Etiqueta: Concussão

  • A evolução dos hits na NHL em 10 anos

    A evolução dos hits na NHL em 10 anos

    O hockey é um esporte físico, e essa talvez seja uma de suas maiores e mais marcantes características. Os hits e checks são fundamentais para a dinâmica do esporte. Portanto, a ideia de que os jogadores precisam aturar todo tipo de dor, muito além da física, contribui para a exclusividade do esporte, o que nem sempre é positivo.

    Quando um oponente está com a posse do puck, o jogador tem a liberdade de usar o qualquer parte do corpo para impedir que este continue a jogada. Assim, acaba lançando um “check”, em que se é permitido atingir a área do peito, ombro ou quadril.

    Porém, como todo esporte de contato, existem riscos ao cometer hits e, principalmente, ser atingido por eles. Consequentemente, diversos jogadores, ao fim de sua carreira, acabam exibindo sinais de ETC (Encefalopatia Traumática Crônica), que se dá por lesões repetidas na região cerebral. 

    Para concluir o mês de fevereiro, e os acontecimentos de 2010, no especial 10 for 10, o NHeLas resolveu revisitar um caso de concussão acontecido há 10 anos que acabou mudando a percepção da Liga em relação aos hits e concussões e, por fim, o próprio jogo. 

    O incidente

    No dia 7 de março de 2010, o Pittsburgh Penguins jogava contra o Boston Bruins. No entanto, o que era para ser uma partida tranquila, acabou desencadeando um fato trágico.

    Em uma jogada, Matt Cooke atingiu Marc Savard, jogador dos Bruins, com um golpe na cabeça, gerando neste último uma grave concussão. Esta forçou Savard a perder dois meses de jogos.

    Matt Cooke (Penguins) atinge Marc Savard (Bruins) na cabeça
    Matt Cooke (Penguins) atinge Marc Savard (Bruins) na cabeça

    Cooke afirmou que não pretendia ferir o jogador. Entretanto, Peter Chiarelli, na época GM do Bruins, disse que “foi um golpe muito certeiro na cabeça”. Seguidamente, até mesmo colegas de equipe de Cooke, como Bill Guerin, mostraram-se indignados, afirmando que esse tipo de hit deveria ter alguma penalidade.

    No entanto, o jogador dos Penguins não recebeu penalidade ou suspensão alguma. Na época, a falta de punição recebeu muitas críticas da comunidade do hockey.

    Consequentemente, Savard foi diagnosticado com síndrome pós-concussão durante o resto da temporada regular, perdendo assim os 23 primeiros jogos da temporada de 2010-11.

    Em janeiro de 2011, ele sofreu uma segunda concussão, quando Matt Hunwick, do Colorado Avalanche, o atingiu novamente na região cerebral.

    Duas concussões sérias em 10 meses foram suficientes para que os Bruins encerrassem a temporada de Savard naquele momento. No entanto, mesmo assim, após ganharem a Stanley Cup de 2011, os Bruins pediram à liga que incluísse o nome de Savard na taça. Tal pedido foi concedido, já que o jogador apenas perdeu os jogos devido a lesão.

    Seguidamente, naquele mesmo ano, Chiarelli voltou a afirmar: “com base no que vejo, o que ouço, o que leio e o que me dizem, é muito improvável que Marc jogue novamente”. Isso, por fim, só viria a confirmar  de fato o fim da carreira de Savard na NHL.

    Em 1 de julho de 2015, o contrato de Savard com os Bruins foi incluído na trade de Reilly Smith para o Florida Panthers, em troca de Jimmy Hayes, devido a circunstâncias de teto salarial.

    Futuramente, em junho de 2016, o contrato de Savard acabou por ser negociado com o New Jersey Devils. Este foi acompanhado de uma escolha da segunda rodada no NHL Entry Draft de 2018, em troca de Paul Thompson e Graham Black. Por fim, Savard veio a anunciar formalmente sua aposentadoria apenas em 22 de janeiro de 2018. Assim, passando-se sete anos após disputar seu último jogo na NHL.

    Savard disse, anos depois, que seus sintomas eram o bastante para que ele fosse considerado uma pessoa suicida. Em uma entrevista, que cedeu em 2017, ele acaba mostrando claramente a perspectiva de alguém que sofreu com tais sintomas.

    “Eu já tinha experimentado três ou quatro pequenas concussões antes, mas nada como isso. Esse foi o começo de alguns dias realmente sombrios. É uma parte da minha vida que eu realmente não gosto de lembrar com muita frequência (…) Eu tive essas dores de cabeça terríveis, e qualquer barulho alto ou luz forte foi … quero dizer, é quase indescritível.” Afirmou  Savard para o The Players Tribune.

    A consequência na Liga

    No dia 24 de março de 2010, em resposta ao fato de Cooke não ter sido suspenso, a Liga implementou a Regra 48. A nova regra tinha o intuito de proibir golpes na região cerebral, como o que custou o resto da carreira de Savard. Segundo a regra: 

    48.1 – Um hit lateral em um oponente onde a cabeça é o alvo ou o ponto principal do contato não é permitido.

    48.2 Minor Penalty – Não há minor penalty nessa penalidade.

    48.3 Major Penalty – Ao violar essa regra, um major penalty deve ser assegurado.

    48.6 Multas e suspensões – Qualquer jogador que receba 2 game misconducts sob esta regra, tanto jogos regulares da Liga ou dos playoffs, será suspenso automaticamente para o próximo jogo que sua equipe jogar. 

    Ao anunciar a regra, o comissário da NHL, Gary Bettman, afirmou que “a eliminação desses tipos de hits devem reduzir o número de lesões, incluindo concussões, sem necessariamente afetar a fisicalidade do jogo. (…) Fiquei chateado que não havia nenhum tipo de punição para tais hits (nas regras da Liga).”

    O futuro dos hits

    O assunto sobre os hits e checks violentos, bem como os resultados destes nos jogadores, sempre foi algo pertinente. No entanto, muitos dividem reações, tanto positivas quanto negativas, em relação ao tema. Alguns acham que é preciso banir todos os tipos de hits. Todavia, outros apreciadores do esporte acham tal atitude muito radical. 

    Ainda sim, vale ressaltar que, independentemente do lado defendido, a regra contra os hits na cabeça só existe há 10 anos.

    Muitos ainda temem que regras como esta possam vir a minimizar demais, ou mesmo acabar com os “encontrões” em jogo e, desta forma, eliminando uma característica que faz o hockey se destacar dos demais esportes. Ou seja, acredita-se mesmo que isso tudo possa vir a “dar um fim” à modalidade.

    Entretanto, a intenção da Liga não é de acabar com os hits, ou fazer o esporte perder sua essência. O intuito é demonstrar como isso pode ser diminuído ou feito com cautela. Além disso, é importante fazer com que o jogador pense em seus movimentos e nas consequências destes, mesmo que o hockey seja um esporte extremamente rápido.

    Às vezes, encontros pontuais, nos quais os jogadores precisam sair do jogo imediatamente, acabam sendo melhores para tratar do que os hits cotidianos, que por fim podem trazer danos futuros.

    A implementação da regra foi bem aceita pela comunidade do hockey. Um ano após ser incluída ao rulebook, os GMS disseram que ela é um passo positivo no esforço contínuo de limitar as concussões no jogo.

    A história de Savard nos mostrou como um acontecimento trágico deu início a discussão sobre como diminuir as concussões e a relação do ETC com estas. Porém, a exemplo da história de Todd Ewen, e muitos outros que já passaram pela Liga, é fato que nem todos chegam a se recuperar, ou mesmo sobrevivem às consequências das lesões cerebrais sofridas.

    A Encefalopatia Traumática Crônica é uma doença neurodegenerativa que se dá devido a lesões constantes na região cerebral. Assim, muito se especula a relação desta com os hits que os jogadores sofrem no gelo. 

    Mas como todo assunto dentro de um ambiente cercado de tradicionalismo, muitos pontos são feitos. Trata-se de uma discussão que talvez não tenha lado certo ou lado errado. Porém, é necessário a conscientização para que os riscos sejam conhecidos e, desta forma, menos jogadores sofram no futuro. 

    Savard, ao falar sobre a importância de sua situação ter desencadeado mudanças na Liga:

    “Sim, estou feliz pelo sucesso que levei a algumas mudanças positivas em relação à segurança dos jogadores. Esperançosamente, em algum momento, esses hits estarão totalmente fora do hockey. Mas o aspecto mental do que passei após o golpe foi tão brutal quanto o próprio golpe. A angústia de não saber o que seria da minha vida e minha identidade era pior do que todas as terríveis dores de cabeça. A ansiedade esmagadora que experimentei foi pior do que qualquer osso quebrado.“

    Talvez não haja uma solução pontual sem ser polêmica. O hockey é um esporte constituído essencialmente por esse tipo de contato. Isso, de certa forma, é o que dá a cara à modalidade em si.

    Entretanto, da mesma forma que pensar nas discussões geradas por esses hits fosse impossível anos atrás, é provável que mudanças continuem acontecendo e que, aos poucos, existirá um futuro melhor e mais saudável para os jogadores de hockey.

  • Ex-jogador da NHL Dan Carcillo luta por melhor proteção contra concussões, educação para jogadores

    Ex-jogador da NHL Dan Carcillo luta por melhor proteção contra concussões, educação para jogadores

    Texto original disponível em: 
    Dan Carcillo’s NHL career ended after concussions. Now he wants the league to better protect players from the same fate  (21/12/2018) | SB Nation 

    O bicampeão da Stanley Cup chama a atenção da NHL por falhar em proteger seus jogadores e educá-los sobre os riscos de traumatismo craniano.

    Dan Carcillo se aposentou da NHL três anos atrás, aos 30 anos. Durante sua carreira de 9 anos, ele foi um dos “brigões” mais notáveis no hockey. Você o amava quando ele estava vestindo a camisa de seu time e amava odiá-lo quando não vestia. Mas agora o jogador que levou nove suspensões na carreira está tentando fazer um impacto diferente. Ele está divulgando os riscos das concussões e convocando a NHL a fazer mais para proteger e ducar seus jogadores.

    A NHL chegou a um acordo preliminar não-coletivo em novembro em um processo levantado por mais de 100 jogadores aposentados, incluindo Carcillo. O processo acusava a NHL de negligência no tratamento de lesões na cabeça e também alegava que a liga omitiu informação sobre os riscos a longo prazo de traumtismo craniano associado à prática do hockey. O acordo incluiu pagamentos que não poderiam, ao todo, exceder U$18,92 milhões, mas não exigiu que a NHL admitisse responsabilidade por nenhuma acusação dos denunciantes. Carcillo disse que vai optar por se reirar da ação para seguir em sua luta por responsabilização.

    De Brigão a Porta-voz

    A missão de mudar a maneira como o mundo do hockey e o público em geral pensam sobre concussões, traumatismos cranianos, e Encefalopatia Traumática Crônica (ETC) é pessoal para o bicampeão da Stanley Cup.

    Começou em 15 de fevereiro de 2015 quando Steve Montador faleceu aos 35 anos, três anos após ter sido afastado de um carreira de 11 anos na NHL. Montador e Carcillo se tornaram colegas de time em Chicago em 2011 e os dois se aproximaram ao longo de lutas contra o vício. Carcillo reconhece o papel de Montador ajudando a viver uma vida sóbria e o considera seu melhor amigo no hockey. A presença de ETC foi descoberta postumamente em Montador pelo Canadian Sports Concussion Project. Ele foi o quinto ex-jogador da NHL a ser diagnosticado.

    “[Ele é] a razão pela qual eu sou um porta-voz,” disse Carcillo à SB Nation. “O dia em que eu recebi a ligação em 15 de fevereiro, foi um dia antes de um jogo. Meu telefone estava tocando sem parar e meu filho tinha nascido em novembro, então eu estava preocupado que fosse algo relacionado a ele. Quando eu atendi era uma amiga e ela estava chorando histericamente dizendo que Steve tinha nos deixado.”

    Apenas um mês após a morte de Montador, Carcillo jogou o que teria sido sua última partida antes de ser afastado pelo resto da temporada após ser diagnosticado com sintomas de concussão. Em abril de 2015, ele publicou um vídeo emotivo na The Players’ Tribune falando sobre o falecimento de seu amigo.

    “Quando você tem uma concussão, e você passa por isso, é muito sombrio,” Carcillo diz no vídeo. “Eu recentemente tive uma. Eu caí numa calmaria, numa depressão, especialmente depois de Monty falecer.”

    Em setembro de 2015, Carcillo anunciou sua aposentadoria na The Players’ Tribune. Nesse texto, ele anunciou que estava fundando a Chapter 5 Foundation ao lado de sua esposa, Ela, para ajudar na transição de jogadores à vida após o hockey. Sua transparência sobre o assunto chamou a atenção do esporte. Mais de três anos depois, ele segue com a iniciativa.

    2015 NHL Stanley Cup Final - Game Six
    Foto de Bruce Bennett/Getty Images

    Em maio de 2018, Carcillo prometeu seu cérebro ao Carrick Institute, uma instituição que ele afirma ter salvo sua vida duas vezes, para estudo mais aprofundado sobre as consequências de traumatismos cranianos. Um mês depois, a The Players’ Tribune publicou um vídeo em que ele discutia sua crença de que a NHL está falhando para com os jogadores ao não incorporar todas as opção possíveis no tratamento de concussões. Seu médico aontou ao The New York Times em novembro que Carcillo sofreu sete concussões diagnosticadas durante sua carreira. Durante esse tempo, seu feed no Twitter tem se enchido de ativismo por tratamento de concussões e conscientização sobre saúde mental, bem como letras de músicas, sua opinião sobre suspensões, e outras notícias da NHL.

    “O tratamento está disponível e você pode se otimizar,” Carcillo disse quando questionado sobre a mensagem que ele espera transmitir. “Isso pode salvar a sua vida.”

    Responsabilização

    Poucos meses após seu primeiro depoimento publicado na The Players’ Tribune, Carcillo se juntou à lista de jogadores da NHL processando a liga pelas lesões cerebrais sofridas durantes suas carreiras como jogadores e pela falta de avisos quanto ao risco de traumatismo craniano.

    “Eu era responsável pelas minhas ações na liga — se eu me atrasasse ou se não jogasse de acordo com as regras eu era suspenso, multado, e eu aceitava. Eles me responsabilizavam. E agora isso é tudo o que eu estou tentando fazer [com] esses caras, que são responsáveis por mentir para nós.”

    A NHL introduziu um “Protocolo de Avaliação e Controle de Concussão” para os times seguirem antes da temporada 2016-17, mas Carcillo não foi o único que o achou inadequado. Destinado a ajudar os times com educação, teste, identificação, avaliação e controle das concussões, [o protocolo] tem sido avaliado desde sua implementação. Entre as deficiências percebidas no sistema destacam-se o uso de olheiros nas arquibancadas para identificar jogadores demonstrando sinais de traumatismo craniano, o modo como exames para determinar se um jogador está pronto para voltar à ação podem ser manipulados, e a falta de instrução atualizada no que diz respeito aos impactos a longo prazo do traumatismo craniano, incluindo ETC.

    “Eles podiam ter nos mostrado uma apresentação de slides sobre os riscos de levar um soco na cabeça sem luvas se é para os que gostam de brigar,” Carcillo mencionou mesmo as mínimas coisas que ele acredita que a liga poderia ter feito pelos jogadores entrando na liga. “Eles podiam ter mostrado às superestrelas um vídeo do Crosby sofrendo aquelas concussões.

    Pittsburgh Penguins v Buffalo Sabres
    Foto de Kevin Hoffman/Getty Images

    Outra questão que frustra Carcillo quanto ao tratamento da NHL para com jogadores vítimas de concussões – e uma que foi levantada durante o processo – é a forma perigosa como medicamentos são prescritos aos jogadores pelos médicos. Jeffrey Kutcher, um neuropsicoólogo que já tratou jogadores da NHL com problemas relacionados às concussões e prestou consultoria à NHLPA, afirmou que ele já viu casos em que antidepressivos foram receitados a jogadores da NHL; amantadina, uma droga que Kutcher diz ser normalmente administrada a pacientes em condições como de esclerose múltipla ou Parkinson; e em casos mais raros opióides para tratar sintomas de concussões.

    “Uma vez que você vai por esse caminho,” Carcillo disse, “é realmente repugnante, você sabe, a maneira como eles tratam seres humanos, a maneira como tratam crianças.”

    Durante seu tempo como comissário da NHL, Gary Bettman tem se recusado a admitir qualquer ligação potecial entre hockey e o efeito a longo prazo de lesões na cabeça que o jogo pode causar, incluindo ETC. Enquanto isso, diversos grupos de pesquisa — incluindo a Universidade de Boston, o Instituto de Pesquisa de Lesão Cerebral, e o Instituto Nacional de Saúde — têm conduzido estudos que mostram a conexão entre esportes de contato e ETC. A Universidade de Boston e o Instituto de Pesquisa de Lesão Cerebral, entre outros, têm trabalhado com o hockey especificamente, o que inclui a examinação de cérebros de ex-jogadores falecidos da NHL.

    Ainda em abril deste ano, Bettman disse durante uma entrevista de rádio que cientistas “não têm evidência suficiente para chegar a nenhuma conclusão” de que hockey e ETC estejam relacionados. Bettman respondia a uma questão sobre a pesquisa sendo conduzida na Universidade de Boston pela neuropatologista Dra. Ann McKee. Ela respondeu seu comentário, destacando que ele citava uma conversa de 2012 quando a amostragem do estudo era baixa. 

    “No entando, é uma afirmação equívoca do Sr. Bettman de que nós não chegamos a nenhuma conclusão,” ela disse, via TSN. “A evidência claramente sustenta que ETC está associado com a prática do hockey no gelo. Desde o encontro com o Sr. Bettman em 2012, a equipe de pesquisa da VA-BU-CLF [Veterans Affairs-Boston University-Concussion Legacy Foundation] identificou ETC em mais jogadores de hockey, incluindo quatro jogadores amadores, dos quais nem todos haviam tido uma exposição significativa à brigas. Isso fornece evidência de que a exposição regular à impactos na cabeça de jogadores de hockey pode ser associada com ETC.”

    Para Carcillo, não pode haver mudança significativa até que a conexão entre o hockey e ETC seja reconhecida pela liga e que os riscos a longo prazo de lesão cerebral sejam explicados a seus jogadores.

    A Associação Americana de Neurocirurgiões define uma lesão intracraniana como um “golpe ou abalo na cabeça ou uma lesão incisiva na cabeça que perturba o funcionamento normal do cérebro. O traumatismo cranioencefálico (TCE) pode resultar de uma batida repentina e violentana cabeça, ou de um objeto que adentra o crânio e o tecido cerebral.”

    Carcillo olha para o hockey e vê riscos por toda parte no gelo.

    “Isso é uma tacada no rosto, uma torção do tronco encefálico, um disco no rosto, seu dente é nocauteado, um golpe forte no corpo, um check inocente que não é tranco muito forte,” ele disse.

    As frustrações de Carcillo se originam no fato de que todos esses riscos não são divulgados para os jogadores.

    “Tudo isso que eu aprendi deveria ter sido dito a mim,,” Carcillo continua. “Nunca foi, e é aí que meu problema começa. Você está colocando a vida das pessoas em risco.”

    Mudando a Cultura

    Carcillo se acanha ao compartilhar a história a seguir, mas também fica irritado. Como jogador, ele sabia como manipular o teste ImPACT – a avaliação do funcionameno cerebral utilizada para determinar quando um jogador podia voltar ao gelo após sofrer uma concussão. De acordo com Carcillo, o segredo era ir mal no teste durante o training camp que seria usado como base de comparação durante a temporada.

    “O sintoma número um de uma concussão é se sentir confuso ou devagar,” ele disse. “Então o que você faz? Você já viu o teste, você o viu todos os anos. Você sabe que vai estar um pouco fora de si ou devagar, então você bomba no começo do ano de propósito de modo que você consiga passar se tiver alguma lesão. Dessa forma, você consegue voltar mais cedo.

    Seja motivado por um caráter de jogar apesar de tudo ou por medo de perder o emprego enquanto está fora do gelo, tentar voltar cedo demais ou sub-relatar seus sintomas de concussão é prejudicial ao futuro dos jogadores. A opinião de Carcillo é de que os médicos das equipes não são confiáveis para fazer dos interesses dos jogadores uma prioridade quando o assunto é prazo de recuperação.

    “Essa narrativa é tão velha e cansativa,” Carcillo disse. “Contando às crianças e as convencendo de se colocarem em risco — promovendo violência e golpes e brigas, e queestá tudo bem em jogar com dor. Para mim, sim, jogar com dor, sacrificar seu corpo como um atleta faz parte, mas não deveria ser divulgado como tal.”

    Jogadores da NHL têm sido retratados e promovidos como guerreiros por jogarem mesmo machucados. Patrice Bergeron foi exaltado após ter jogado com um ombro deslocado, cartilagem rompida e uma costela quebrada que perfurou seu pulmão durante a Final da Stanley Cup de 2013. Joe Thornton, segundo seu técnico, foi corajoso por jogar com o LCM e o LCA rompidos durante os playoffs de 2017.

    Na opinião de Carcillo, que passou por cinco times durante sua carreira, a visão ultrapassada de que se deveria jogar apesar das lesão física também faz com que falar sobre saúde mental seja um tabu nos vestiráios.  

    “[A palavra] ‘concussão’ nunca foi usada, nem mesmo pelos médicos, ele afirma. “Saúde mental nunca é discutida,” Carcillo disse.

    Carcillo passou a se sentir desconfortável sendo aberto sobre questões de saúde mental durante sua carreira depois de conversar com um especialista em saúde mental providenciado pelos Blackhawks. Ele diz depois ter descoberto “pelas más línguas” que a diretoria foi informada da conversa. Carcillo não especificou quais informações podem ter sido compartilhadas, mas deu sua opinião sobre o impacto de uma dinâmica como esta.

    “Esse é o estigma por trás da saúde mental,” ele disse. “Quando você sai em busca de ajuda — principalmente em um trabaho em que você precisa ser visto como mentalmente forte, um guerreiro mental, um assassino mental — você tem ansiedade ou depressão, e Deus o livre você conta para alguém, e aí eles quebram sua confiança assim. Isso abre um mau precedente para outra pessoa se abrir depois. Quando na realidade, abrir-se e tirar aquilo do peito te deixa mais focado individualmente para fazer o seu trabalho no gelo — então isso na verdade te faz um atleta melhor, então os caras não precisavam ter medo disso.”

    Enquanto jogadores incorporam a mentalidade de guerreiro da NHL, Carcillo vê a liderança da NHL como o grupo que pode catalizar uma mudança significativa.

    “Você precisa entender quem está dirigindo a NHL. Precisa dar uma olhada em Colin Campbell, Gary Bettman, Bill Daly, and os caras na [Associação de Jogadores],” Carcillo disse. “Tudo isso é velha guarda, clube dos veteranos, uma mentalidade ultrapassada de que ‘se você não é forte, você é um você-sabe-o-quê’ e esse ‘oh meu Deus, você está machucado então nós podemos jogar machucados’ e ‘você é um guerreiro agora, obrigado por colocar seu cérebro e corpo em risco pelo bem do time.’ F***-se isso.”

    No mesmo dia do anúncio do acordo da NHL com os ex-jogadores, Bettman foi introduzido ao Hall da Fama como um builder.

    “E mais uma trama para tirar o seu pensamento do que está realmente acontecendo,” Carcillo disse sobre a introdução de Bettman ao HHOF, “e o que está realmente acontecendo é que a NHL está colocando seres humanos em uma posição muito, muito ruim por não tratar traumatismos cranianos.”

    Enquanto a NHL ainda não aceitou que existe uma ligação entre hockey e os impactos a longo prazo de traumatismos cranianos, para jogadores como Carcillo e Montador, os efeitos são muito claros para se deixar passsar. Esta falta de aceitação, junta à crença de Carcillo de que a NHL não tem feito o suficiente para educar e assistir seus jogadores sobre lesões na cabeça, levou a consequências que ele acredita que devem pesar na consciência da NHL. “É simples. Se você olha para o passado, pode ver que eles mataram pessoas.”

    A NHL não respondeu ao pedido da SB Nation por comentários.