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  • Kyle Beach e a negligência da NHL

    Kyle Beach e a negligência da NHL

    Alerta: Este texto contém conteúdo sensível sobre abuso sexual. O NHeLas considera parte da sua responsabilidade jornalística trazer para nossos leitores, em português, o relato de Kyle Beach e o escândalo de abuso sexual envolvendo o Chicago Blackhawks.

    Na última quarta-feira (27), o atleta sobrevivente do escândalo de abuso sexual no Chicago Blackhawks em 2010, até então identificado como John Doe no processo contra seu ex-time, revelou sua identidade. Kyle Beach teve no programa da TSN (Canadá), SportsCentre, espaço para falar sobre o caso publicamente pela primeira vez em onze anos.

    Em maio deste ano, o jogador entrou com um processo contra o Blackhawks alegando que ele e mais um ex-membro do elenco do vencedor da Stanley Cup de 2010 haviam sido abusados sexualmente por Brad Aldrich, então técnico de vídeo da equipe.  

    O ato contra Beach teria acontecido em San Jose, quando a equipe de Chicago viajou diretamente para a cidade após a vitória no segundo round sobre o Vancouver Canucks. O time teve quatro dias de folga antes do início da série seguinte.

    Segundo as conclusões da investigação, o jogador denunciou as ações de Aldrich para Paul Vincent, na época skills coach, pouco antes do início da Final da Conferência Oeste. Vincent levou o caso para o Presidente do time John McDonough, o GM Stan Bowman, o Vice-Presidente de Operções Al MacIsaac e o técnico de habilidades mentais James Gary. Vincent declarou publicamente em reportagens da TSN desde a abertura do processo que alertou os líderes do time na época que eles deveriam preencher uma denúncia junto à polícia de Chicago. A sugestão, no entanto, foi fortemente refutada. 

    Um segundo processo contra os Blackhawks, este por John Doe 2, acusa a organização de ter dado boas referências de Aldrich a futuros empregadores após sua demissão. Dentre essas organizações, uma equipe de ensino médio contratou Aldrich para trabalhar na equipe técnica. Em 2014, Aldrich cumpriu 9 meses de prisão por ter cometido crimes sexuais contra estudantes entre 16 e 18 anos. John Doe 2 estava entre suas vítimas. Hoje, ele está listado como um criminoso sexual registrado no estado de Michigan.

    A entrevista completa de Kyle Beach para a TSN pode ser lida em inglês. Alguns trechos e falas do jogador estarão presentes neste texto.

    Posicionamento oficial da NHL

    Após as atualizações sobre o caso, Gary Bettman, comissário da NHL, publicou uma declaração nas redes sociais da Liga. É a primeira vez que Bettman fala publicamente sobre o caso e, ainda assim, apenas endossou a decisão do Florida Panthers em desligar Joel Quenneville, técnico dos Blackhawks em 2010, após ficar claro seu envolvimento no caso.

    A tradução:

    “A National Hockey League concorda com a decisão desta noite por Joel Quenneville para renunciar às suas funções como treinador principal do Florida Panthers. Em seu antigo papel como treinador principal do Chicago Blackhawks, o Sr. Quenneville estava entre vários ex-membros da liderança sênior do grupo que lidou mal com a denúncia de assédio sexual em 2010 do ex-jogador Kyle Beach contra o então técnico de vídeo do clube, Brad Aldrich. E, após uma reunião com o Sr. Quenneville, que ocorreu nesta tarde em meu escritório, todas as partes concordaram que não era mais apropriado que ele continuasse a servir como treinador principal de Florida.

    “Eu admiro Kyle Beach por sua coragem em se apresentar, estou chocado que ele foi tão mal apoiado ao fazer sua afirmação inicial e então os 11 anos que se seguiram, e sinto muito por tudo o que ele suportou.

    “Agradecemos à organização dos Panthers por trabalhar conosco para garantir que um processo minucioso fosse seguido. Dado o resultado, não há necessidade de qualquer ação adicional por parte da NHL em relação ao Sr. Quenneville desta vez. No entanto, se ele desejar entrar novamente na Liga em alguma capacidade no futuro, exigirei uma reunião com ele com antecedência a fim de determinar as condições apropriadas sob as quais tais novos empregos possam ocorrer.”

    O trecho que mais chama atenção é o final. Apesar da declaração afirmar que os Panthers tomaram a decisão correta, no final Bettman deixa claro que a Liga não fechou as portas para Quenneville. Mais uma vez, levanta-se o questionamento de quem a NHL de fato quer proteger: seus jogadores, especialmente os mais jovens, ou nomes antigos que continuam, repetidamente, se envolvendo em polêmicas na Liga. 

    Mas esta não foi a única declaração publicada pela NHL. Outro nome envolvido no processo foi o de Kevin Cheveldayoff. Na época, o atual GM dos Jets era GM Assistente de Chicago e, apesar de ter estado presente na reunião sobre o caso de Beach em maio de 2010, a Liga entendeu que não era responsabilidade dele decidir qual seria a forma correta de lidar com a denúncia. 

    Assim, a NHL soltou na última sexta-feira (30) uma nota sobre Cheveldayoff, decidindo que, após as investigações, e uma conversa com Gary Bettman, o comissário entendeu que ele não fazia parte dos líderes e não cabia a ele a decisão.

    Abaixo, um trecho traduzido da nota oficial da NHL sobre Kevin Cheveldayoff.

    “Como está no relatório da Jenner & Block, a análise subsequente da Liga esta semana e a entrevista de hoje com Cheveldayoff deixam claro a participação de Cheveldayoff em 23 de maio de 2010, a reunião envolvendo líderes seniores da equipe de administração dos Blackhawks foi extremamente limitada em escopo e conteúdo. Na verdade, durante a investigação, a maioria dos participantes da reunião de 23 de maio não se lembrava inicialmente de que Cheveldayoff estava mesmo presente.

    “Como GM Assistente na época, Cheveldayoff, que se reportava diretamente a Stan Bowman, era o oficial do Clube com a classificação mais baixa na sala, e sua posição não incluía responsabilidades de supervisão sobre a equipe técnica do clube. Ele foi um dos últimos a ser incluído na reunião; ele descobriu sobre o  assunto pela primeira vez na presença de seu chefe (o então GM Stan Bowman), o chefe de seu chefe (então CEO John McDonough) e o treinador principal (Joel  Quenneville); quem era o superior direto de Brad Aldrich; ele tinha familiaridade limitada com o pessoal envolvido; e ele era essencialmente um observador do discussão de possíveis próximos passos, cuja discussão, aparentemente, terminou com Cheveldayoff acreditando que o assunto seria investigado.”

    Frente aos novos relatórios da Jenner & Block, contratada do próprio Chicago Blackhawks para conduzir uma investigação independente, também nesta semana, Stan Bowman renunciou à posição de GM em Chicago. Bowman declarou que sua decisão veio após entender que ele não deveria ser uma distração para o time. Em uma declaração publicada pelos Hawks, Bowman tira de si mesmo a responsabilidade por não ter dado a devida atenção para a denúncia, como podemos ler no trecho traduzido abaixo.

    “Onze anos atrás, quando atuava em meu primeiro ano como gerente geral, fui alertado sobre um possível comportamento inadequado de um treinador de vídeo que envolvia um jogador. Comuniquei prontamente o assunto ao então presidente e CEO, que se comprometeu a cuidar do assunto. Fiquei sabendo este ano que o comportamento impróprio envolvia uma grave denúncia de agressão sexual. Eu confiei na orientação de meu superior para que ele tomasse as medidas adequadas. Olhando para trás, agora sabendo que ele não lidou com o assunto prontamente, lamento presumir que ele o faria.”

    Na última quinta-feira (28), Rocky Wirtz, dono do Chicago Blackhawks, enviou uma carta ao Hockey Hall of Fame solicitando que o nome de Brad Aldrich fosse removido da Stanley Cup. No documento, Wirtz deixa implícito que a organização sabia das denúncias e que elas foram o motivo do desligamento do técnico ainda em 2010. Entretanto, Wirtz também assume a responsabilidade do clube não ter agido de forma correta na época.

    Por fim, a declaração oficial do Chicago Blackhawks em seu perfil no Twitter publicada na quarta-feira (27) se desculpa com Kyle Beach por não ter buscado as ações necessárias frente à denúncia, e anuncia que o clube está promovendo mudanças na organização, incluindo uma nova equipe frente executiva e de liderança.

    “Em primeiro lugar, gostaríamos de reconhecer e elogiar a coragem de Kyle Beach em se apresentar. Como uma organização, o Chicago Blackhawks reitera nossas mais profundas desculpas a ele pelo que ele passou e pela falha da organização em responder prontamente quando ele bravamente trouxe este assunto à luz em 2010. Era indesculpável para os então executivos da Organização Blackhawks para atrasar a tomada de medidas em relação à má conduta sexual relatada.

    “Nenhum jogo de playoff ou campeonato é mais importante do que proteger nossos jogadores e pessoal de comportamento predatório. Os Blackhawks implementaram inúmeras mudanças e melhorias dentro da organização, incluindo a contratação de uma nova equipe de liderança que está comprometida em vencer campeonatos ao mesmo tempo em que segue os mais altos padrões éticos, profissionais e atléticos.”

    Um apelo à NHL

    Na entrevista da última semana, Kyle Beach, que hoje joga na Alemanha, revelou-se John Doe do caso e concedeu declarações importantes e comoventes. Ele apelou mais uma vez para que a NHL não deixasse os responsáveis impunes. Ele também alertou da importância de denunciar casos de abusos sexuais e citou outros casos no esporte como o da equipe de ginástica dos EUA

    “É um grande passo para mim. No meu processo de recuperação, processar o que aconteceu e verdadeiramente lidar com os problemas que tenho em consequência disso. Por mim, eu queria seguir em frente e colocar meu nome, para ser sincero, já está exposto, os detalhes foram bem precisos no relatório e foi tudo descoberto, mas mais que isso, eu sou um sobrevivente e sei que não estou sozinho, e sei que não sou o único homem ou mulher e enterrei isso por onze anos e me destruiu de dentro para fora. E eu quero que todo mundo saiba que no mundo dos esportes e no mundo, você não está sozinho. Se isso aconteceu com você, você deve falar sobre. Porque tem um sistema de apoio. Como Sheldon Kennedy, US Gymnastics, USA Soccer. Tem um sistema de apoio e pessoas que estão com você e eu espero que todo esse processo possa fazer uma mudança sistemática para ter certeza que isso não aconteça de novo. Porque não me afetou apenas como um jovem adulto mas também afetou [outros atletas e] crianças porque não foi lidado da maneira correta.”

    Após deixar a NHL em 2010 sem que os Hawks divulgassem o motivo da sua saída, em julho de 2012, Brad Aldrich se candidatou para uma posição na Miami University, em Ohio. Quando perguntado do porque ter deixado a NHL, o técnico apenas disse que se sentia esgotado com o ritmo de trabalho da Liga. 

    Assim, Aldrich também deixou repentinamente sua posição na Miami University, em Ohio, em 2012, apenas quatro meses depois de ter entrado no programa. A universidade está investigando a passagem do técnico pela equipe. 

    Posteriormente, Brad Aldrich entrou para a equipe técnica de uma escola de ensino médio em Houghton, Michigan. Um indivíduo, identificado como John Doe 2 no segundo processo contra os Blackhawks, alegou que Aldrich teria abusado sexualmente dele em março de 2013, quando tinha apenas 16 anos. Em dezembro de 2013, na sua segunda passagem como voluntário pela equipe, Aldrich enfim se declarou culpado das acusações de conduta sexual criminosa com um adolescente. 

    Perguntado sobre o que diria para o garoto, Kyle Beach se emocionou. E no que talvez tenha sido um dos momentos mais difíceis da entrevista, Beach pediu desculpas por não ter feito mais na época e deixou o convite para caso ele queira entrar em contato. 

    “Eu sinto muito. Lamento não ter feito mais, quando podia, para garantir que não acontecesse com ele. Para protegê-lo. Mas também queria agradecer a ele. Porque quando eu decidi, depois que um colega de equipe me perguntou sobre isso quando eu estava jogando no exterior, eu decidi pesquisar o nome de Brad Aldrich no Google e foi quando descobri sobre o indivíduo de Michigan, o time de Michigan. E por causa do que aconteceu com ele, isso me deu o poder e o senso de urgência para agir, para garantir que isso não acontecesse com mais ninguém. Então, sinto muito e obrigado. E espero que em algum momento no futuro, se ele estiver aberto a isso, eu adoraria conhecê-lo. Porque, infelizmente, compartilhamos algo em comum – [que] fará parte de nós pelo resto de nossas vidas.”

    É inclusiva para quem?

    Kyle também fez um apelo à NHL que foi impossível não lembrar do projeto de inclusão hockey is for everyone. Beach deixou claro em suas palavras a quem a Liga está de fato incluindo ao ignorar denúncias e protegendo nomes, quando empregos de grande patente continuam sendo designados às mesmas pessoas. 

    “A NHL é inclusiva, a NHL inclui todos e eles me decepcionaram e decepcionaram outros também. Mas eles continuaram tentando proteger o nome em cima da saúde e bem-estar das pessoas que colocam suas vidas todos os dias para fazer da NHL o que ela é. Eu espero que Garry Bettman leve isso à sério e ele faça as diligências, que converse não apenas com eles mas com Stan Bowman, John McDonough e todo mundo que tenha informações antes dele tomar sua decisão. Porque eu já me decepcionei, não iriam investigar por mim, então porque fariam agora?”

    Segundo diversos relatos, após os boatos se espalharem no vestiário em 2010, piadas de cunho homofóbico foram conferidas aos jogadores vítimas de Aldrich. Onze anos se passaram desde que o fato aconteceu, mas a cultura do esporte ainda resiste nos acordos de cavalheiros. Em obter resultados dos jogos apesar da saúde de seus atletas. As discussões acerca de saúde mental, inclusão, homofobia e racismo ainda estão presentes na Liga, mas talvez, seja hora dos times repensarem essas ações e da NHL começar, de fato, a punir aqueles envolvidos em episódios de assédio, preconceito etc.

    Entretanto, como pudemos ver das declarações sobre o caso da Liga e dos times em que membros envolvidos do caso de Kyle Beach ainda trabalham, o resultado no gelo segue sendo mais importante do que os atletas sobre ele.  Apesar do processo estar em andamento desde maio, apenas agora, em outubro, que os envolvidos foram afastados de seus cargos. Foi preciso uma investigação externa para que levassem as acusações a sério, revelando serem muito mais graves do que o escritório dos Hawks imaginava em 2010. 

    E, obviamente, fica a pergunta que vai assombrar a comunidade do hockey por alguns anos: Se as medidas corretas tivessem sido tomadas na época, teriam havido menos vítimas? 

    A cultura tóxica do esporte

    Não é a primeira vez que relatamos casos de abuso de poder de técnicos na NHL. Em novembro de 2019, acompanhamos as denúncias de injúria racial de Akim Aliu contra Bill Peters que levou a relato de abusos físicos do técnico a outros jogadores. Além dele, Mike Babcock foi demitido do Toronto Maple Leafs e em seguida, denúncias de abusos psicológicos contra Mitch Marner em temporadas anteriores vieram à tona. 

    É sabido que comportamentos de abusos de poder são frequentes no mundo do hockey. E, com receio de prejudicar suas carreiras, jogadores se calam. O tempo passa, técnicos seguem impunes, mudam para outros empregos e seguem tendo o mesmo comportamento. 

    O caso de Kyle Beach se torna ainda mais grave pela natureza do abuso. E, principalmente, porque ele não se calou. Ele buscou ajuda e foi ignorado por aqueles que ele foi ensinado a confiar. Pior do que isso, a equipe de líderes do Chicago Blackhawks falhou com vários outros garotos que conviveram com Aldrich. 

    Assim, o caso afeta não apenas um jogador, mas também jovens e adolescentes que posteriormente sofreram as consequências de Aldrich não ter recebido a punição necessária. Pelo contrário, em nome da vitória a qualquer custo, o técnico de vídeo seguiu com sua carreira e afetou a vida de ainda mais jovens. 

    Há um ditado que diz “antes tarde do que nunca”. Mas, neste caso, o “tarde” carrega um preço muito alto, com inumeráveis consequências que poderiam ter sido evitadas caso uma só pessoa tivesse feito a escolha certa. 

     .          .          .

    Escute o apelo de Kyle Beach de que a vítima não está sozinha. Caso você ou alguém que você conheça tenha passado por uma situação de abuso sexual, denuncie. Aqui estão alguns números e contatos para informar e auxiliar sobreviventes. 

    • A Fundação ABRINQ tem um canal disque denúncia com informações do procedimento correto para fazer a denúncia e quais números se deve ligar. 
    • A Página oficial do Mee Too Brasil, que trouxe para o país o movimento que começou no exterior para incentivar mulheres a denunciar abusos sexuais em ambientes de trabalho. 
    • A Unicef tem um aplicativo do Projeto Proteja Brasil, que facilita a busca por informações. 

    Disque 100. Denuncie. 

    Foto: Reprodução/cnn.com

  • Como Não Ser Um Babaca 101: um manual prático

    Como Não Ser Um Babaca 101: um manual prático

    Há duas semanas, o mundo do hockey foi surpreendido mais uma vez (será que, a esse ponto, deveríamos nos surpreender?) com um chat privado entre jogadores vazado na internet. Brendan Leipsic, até então jogador do Washington Capitals, seu irmão e outros amigos – também jogadores ou ex-jogadores de ligas menores – acharam normal depreciar mulheres, incluindo esposas e namoradas de colegas de times.

    Além das mulheres, Leipsic e companhia também ofenderam colegas de times e até jogadores de outras franquias em suas conversas. Quando descoberto, Leipsic precisou fazer uma nota de desculpas. Mas sejamos sinceras, aquela nota não foi ele quem escreveu e com certeza ele não está arrependido.

    A pior parte é ver gente “passando pano” dizendo que ele teve sua “privacidade invadida”. Oi? E as fotos que eles compartilharam nas conversas? 

    Bem, se você é desse tipo de pessoa que acha que ele está certo, talvez seja interessante ler um pouco deste Manual. 

    Meu privilégio, minhas regras

    Esse caso, que não é o primeiro e certamente não será o último, leva-nos a tentar entender como funciona a mente desses jogadores.

    Imagina só como é ser um homem branco, de origem privilegiada e jogar um esporte elitizado? Provavelmente significa sim que eu poderia falar abertamente das minhas conquistas amorosas como objetos. Ou melhor, sexuais, porque ninguém ali falou de relacionamento sério. 

    “Ora, se desde a infância fui colocado em um pedestal porque era modestamente melhor do que as outras crianças em um jogo no gelo, isso significa que eu realmente tenho o direito de me safar das tentativas de pessoas invejosas que gostariam de me ver falhar!” Afinal, fazer parte do 1% de um esporte competitivo é uma coisa a ser celebrada. “Todos os homens gostariam de estar no meu lugar e todas as mulheres me desejam.” Engraçado que esse tipo de pensamento sempre vem de homem, não é?

    Falar de assuntos alheios ao coronavírus enquanto estamos no meio de uma pandemia sem precedentes parece tolice. Mas a ausência de esportes para nos distrair fez com que uma conversa entre amigos tomasse proporções gigantescas.

    Se você vem de uma cidade pequena ou tem familiares que moram em uma, sabe como funcionam as coisas. Todo mundo conhece todo mundo. Alguns moradores têm um status diferenciado, seja pelo cargo que ocupam ou pelo dinheiro que têm em suas contas bancárias.

    A comunidade do hockey é como uma cidade pequena. Ou você já jogou com fulano, ou conhece quem já tenha jogado com ele. Não existe isso de não se conhecer, mesmo que não seja amigo íntimo, dificilmente as coisas passam despercebidas. 

    No caso de Leipsic, contudo, a situação é ainda mais grave. Veja bem, Winnipeg tem pouco mais de 750 mil habitantes e é uma das maiores cidades do Canadá. Contudo, ao mesmo tempo muitas coisas funcionam como uma cidade pequena.

    Quando rapazes conhecidos por muita gente mostram sua pior faceta, há de se esperar uma resposta da sociedade em que vivem. Afinal, muita gente estudou com eles ou conhece seus pais ou até mesmo jogou hockey na infância com um deles.

    O que nos leva a pensar: quando foi que alguém virou para esses meninos e falou que por serem minimamente competentes em um esporte, eles teriam o direito de menosprezar outros seres humanos? Será que eles estavam falando coisas assim de mim só porque eu emprestei um lápis para um deles na aula de Química no primeiro ano do colegial?

    Atletas de alto rendimento são tratados de forma diferente do que eu e você. Especialmente se eles são homens e mais ainda se são brancos. Isso acontece não só no Brasil, como no Canadá e eu desconfio que até em Papua Nova Guiné. (Ou talvez não por lá, confesso que não me dei ao trabalho de confirmar essa afirmação.)

    Mas será que ser acima da média em um mero jogo faz com que alguém seja automaticamente melhor do que uma pessoa que não tem inclinações esportivas? Ora, se eu sou boa em xadrez (meramente uma hipótese, já que nunca joguei xadrez na vida) eu sou uma nerd, mas se Fulano é bom em futebol ele merece ter o mundo aos seus pés? 

    Módulo 1: Como não ser um babaca 101

    Já que o programa de formação destes jovens jogadores de hockey não trouxe o módulo Como Não Ser Um Babaca 101, eu quero ensinar um pouco para vocês hoje. Esse é um curso essencial na formação de todo jovem enquanto transita para a vida adulta.

    Aliás, esta parece ser uma carência de currículo comum a outros lugares, já que alguns dos escândalos envolvendo atletas do esporte (e não estou falando só do hockey, mas de muitos outros também) são particularmente tenebrosos.

    Longe de mim generalizar todo jogador de hockey como um babaca, pelo contrário, acho que eles são, em sua grande maioria, caras bem legais que têm penteados duvidosos e sorrisos banguelas. Entretanto sei reconhecer que o esporte tende a ser um ambiente hostil não só para mulheres, assim como para pessoas LGBT e demais minorias. 

    Afinal, você torcedora que se identifica como mulher, quantas vezes não foi questionada se gostava de determinada equipe apenas por causa da aparência de seus jogadores? Diferenças de gênero por acaso fazem com que uma pessoa entenda melhor o que é Corsi?

    Eu, particularmente, acho muito engraçado como a minha feminilidade me impede de saber como funcionam as penalidades da NHL, assim como saber quem foi a escolha do terceiro round que o Atlanta Thrashers fez em seu último draft (foi Julian Melchiori, caso você não saiba). Como Não Ser Um Babaca 101 me parece ser uma necessidade na grade curricular não apenas dos atletas, mas também de muitos de seus torcedores. 

    O resumo da ópera é: ser bom em uma coisa não te dá um passe livre para ser um babaca.

    Muito menos para falar coisas absurdas de pessoas inocentes que estão apenas vivendo suas vidas e sendo felizes. Misoginia não é engraçado, racismo não é engraçado, xenofobia não é engraçado, homofobia não é engraçado. E ser um babaca também não.

    Para concluir nosso módulo introdutório de Como Não Ser um Babaca 101, eu decidi trazer algumas sugestões para jovens atletas que estão sem o que fazer na quarentena, já que não têm filho para trocar as fraldas ou ajudar com o dever de casa, a fim de evitar que eles percam tempo falando absurdos em grupos de conversas. Vejamos:

    1. Ler um livro que não envolva hockey, esporte, autoajuda ou que tenha figuras (caso você viva em uma caverna e não saiba o que são livros, estamos abertas a indicar boas leituras);
    2. Treinar coreografias do Tik Tok (além de ser uma atividade física divertida, vai te fazer usar a criatividade para algo melhor do que ofensas gratuitas);
    3. Aprender a tocar violão e fazer uma live só com o repertório do Nickelback (acho que essa só funciona para canadenses – ou para o vestiário do Carolina Hurricanes);
    4. Tricotar botinhas no formato de patins para seus pets; (ou, se não tem um pet, arrume um. Vai ser uma boa companhia e você vai aprender como é cuidar de alguma coisa que pode te ensinar o que é amizade de verdade);
    5. Escreva um livro (tenho certeza que você tem mais para contar do que com quem você dormiu no verão de 2011);
    6. Literalmente qualquer coisa que não envolva comentários asquerosos e preconceituosos.

    Se mesmo com tantas opções de coisas para fazer o jovem atleta ainda decidir ser um babaca, ele merece sim sofrer as consequências por isso. Como a pessoa adulta que é. Afinal, jogar hockey em alto nível pode ser a realização de um sonho de criança, mas o mundo em que vivemos é o mundo dos adultos.

    Lembrem-se sempre: não é legal ser babaca, então não seja um. Eu juro que é bem fácil, é só você tentar, ou melhor, não ser.