a América do Norte após seu irmão, Evgeny, ter sido draftado pelo Detroit Red Wings. Depois de um ano na United State Hockey League (USHL), o russo foi escolhido pelo Barrie Colts no import draft da Canadian Hockey League (CHL). O bom desempenho de Svechnikov na Ontario Hockey League (OHL) fez com que ele fosse ranqueado em primeiro dentre os patinadores do continente norte-americano. Após ter sido selecionado por Carolina no draft, o russo assinou seu contrato profissional com a equipe.

    O efeito Svechnikov se espalhou pela torcida dos Canes durante a temporada de estreia do russo. Além de ter tido uma campanha respeitável enquanto rookie, ele foi uma das faces do movimento de renovação na equipe de Carolina. Na primeira aparição do time na pós-temporada em XX anos, Svechnikov marcou cinco pontos em nove partidas. Logo no início da temporada seguinte o russo se tornou o primeiro a marcar um Michigan (colocar link do vídeo) na NHL, feito que o winger conseguiu repetir alguns meses depois (colocar link também). Atualmente Svechnikov é um dos principais jogadores dos Canes, e tem tudo para se tornar um grande nome na Liga.

    JESPERI KOTKANIEMI, C, MONTREAL CANADIENS (#3 overall)

    Quando Marc Bergevin falou o nome do finlandês, uma das câmeras localizadas na arena focou em um casal de torcedores de Montreal. O choque e irritação na face da torcedora são claros no vídeo, afinal todos os rankings mostravam Filip Zadina como a próxima escolha óbvia. Entretanto, Kotkaniemi foi quem os Habs escolheram para completar o top 3 daquele ano.  Ao estrear contra o Toronto Maple Leafs em 2018, o finlandês se tornou a primeira pessoa nascida em 2000 a disputar uma partida pelas quatro grande ligas (NFL, NBA, MLB e, é claro, NHL). 

    Embora o center tenha tido uma primeira temporada razoável, a pressão de uma torcida grande e apaixonada como a dos Habs fez com que os torcedores se frustrassem com ele. Por não ter se desenvolvido com a rapidez esperada, o finlandês terminou a temporada na American Hockey League (AHL). Atualmente, devido à pandemia do COVID-19, ele encontra-se emprestado ao HC Ässät até o início do training camp da nova temporada. Kotkaniemi soma 42 pontos em 115 jogos.

    BRADY TKACHUK, LW, OTTAWA SENATORS (#4 overall)

    No caso de Tkachuk, o hockey e a NHL correm por suas veias. Filho de Keith Tkachuk e irmão de Matthew Tkachuk, o winger escolheu diferente do irmão. Depois do United States National Development Team Program (USNDTP), ele optou por seguir carreira universitária na National College Athletic Association (NCAA), jogando pela Boston University. O americano terminou o seu ano de elegibilidade no time dos rookies de sua conferência e no segundo lugar do ranking de patinadores da América do Norte.Ao assinar seu contrato com os Sens, Tkachuk abriu mão da carreira universitária. Quando marcou seu primeiro gol, o americano se tornou o integrante de sua família a fazer um gol mais rápido na NHL. 

    Mesmo com lesões e jogando apenas 71 partidas, o winger fez 45 pontos em seu primeiro ano e foi escolhido para o All Star Game. Além disso, seus 22 gols foram o segundo maior número por um rookie, atrás apenas do vencedor do Calder daquele ano, Elias Pettersson. A personalidade e o jogo explosivo de Tkachuk fizeram com que ele se tornasse um ponto de alegria e positividade para a torcida dos Sens, equipe que vive uma crise há um bom tempo. O americano é tão importante para o time da capital canadense que há rumores de que ele pode se tornar o capitão da equipe em breve.

    QUINN HUGHES, D, VANCOUVER CANUCKS (#7 overall)

    O sobrenome Hughes já é conhecido pelas torcidas da NHL. O jovem defensor americano foi draftado da NCAA, onde jogava na Universidade de Michigan. Antes disso, ele fazia parte do USNTDP juntamente com Brady Tkachuk. Hughes chamou a atenção dos olheiros por sua técnica de patinação e habilidades ofensivas, que fizeram com que o Vancouver Canucks usasse sua escolha do primeiro round para selecioná-lo. Afinal, o defensor havia quebrado vários recordes e conseguido números impressionantes na sua temporada de estreia com Michigan. 

    Após o draft, Hughes retornou à universidade para seu segundo ano, e seus números foram ainda mais impactantes. Com cinco gols e 28 assistências em 32 partidas, o americano foi o maior pontuador de sua equipe e conquistou uma indicação ao Hobey Baker, prêmio para o melhor jogador da NCAA durante a temporada. Com a conclusão do calendário de jogos dos Wolverines, Hughes deixou a NCAA e assinou seu contrato profissional com os Canucks. Embora ele tenha estreado na NHL em março de 2019, seu rookie year se iniciou apenas na temporada 2019/2020, devido às regras do contrato de novato. O americano quebrou diversos recordes na franquia dos Canucks e terminou a temporada liderando sua classe de novatos em pontos (53 em 68 partidas), a terceira vez em que um defensor conseguiu este feito. Além disso, Hughes foi votado para participar do All Star Game e no final da temporada foi finalista do Calder Trophy. Ao que tudo indica o jovem defensor americano tem tudo para escrever seu nome dentre os grandes da NHL. 

    Menções honrosas:

    Barrett Hayton (C, Arizona Coyotes, #5 overall): o center canadense veio do Sault St. Marie Greyhounds e se tornou parte permanente do elenco dos Yotes em 2019/2020. Atualmente está emprestado ao Ilves, da liga finlandesa, até o início do training camp. 

    Filip Zadina (RW, Detroi Red Wings, #6 overall): embora o tcheco tenha sido um prospect muito cotado, ele ainda não conquistou seu lugar no time principal de Detroit. Como a equipe está no meio de uma reconstrução é possível que ele se desenvolva com mais calma. 

    Adam Boqvist (D, Chicago Blackhawks, #8 overall): o defensor sueco é parte importante no rebuild do Chicago Blackhawks, e foi draftado do London Knights da OHL, superpotência do major juniors

    Evan Bouchard (D, Edmonton Oilers, #10 overall): o jovem defensor é uma das esperanças para a blue line do Edmonton Oilers. Em sua foto do draft, Bouchard parece um pai de família que não sabe o que é dormir há anos, desde que o filho nasceu. 

    K’Andre Miller (D, New York Rangers, #22 overall); principal prospect da defesa do New York Rangers, Miller optou pela carreira universitária da NCAA, jogando na universidade de Wisconsin por duas temporadas. Em março deste ano ele assinou seu contrato profissional com os Rangers.

  • Olímpiadas de Inverno em PyeongChang

    Olímpiadas de Inverno em PyeongChang

    As Olimpíadas de Inverno de PyeongChang 2018 trouxeram para o hockey uma chance de mostrar ao mundo que o esporte não vive apenas de NHL. Isso porque os jogadores da liga estavam proibidos de ir aos Jogos defender as bandeiras de seus países.

    Dessa vez, a Coreia do Sul sediou o evento, mais precisamente na cidade de Pyeongchang. Os Jogos aconteceram em fevereiro, começando no dia 9 de fevereiro e terminando dia 25. 

    O escândalo de doping que veio a tona em 2017 afetou a participação da Rússia nas competições, já que, como punição, o Comitê Olímpico Russo foi banido de qualquer participação nas Olimpíadas de Inverno de 2018.

    Contudo, houve outra forma dos atletas russos competirem nos eventos. Assim, aqueles sem violações anteriores de drogas e com um histórico consistente de testes poderiam competir, sob uma bandeira neutra e denominado como “Atleta Olímpicos da Rússia” (Olympic Athlete from Russia, ou OAR, em inglês).

    Segundo os termos do edital do COI (Comitê Olímpico Internacional) nenhum funcionário do governo russo poderia participar dos Jogos. Da mesma forma, a utilização da bandeira russa e execução do hino nacional russo também estavam banidos. No lugar, a bandeira olímpica e o hino olímpico deveriam ser usados quando atletas russos chegassem ao pódio.

    Mesmo com toda essa adversidade, além da pressão criada pelos rigorosos exames antidoping, os russos conseguiram faturar a medalha de ouro no hockey no gelo maculino em 2018. Por outro lado, a modalidade feminina se tornou uma das competições mais acirradas daquele Jogos Olímpicos.

    Isso porque, diferentemente do masculino, em que a Rússia demonstrou hegemonia no gelo, as seleções do Canadá e Estados Unidos disputaram jogo a jogo quem subiria no lugar mais alto do pódio. Neste texto do especial 10 for 10, relembramos como foram as Olímpiadas de Inverno 2018 nas modalidades masculina e feminina do hockey no gelo. 

    Cerimônia de abertura

    O Estádio Olímpico de Pyeongchang, construído especificamente para os Jogos, foi escolhido para hospedar a cerimônia de abertura das Olímpiadas de Inverno 2018, recebendo atletas do mundo inteiro e acomodando 35.000 pessoas. Os organizadores do evento disseram que a forma pentagonal do Estádio foi escolhida através de uma combinação de formas diferentes, com um círculo, um quadrado e um triângulo, que representam o céu, a terra e a humanidade.

    O curioso sobre o Estádio de Pyeongchang é que ele não foi planejado para competições, nem olímpicas nem paraolímpicas, mas sim apenas para realizar a cerimônia de abertura. Dessa forma, o local foi demolido depois da cerimônia. 

    A principal mensagem da cerimônia foi sobre a paz, paixão, harmonia e convergência. Cinco crianças da província rural de Gangwon participaram da cerimônia, que incluiu um Inmyeonjo (uma criatura mítica com corpo de pássaro e cabeça de humano, criatura que só aparece quando o mundo está em paz). Além disso, a cerimônia contou com outras quatro criaturas míticas, incluindo um tigre branco – protetor animal do espírito da Coreia.

    Modalidade Feminina

    Foto: Reprodução / cbssports.com

    Em 2018, a modalidade feminina foi marcada por duas pequenas mudanças no quadro de países participantes: a primeira com a seleção sul-coreana, que automaticamente se classificou por ser a anfitriã, e teve um pequeno acréscimo no seu quadro de jogadoras. Isso porque a seleção norte-coreana teve autorização para participar juntamente da seleção anfitriã, trazendo pela primeira vez uma seleção unificada das Coreias

    Desta maneira, a seleção coreana expandiu para 35 jogadoras, com 22 participando de cada jogo e três jogadoras norte-coreanas sendo selecionadas pela treinadora. Ao todo, foram 12 jogadoras norte-coreanas se revezando nos jogos. 

    A outra mudança foi a da seleção russa, que, como na modalidade masculina, as atletas não puderam assumir a sua bandeira. Assim o campeonato seguiu o formato padrão de oito equipes divididas em dois grupos. No grupo A, as seleções do Canadá, Estados Unidos da América, Finlândia e Atletas Olímpicos da Rússia. Já o grupo B foi composto pela Coreia, Japão, Suécia e Suíça. 

    Sem nenhuma surpresa e com a já conhecida rivalidade, Estados Unidos e Canadá foram as primeiras equipes a se classificar para as semifinais ainda na fase preliminar, criando assim uma expectativa para o público.

    Por outro lado, as seleções da Coreia e do Japão disseram adeus a competição, deixando para Finlândia, OAR, Suécia e Suíça competirem entre si durante as quartas de final. 

    Avançando para as semifinais, os times norte-americanos fizeram um espetáculo no gelo, desta vez contra as equipes da Finlândia e dos Atletas Olímpicos da Rússia. Em somente um jogo cada, ambas as partidas terminaram em 5 a 0, gerando muita expectativa para o clássico feminino Canadá e EUA que se enfrentaria na final. A disputa de bronze ficou para ser disputada entre Finlândia e OAR.

    A Final Feminina

    A decisão aconteceu no dia 22 de fevereiro. Com nomes já conhecidos pelo público, ambas as seleções chegaram prontas para levar a tão desejada medalha de ouro para casa. 

    Numa briga acirrada, todo mundo queria ser o primeiro a balançar a rede, e foi a atacante Hilary Knight que o fez, no final do primeiro período. Com assistência de Brianna Decker e Sidney Morin, a seleção estadunidense estabeleceu a primeira vantagem na partida.

    Infelizmente para elas, Haley Lyn Irwin e Blayre Turnbull não deixaram que o jogo fosse tão fácil assim e empataram o placar logo no início do segundo período. Em seguida, Marie-Philip Poulin aumentou a vantagem para o lado canadense, com uma ajuda de Meghan Agosta e Melodie Daoust. 

    Entretanto, a final olímpica entre duas potências do hockey não estava definida ainda. Ao final do terceiro período, Monique Lamoureux, com uma assistência da atacante Kelly Pannek, balançou a rede canadense e empatou a partida garantindo mais tempo para a seleção dos EUA. 

    Sem outra alternativa, o jogo acabou indo para overtime, que finalizou sem nenhum gol e, portanto, a partida seguiu empatada. Dessa forma, apenas com os pênaltis que foi possível decidir quem levaria a medalha de ouro para casa. Foi assim que a outra metade da dupla Lamoureux, a atacante Jocelyne, balançou a rede e marcou o gol final que garantiria a vitória para a seleção dos Estados Unidos. 

    Modalidade Masculina

    Foto: Reprodução / Harry How

    Em três de abril de 2017, a NHL anunciou que seus jogadores não estariam disponíveis para atuar nas Olímpiadas de Inverno 2018. Esta foi a primeira vez desde 1998 que os jogadores da liga ficaram proibidos de participar do torneio olímpico masculino de hockey no gelo.

    Isso aconteceu devido a uma discordância entre a NHL, a Federação Internacional de Hockey no Gelo (IIHF) e o IOC sobre qual órgão seria responsável por cobrir o custo de indenizar os jogadores da NHL que participassem dos Jogos.

    Embora o COI tenha pago os jogadores da NHL nas Olimpíadas de 2014 em Sochi, com um custo de 14 milhões de dólares, a comissão não estava disposta a fazê-lo novamente em PyeongChang 2018, devido a preocupações de que isso abriria um precedente e outras organizações esportivas profissionais poderiam esperar um tratamento semelhante.

    Contudo, Ilya Kovalchuk, que na época jogava no SKA Saint Petersburg (KHL), pôde participar. Kovalchuk foi draftado pelo Atlanta Trashers e havia passado por diversos times na NHL, tendo realizado seu retorno à liga após os Jogos.

    Nikita Gusev, Kiril Kaprizov, Igor Shestyorkin, Ilya Sorokin são alguns jogadores que atualmente estão na NHL e que ganharam a medalha de ouro em 2018. 

    No total, doze países se classificaram para o torneio; oito deles automaticamente pela classificação no mais alto nível das competições da IIHF (Canadá, Rússia, Suécia, Finlândia, Estados Unidos, República Tcheca, Suíça e Eslováquia). A Coreia do Sul qualificou-se automaticamente como anfitriã, enquanto os outros três países (Eslovênia, Alemanha e Noruega) participaram de um mini-torneio em que puderam garantir suas vagas.

    Os russos não ganhava uma medalha de ouro no hockey desde 1992. Vale ressaltar que naquela ocasião, o país também não conquistou o ouro como a seleção russa. Isso porque, na época, a recém-separação da União Soviética proporcionou que os seis Estados (Federação Russa, Ucrânia, Bielorrússia, Cazaquistão, Armênia e o Uzbequistão) competissem como uma Equipe Unificada.

    No caminho até a final, os Atletas Olímpicos da Rússia tiveram de enfrentar a Eslovênia, a Eslováquia e os Estados Unidos nas rodadas preliminares. Com 6 pontos conquistados, a equipe já estava classificada as quartas-de-final, onde enfrentou a Noruega.

    A equipe passou com facilidade pela Noruega, com gols de Mikhail Grigorenko, Nikita Gusev, Slava Voynov, Sergey Kalinin, Nikita Nesterov e Ivan Telegin. O único gol que a equipe norueguesa fez foi de autoria de Alexander Bonsaksen. Do outro lado, a Alemanha eliminou a Suécia em um jogo emocionante de OT.

    As semifinais então ficaram entre OAR e a República Checa, e Alemanha contra o Canadá. Os russos levaram a melhor, ganhando de 3-0.

    Em outro jogo emocionante, resolvido na prorrogação, a Alemanha eliminou a seleção do Canadá. Assim, foi a primeira vez desde a reunificação da Alemanha que eles chegavam a uma final olímpica. Na época, o Canadá sofrer a eliminação para a Alemanha foi algo inesperado, já que era considerado favorito ao título, mesmo sem os jogadores de elite da NHL.

    Na semifinal, a seleção canadense saiu perdendo por 4-1, porém, conseguiu deixar o jogo 3-4, com alguma esperança da vitória. Contudo, a equipe Alemã foi superior no jogo e conseguiu conquistar a vaga na final contra os Atletas Olímpicos da Rússia.

    A decisão

    A final aconteceu no dia 25 de fevereiro. Os russos eram os favoritos devido ao seu grande elenco composto por jogadores da KHL, e de alguns veteranos da NHL. Porém, não se podia subestimar a Alemanha, afinal, eles eliminaram outras potências do hockey, como o Canadá.

    Quem abriu o placar do jogo foi Slava Voynov, com assistência de Nikita Gusev (New Jersey Devils). Contudo, Felix Schutz não deixaria assim por muito tempo e marcou após 10 minutos do segundo período, empatando a partida.

    Gusev fez o segundo gol da equipe, e o seu primeiro na partida. Com assistência de Kiril Kaprizov (Minnesota Wild), o placar ficou 2-1. Todavia, os alemães não desistiriam tão fácil. Assim, o gol de empate foi feito por Dominik Kahun (Buffalo Sabres).

    Jonas Muller marcou o gol da virada da Alemanha, e então, o jogo estava 3-2 para os alemães. Novamente, Gusev marcou, empatando a partida que eventualmente foi para overtime.

    Enfim, Kirill Kaprizov foi quem marcou o gol de vitória na prorrogação para os russos. Esta se tornou uma partida histórica, já que a equipe teve de sair de um déficit de 2 gols para enfim levar a medalha. Gusev acabou o torneio como o jogador com mais pontos (12, 4 gols e 8 assistências). As formas com que as duas equipes jogavam, com muita intensidade, também contribuiu para a emoção dessa final.

    Recentemente, em um novo CBA, a NHL voltou a permitir a participação de seus jogadores, visando os Jogod de Inverno de Beijing 2022 e Milano Cortina 2026. Contudo, por conta do banimento que agora perdura até 2023, provavelmente veremos os jogadores da Rússia novamente com outro nome.

    No entanto, isso não diminuirá a habilidade e talento dos atletas russos possuem, visto o desempenho mostrado em 2018. Muitos jogadores que antes atuavam na KHL agora atuam na NHL, e quem sabe, eles possam sonhar com um bicampeonato em 2022.

    Foto: Reprodução / russiabeyond.com