Categoria: Crônica

  • Da procrastinação ao hockey olímpico

    Da procrastinação ao hockey olímpico

    Era uma manhã de sábado em pleno fevereiro e eu estava entediada em casa, provavelmente procrastinando ao invés de fazer algum trabalho de Direito do Trabalho II ou Processo Civil IV. O ano era 2014 e as Olimpíadas de Inverno de Sochi estavam a pleno vapor, mas confesso que na época eu não estava ligando muito para isso. Minha principal preocupação naquele momento era se a universidade francesa para a qual eu havia me candidatado aceitaria me receber para um intercâmbio ou não (spoiler: ela me aceitou e eu me mudei para Paris em setembro daquele mesmo ano). 

    Foi assim que meu irmão, que não fazia ideia da ansiedade que dominava meus pensamentos, me chamou para assistir uma partida de esporte na televisão do quarto dele.  “É hockey no gelo”, ele me disse, “não faço a menor ideia de quem são esses caras, mas se é Estados Unidos contra Rússia, então deve ser divertido”. Quando eu me sentei na frente da TV eu não fazia ideia que estaria vendo possivelmente a última aparição olímpica de grandes nomes daquele esporte (obrigada, Bettman e COVID-19) e nem que aquele momento teria um impacto tão grande na minha vida.

    A partida já estava no segundo período, e o gol solitário no placar era de Pavel Datsyuk.  Entre comentários sobre os sobrenomes complicados e a falta de dentes em certos jogadores, todos feitos pelo meu irmão (n/a: Alexander Ovechkin viria a se tornar o jogador favorito dele, que torce para o Washington Capitals), eu fiquei em transe devido à rapidez do jogo e a fluidez com a qual os jogadores deslizavam pelo gelo da Arena Bolshoi. 

    Embora eu tenha crescido assistindo The Mighty Ducks e me lembre muito bem da febre dos Super Patos, o esporte nunca havia inspirado muitas emoções em mim. Naquela manhã, quando eu vi a seleção americana empatar e virar a partida, assim como a Rússia forçar o shootout, isso mudou. Phil Kessel fez a jogada que levou ao gol de empate marcado por Cam Fowler, e eu mal sabia que o Kessel mais velho ainda me traria muitas alegrias enquanto torcedora. 

    Joe Pavelski virou para os americanos, com uma assistência de Patrick Kane, enquanto Datsyuk igualou o placar com seu segundo gol. Depois de um gol anulado pela arbitragem de vídeo, em razão do gol ter sido tirado do lugar, a partida foi para a prorrogação. Como grandes entusiastas de esportes e prorrogações com gol de ouro, eu e meu irmão assistimos àquele overtime com apreensão e um friozinho na barriga. 

    Entretanto, ninguém conseguiu marcar e a equipe foi para o que a narração descreveu como shootout, ou seja, algo semelhante a uma cobrança de pênaltis. Intrigadíssima pelo fato de um mesmo cobrador poder ter várias tentativas, eu assisti a uma performance de gala de TJ Oshie, um então jovem atacante do St. Louis Blues. Os americanos saíram vitoriosos no confronto e se catapultaram para a primeira posição de seu grupo.

    A partir daquele momento eu fiquei completamente obcecada pelo esporte e acompanhei todas as partidas, televisionadas no Brasil ou não. Um momento particularmente memorável foi a gambiarra que eu organizei com meu notebook velho apoiado em um banquinho de madeira, o cabo HDMI e a televisão do meu irmão para conseguir assistir à semifinal entre Canadá e Estados Unidos. Eu provavelmente deveria estar estudando ou fazendo algum trabalho chato sobre Controle de Constitucionalidade? Acredito que sim, mas no final tudo deu certo mesmo assim. 

    Naquele ano também assisti à final feminina com muita empolgação, pois se tratava de uma reedição da rivalidade histórica entre Estados Unidos e Canadá. Com uma atuação de gala de Marie Philip Poulin, eu fiquei extremamente feliz quando as canadenses venceram a partida. Afinal, é sempre mais divertido quando os Estados Unidos perdem. 

    Com o fim da competição eu passei a pesquisar mais sobre o esporte e busquei formas de assistir a NHL. A primeira partida que vi ao vivo foi a da Stadium Series de 2014, do Pittsburgh Penguins contra o Chicago Blackhawks no Soldier Field. Depois de alguns jogos de Sochi, a familiaridade com alguns dos nomes nas duas equipes fez com que eu me interessasse em assistir essa partida em específico. 

    Aquela Stadium Series, juntamente com a comédia romântica “Ela é Demais para Mim” (2010), definiram a minha escolha por um time. Na minha cabeça não havia nada mais hilário do que um time de hockey no gelo que tinha seu nome em homenagem aos pinguins, meus animais favoritos. Sorte a minha, que vi meu time vencer duas Stanley Cups consecutivas em 2016 e 2017. 

    As Olimpíadas de Sochi de 2014 me tornaram uma fã de hockey e mudaram muita coisa na minha vida. Por causa daquela partida eu tive o interesse e a curiosidade de ir ao mundial da International Ice Hockey Federation (IIHF) em Praga e também ver os Capitals logo antes de vencerem a Stanley Cup na incrível atmosfera do Bell Centre, em Montreal. Também pude ver a Stanley Cup ao vivo, além de viver a experiência de sentar no vidro em uma partida profissional dos Baby Penguins, onde também se iniciou meu relacionamento de amor e ódio com Tristan Jarry (que dura até hoje, inclusive). 

    E, finalmente, sem aquele EUA x Rússia eu não teria feito as amizades que o NHeLas me trouxe. Pela primeira vez enquanto torcedora eu me senti de fato acolhida por um grupo de mulheres que buscam sempre apoiar umas às outras e promover a diversidade neste esporte tão branco e hipermasculinizado. No NHeLas fiz amizades que levarei comigo para toda a minha vida, para muito além deste projeto tão especial. Por isso eu não me canso de falar: Спасибо, Сочи e muito obrigada por existirem, Jogos Olímpicos.

  • Sobre Mulheres no Esporte

    Sobre Mulheres no Esporte

    (English version below)

    Quando Manon Rhéaume participou de uma partida de pré-temporada pelo Tampa Bay Lightning, em 1992, nenhuma das integrantes do NHeLas havia nascido. Isso significa que durante todas as nossas vidas, embora tenhamos visto jogadoras históricas e equipes multicampeãs disputarem partidas pelo hockey feminino, nunca pudemos ver mulheres em ação na NHL de fato. Neste meio tempo, passos importantes foram tomados, como o retorno da modalidade às Olimpíadas, o fortalecimento do hockey universitário e a criação de ligas próprias, que culminaram na National Women’s Hockey League (NWHL). No entanto, mesmo assim, os holofotes só se viravam para essas jogadoras a cada quatro anos. 

    Entretanto, este abismo entre a exposição do esporte feminino versus a modalidade masculina não é uma exclusividade do hockey. Afinal, quantas vezes você do Brasil ouviu que o futebol feminino não era legal ou que não fornecia tanto entretenimento quanto o masculino? E o curioso é que isso não se estende apenas ao lado atlético do esporte em si. Cada vez mais temos notícias de mulheres ocupando cargos em organizações esportivas. Como exemplo, podemos citar general managers, técnicas, árbitras e até mesmo a presidente do Comitê Olímpico das Olimpíadas de Tóquio

    Só que quando trazemos a discussão para nosso querido esporte no gelo, ficamos de mãos abanando quanto a exemplos de mulheres em posições de liderança. Afinal, o hockey (e sejamos honestos, a NHL também) tem um péssimo hábito de reciclar os mesmos quarenta homens brancos de meia-idade (ou idade avançada, a depender da organização) para as posições de GM, por exemplo. Embora a Liga pregue a inclusão e a diversidade com o Hockey is for Everyone, a realidade no dia-a-dia  não condiz com essa campanha. 

    Além disso, o machismo não se limita apenas às equipes e organizações envolvidas no esporte. Alguns anos atrás tivemos o caso envolvendo a jornalista Kathryn Tappen. Ela foi vítima de comentários sexistas por parte do então companheiro de emissora, o ex-jogador Jeremy Roenick. Mulheres envolvidas na cobertura jornalística do esporte também são vítimas de comentários misóginos disfarçados de críticas construtivas e, acima de tudo, vivem situações de mansplaining o tempo todo. 

    Parece que todo dia precisamos justificar nosso valor enquanto formadoras de opinião sobre o esporte com uma estatística obscura diferente e, caso não saibamos a resposta de algo, apontam o dedo na nossa cara para falar que só gostamos do esporte porque achamos fulano ou ciclano bonito. Qual é a diferença de começar a gostar do esporte por causa de um filme/desenho da Disney ou de um livro de romance? Isso mesmo, nenhuma. 

    Por isso, neste Dia Internacional da Mulher, ao invés de oferecer flores e chocolates, APOIE MULHERES NO ESPORTE. Sejam elas atletas, executivas, técnicas, árbitras ou jornalistas. E por favor, sem mansplaining. Se quisermos a sua opinião, nós vamos perguntar. 

    About Women in Sports

    When Manon Rhéaume took part in a Tampa Bay Lightning preseason game in 1992, none of the NHeLas integrants had been born yet. This means that, throughout our entire lives, though we have seen historical players and very successful teams play women’s hockey, we were never able to see women in action in the NHL itself. Even though important steps were taken in the meantime, like the return of the sport to the Olympics, the growth of college hockey and the creation of new leagues — which eventually culminated in the National Women’s Hockey League (NWHL) —, the spotlight would turn to these players only every four years. 

    However, the gap between the exposition of women’s sports vs. their men’s counterparts is not something exclusive to hockey. After all, how many times did we, as Brazilians, hear that women’s soccer wasn’t as fun or as entertaining as the men’s game? And it’s rather curious that this is not something that extends itself only to the athletic side of the sport. More and more there have been news of women in positions within sports organizations, such as general managers, coaches, referees and even the Olympic Committee president for the Tokyo Olympics. 

    Still, when we bring the discussion to our beloved ice sport, our hands are empty as far as examples of women in leadership positions go. After all, hockey (and let’s be real, the NHL) has this terrible habit of recycling the same forty white middle-aged (or elderly, depending on the organization) men for the GM spots, for example. Though the league preaches inclusion and diversity with its Hockey is for Everyone slogan, reality on a day-to-day basis does not live up to this campaign. 

    Moreover, sexism is not limited to the teams and the organizations surrounding the sport. A few years ago we had the situation involving journalist Kathryn Tappen, who was the victim of sexist comments made about her by her then co-worker, and former professional hockey player, Jeremy Roenick. Women involved in covering the sport are also victims of misogynistic comments disguised as constructive criticism and, above all, experience mansplaining all the time. 

    It seems like every single day we have to justify our value as opinion leaders in the sport with some new and obscure stat and, in case we don’t have the answer to something, a finger gets pointed to our face to say that we only like the sport because we think player X or Y is hot. What’s the difference about starting to follow the sport because of a Disney movie/cartoon or a romance book? That’s right, none.

    That’s why, on this International Women’s Day, instead of offering flowers and chocolates, SUPPORT WOMEN IN SPORTS. Whether they are athletes, executives, coaches, referees or journalists. And please, no mansplaining. If we want your opinion, we’ll ask.

  • Como Não Ser Um Babaca 101: um manual prático

    Como Não Ser Um Babaca 101: um manual prático

    Há duas semanas, o mundo do hockey foi surpreendido mais uma vez (será que, a esse ponto, deveríamos nos surpreender?) com um chat privado entre jogadores vazado na internet. Brendan Leipsic, até então jogador do Washington Capitals, seu irmão e outros amigos – também jogadores ou ex-jogadores de ligas menores – acharam normal depreciar mulheres, incluindo esposas e namoradas de colegas de times.

    Além das mulheres, Leipsic e companhia também ofenderam colegas de times e até jogadores de outras franquias em suas conversas. Quando descoberto, Leipsic precisou fazer uma nota de desculpas. Mas sejamos sinceras, aquela nota não foi ele quem escreveu e com certeza ele não está arrependido.

    A pior parte é ver gente “passando pano” dizendo que ele teve sua “privacidade invadida”. Oi? E as fotos que eles compartilharam nas conversas? 

    Bem, se você é desse tipo de pessoa que acha que ele está certo, talvez seja interessante ler um pouco deste Manual. 

    Meu privilégio, minhas regras

    Esse caso, que não é o primeiro e certamente não será o último, leva-nos a tentar entender como funciona a mente desses jogadores.

    Imagina só como é ser um homem branco, de origem privilegiada e jogar um esporte elitizado? Provavelmente significa sim que eu poderia falar abertamente das minhas conquistas amorosas como objetos. Ou melhor, sexuais, porque ninguém ali falou de relacionamento sério. 

    “Ora, se desde a infância fui colocado em um pedestal porque era modestamente melhor do que as outras crianças em um jogo no gelo, isso significa que eu realmente tenho o direito de me safar das tentativas de pessoas invejosas que gostariam de me ver falhar!” Afinal, fazer parte do 1% de um esporte competitivo é uma coisa a ser celebrada. “Todos os homens gostariam de estar no meu lugar e todas as mulheres me desejam.” Engraçado que esse tipo de pensamento sempre vem de homem, não é?

    Falar de assuntos alheios ao coronavírus enquanto estamos no meio de uma pandemia sem precedentes parece tolice. Mas a ausência de esportes para nos distrair fez com que uma conversa entre amigos tomasse proporções gigantescas.

    Se você vem de uma cidade pequena ou tem familiares que moram em uma, sabe como funcionam as coisas. Todo mundo conhece todo mundo. Alguns moradores têm um status diferenciado, seja pelo cargo que ocupam ou pelo dinheiro que têm em suas contas bancárias.

    A comunidade do hockey é como uma cidade pequena. Ou você já jogou com fulano, ou conhece quem já tenha jogado com ele. Não existe isso de não se conhecer, mesmo que não seja amigo íntimo, dificilmente as coisas passam despercebidas. 

    No caso de Leipsic, contudo, a situação é ainda mais grave. Veja bem, Winnipeg tem pouco mais de 750 mil habitantes e é uma das maiores cidades do Canadá. Contudo, ao mesmo tempo muitas coisas funcionam como uma cidade pequena.

    Quando rapazes conhecidos por muita gente mostram sua pior faceta, há de se esperar uma resposta da sociedade em que vivem. Afinal, muita gente estudou com eles ou conhece seus pais ou até mesmo jogou hockey na infância com um deles.

    O que nos leva a pensar: quando foi que alguém virou para esses meninos e falou que por serem minimamente competentes em um esporte, eles teriam o direito de menosprezar outros seres humanos? Será que eles estavam falando coisas assim de mim só porque eu emprestei um lápis para um deles na aula de Química no primeiro ano do colegial?

    Atletas de alto rendimento são tratados de forma diferente do que eu e você. Especialmente se eles são homens e mais ainda se são brancos. Isso acontece não só no Brasil, como no Canadá e eu desconfio que até em Papua Nova Guiné. (Ou talvez não por lá, confesso que não me dei ao trabalho de confirmar essa afirmação.)

    Mas será que ser acima da média em um mero jogo faz com que alguém seja automaticamente melhor do que uma pessoa que não tem inclinações esportivas? Ora, se eu sou boa em xadrez (meramente uma hipótese, já que nunca joguei xadrez na vida) eu sou uma nerd, mas se Fulano é bom em futebol ele merece ter o mundo aos seus pés? 

    Módulo 1: Como não ser um babaca 101

    Já que o programa de formação destes jovens jogadores de hockey não trouxe o módulo Como Não Ser Um Babaca 101, eu quero ensinar um pouco para vocês hoje. Esse é um curso essencial na formação de todo jovem enquanto transita para a vida adulta.

    Aliás, esta parece ser uma carência de currículo comum a outros lugares, já que alguns dos escândalos envolvendo atletas do esporte (e não estou falando só do hockey, mas de muitos outros também) são particularmente tenebrosos.

    Longe de mim generalizar todo jogador de hockey como um babaca, pelo contrário, acho que eles são, em sua grande maioria, caras bem legais que têm penteados duvidosos e sorrisos banguelas. Entretanto sei reconhecer que o esporte tende a ser um ambiente hostil não só para mulheres, assim como para pessoas LGBT e demais minorias. 

    Afinal, você torcedora que se identifica como mulher, quantas vezes não foi questionada se gostava de determinada equipe apenas por causa da aparência de seus jogadores? Diferenças de gênero por acaso fazem com que uma pessoa entenda melhor o que é Corsi?

    Eu, particularmente, acho muito engraçado como a minha feminilidade me impede de saber como funcionam as penalidades da NHL, assim como saber quem foi a escolha do terceiro round que o Atlanta Thrashers fez em seu último draft (foi Julian Melchiori, caso você não saiba). Como Não Ser Um Babaca 101 me parece ser uma necessidade na grade curricular não apenas dos atletas, mas também de muitos de seus torcedores. 

    O resumo da ópera é: ser bom em uma coisa não te dá um passe livre para ser um babaca.

    Muito menos para falar coisas absurdas de pessoas inocentes que estão apenas vivendo suas vidas e sendo felizes. Misoginia não é engraçado, racismo não é engraçado, xenofobia não é engraçado, homofobia não é engraçado. E ser um babaca também não.

    Para concluir nosso módulo introdutório de Como Não Ser um Babaca 101, eu decidi trazer algumas sugestões para jovens atletas que estão sem o que fazer na quarentena, já que não têm filho para trocar as fraldas ou ajudar com o dever de casa, a fim de evitar que eles percam tempo falando absurdos em grupos de conversas. Vejamos:

    1. Ler um livro que não envolva hockey, esporte, autoajuda ou que tenha figuras (caso você viva em uma caverna e não saiba o que são livros, estamos abertas a indicar boas leituras);
    2. Treinar coreografias do Tik Tok (além de ser uma atividade física divertida, vai te fazer usar a criatividade para algo melhor do que ofensas gratuitas);
    3. Aprender a tocar violão e fazer uma live só com o repertório do Nickelback (acho que essa só funciona para canadenses – ou para o vestiário do Carolina Hurricanes);
    4. Tricotar botinhas no formato de patins para seus pets; (ou, se não tem um pet, arrume um. Vai ser uma boa companhia e você vai aprender como é cuidar de alguma coisa que pode te ensinar o que é amizade de verdade);
    5. Escreva um livro (tenho certeza que você tem mais para contar do que com quem você dormiu no verão de 2011);
    6. Literalmente qualquer coisa que não envolva comentários asquerosos e preconceituosos.

    Se mesmo com tantas opções de coisas para fazer o jovem atleta ainda decidir ser um babaca, ele merece sim sofrer as consequências por isso. Como a pessoa adulta que é. Afinal, jogar hockey em alto nível pode ser a realização de um sonho de criança, mas o mundo em que vivemos é o mundo dos adultos.

    Lembrem-se sempre: não é legal ser babaca, então não seja um. Eu juro que é bem fácil, é só você tentar, ou melhor, não ser. 

  • Saudade do que não vivemos

    Saudade do que não vivemos

    Maio de dois mil e vinte. Eu deveria estar surtando, tentando cobrir todos os jogos dos playoffs. Uma escala louca misturada com a tensão de ver meu time avançando fase por fase. A aposta que faço todo ano com minhas amigas e os planos que eu já tinha feito quando vencesse o bracket, acertando a final entre Vegas Golden Knights e Philadelphia Flyers. 

    Talvez eu devesse ter sido menos ousada nesse palpite que fiz em meados de dezembro, quando ainda achávamos que 2020 seria “o nosso ano”. Ou talvez devêssemos culpar os Blues. Depois daquela Stanley Cup o mundo nunca mais foi o mesmo. 

    A verdade é que todo e qualquer planejamento que fizemos não existe mais. O mundo é outro e precisamos rever nossa forma de trabalhar, criar e viver.

    Mitch Marner deu uma entrevista para o The Score falando sobre a possível impovável volta da NHL e gostei do quanto ele foi sensato: “ se for para voltar, estarei pronto. Mas e se alguém adoecer? E se alguém morrer?”

    Confesso que estou me perguntando a mesma coisa todos os dias, Marner.

    Por mais que seja difícil ficar sem hockey, e que o tempo pareça não passar quando não temos nenhuma outra forma de nos distrair que não seja livros e Netflix, a hora é de ficar em paz. (Ou melhor, eu espero que vocês estejam se distraindo, porque além de não assistir a um jogo de hockey que não seja de 1980, eu também estou com saudades da Netflix. Mas isso é tema para outro texto).

    Por causa disso, resolvi escrever esse texto, totalmente opinativo e baseado apenas nas vozes da minha cabeça, com alguns palpites do que poderiam ter sido esse playoffs.

    (Se você está aqui procurando especulações reais e um possível bracket, veio ao lugar errado. Aqui, irei brevemente falar de alguns times improváveis e fatos interessantes que poderiam – ou não – acontecer. Mas prometo não insistir na minha final maravilhosa que seria Vegas x Flyers – e se de fato a temporada NHL for cancelada, podemos concordar que essa foi a Stanley Cup Final de 2020 e ninguém lembra que os Blues existem. Combinado?)

    Primeiro Round

    Chegamos aqui nos perguntando: como é mesmo um jogo de hockey? Saudades do barulho dos patins no gelo, de acordar de madrugada assustada com a chamada “HOCKEY FANS GEAR UP” na NHL.tv durante um Canucks x Sharks às 2 da manhã, e de “tretar” no twitter porque algum jogador que eu gosto se envolveu em uma briga com um “famosinho”. 

    Aliás, no primeiro round nós com certeza iríamos nos envolver em briga. Ainda tem muito time jogando, alguns jogadores já nervosinhos e o sonho pelo Jogo 7 – e manter nossas apostas vivas – permanece. 

    Será que Toronto sairia na primeira rodada de novo? Se é que eles chegariam aos playoffs esse ano, não é? (Perdão, torcedores dos Leafs, nada contra o time de vocês, mas como dizia aquele ditado brasileiro bem antigo: the zoeira never ends).

    Ao invés de ficar pensando no “e se”, venho aqui sugerir algumas atividades para tomar o lugar do Primeiro Round dos playoffs: contar quantos ladrilhos tem na parede do seu banheiro (confesso que nunca contei o meu, mas por algum motivo que nunca entendi, lá tem uma letra T no meio dos ladrilhos coloridos randomizados); talvez seja interessante arrumar um pet, ou, se você tem um pet, tirar um tempo do seu dia para ficar com ele. Animais são ótimas companhias para o tédio, até porque eles raramente nos deixam no tédio.

    (Meu cachorro, por exemplo, inventou agora de bater panela às 2 da manhã. Alguém claramente esqueceu de passar para ele os horários do panelaço.)

    A verdade é: estamos com saudade daquela emoção dos playoffs, de que ainda não é possível prever o que vai acontecer nos jogos seguintes. Um pouco parecido com como estamos agora. 

    Segundo Round

    Nessa etapa, eu já estaria surtando. Como cobrir tantos jogos pelo amor de Deus? Já nem saberia mais se era Jogo 4 ou Jogo 5, cada confronto com uma história diferente, torcendo para o seu time ganhar logo os primeiros quatro jogos e ir descansado para a Final de Conferência.

    Mas ao mesmo tempo, a tensão pela possibilidade deles descansarem demais e não terem o mesmo desempenho que fizeram até ali (Canes eu ainda estou triste). 

    Chegando aqui, já saberíamos qual (ou quem) seria a “zoeira” dos Playoffs 2020, os jogadores que estariam se destacando e até mesmo aqueles que estreariam na pós-temporada.

    Não sei vocês, mas depois de um ano de novatos a meu ver tão “pobre”, em que o Calder está mais do que decidido entre Quinn Hughes e Cale Makar, eu poderia assistir a novos talentos se destacando. Ou até mesmo a algum jogador veterano batendo outro recorde. Nesse ponto, qualquer coisa que envolva hockey eu já estaria feliz. 

    Em vez disso, a gente está se estressando com essa máscara de insira aqui o material de sua escolha, que vamos falar a verdade: impossível respirar direito com esse troço. Se você é que nem eu e tem um tipo de alergia, começa a espirrar e todo mundo em volta acha que é o bonito do vírus e a gente tem que ficar: “não se preocupa, é insira aqui sua ite”.

    Ainda assim, eu queria uma máscara com a cara do Gritty, ou até mesmo uma com o logo do meu time. Infelizmente não temos isso por aqui, mas usar a máscara é o mais importante nesse momento, viu galera?

    Terceiro round – AKA Finais de Conferência

    Com apenas quatro times na disputa, é a hora de começar as apostas de verdade. Seu bracket ou está inteiro, ou já foi ladeira abaixo por uma zebra que NINGUÉM pensou que aconteceria. Mas, independentemente disso, é a hora das apostas. Ou, se seu time ainda está na disputa, é a hora das promessas.

    Quem aqui não prometeu ficar sem chocolate se o time ganhasse? Ou até mesmo disputou com um amigo que vestiria a jersey do rival em um cenário que você tinha certeza que não iria acontecer. 

    A verdade é: nas Finais de Conferência só existem dois tipos de torcedores: aquele totalmente sem unhas de tanto passar nervoso rezando para seu time vencer, e aquele que está aqui apenas para ver o circo pegar fogo.

    Todo mundo quer um Jogo 7 com duplo OT e um gol apenas nos últimos segundos. Já não importa mais a hora que você está dormindo, porque o importante é não perder nenhum tiro a gol.

    Infelizmente os tweets do seu time não servem como atestado para faltar ao trabalho/escola. Mas tudo bem, playoffs só tem uma vez no ano, não é mesmo?

    Porém, sem a Final de Conferência, sem escola para ir no dia seguinte e trabalhando de casa, dormir também não está sendo uma opção. Então aqui vão algumas tarefas que você pode fazer às 2 da manhã, sem sono e entediado: começar a ler uma série com no mínimo 17 livros; aprender sobre planejamento e tentar criar uma rotina que você sabe que vai dar errado na primeira semana; assistir a mais de 500 TikToks e dormir com o celular jogado na cama e “I’m Just a Kid” na cabeça.

    Se você gosta de ser produtivo, por outro lado, é a hora de tirar da gaveta aquele projeto que você sempre quis fazer mas tinha outras prioridades. Ou melhor, no seu horário habitual ainda tem trabalho e outros compromissos, mas às 2 da manhã é um bom horário para começar a escrever um livro ou talvez fazer um roteiro para um podcast. 

    Stanley Cup Final

    Vamos ser sinceros, se você chegou até aqui, deve estar extremamente entediado ou então, como eu, resolveu tirar um tempo das obrigações que parecem se acumular mais ainda agora que “rotina” é apenas um conceito abstrato. 

    Nesse ponto dos playoffs, as apostas estão em nível máximo. Apenas dois times restam na disputa, e a chance de seu time estar entre eles já é bem menor. Bom, eu falei que não iria usar o meu palpite aqui, mas como ainda acho que uma final Vegas x Flyers seria sensacional, vou usar esses dois times como modelo.

    Nesse momento, você pode ser anti-Flyers, mas não exatamente pró-Vegas, ou ainda torcer para Philadelphia e ter simpatia pelo “caçula” da NHL. Eu confesso que seria a pessoa que só quer um Jogo 7 porque ainda não está pronta para dizer adeus ao hockey até outubro.

    (Nesse momento as lágrimas escorrem ao pensar que estamos sem hockey desde março). 

    O vencedor para nós aqui não importa muito, apenas queremos curtir os últimos segundo possíveis e, se ganharmos algum dinheiro (ou o que quer que seja a sua aposta – eu já apostei até fanfic), melhor ainda. 

    Mas, infelizmente, não temos a Stanley Cup para apostar. Então, o que podemos fazer com essa saudade de hockey que não vai embora?

    Podemos maratonar os vídeos do canal do NHeLas e colocar em dia aquele vídeo de fevereiro que você ainda não teve tempo de terminar de assistir.

    (Aí você aproveita e já manda o link do canal para o amigo que te prometeu que esse ano começava a ver hockey mas que, sem playoffs, está se contentando apenas com a volta da Bundesliga).

    Outra opção é ir ao nosso Twitter e votar do Big NHeLas Brasil, já que até sem reality show estamos agora.

    Também podemos procurar algum livro de estatística ou história do hockey. Não é porque não temos novidade, que não podemos consumir o esporte. Eu estou lendo The Boys of Winter do Wayne Coffey e recomendo.

    Se você é daqueles que gostam de videogame, sempre é possível organizar um campeonato de NHL20. Ou até mesmo chamar os amigos no Skype e jogar Gartic com tema de hockey. Boa sorte para vocês que vão tentar adivinhar que aquele traço oval esquisito que seu amigo vai desenhar na verdade é um puck.

    Enfim, sabemos que a quarentena não está sendo fácil para ninguém. A NHL não confirmar se irá ou não cancelar está deixando todo mundo, incluindo os jogadores, aflitos.

    O melhor que podemos fazer é ter paciência. Em breve tudo isso vai passar e nosso esporte estará de volta. Enquanto isso, já vamos pensando no que vocês contarão para seus filhos quando eles perguntarem porque não existe campeão da Stanley Cup de 2020. Eu vou dizer que os Blues roubaram a taça e, como não devolveram, tiveram que cancelar o hockey naquele ano. 

    Foto: Reprodução https://se.stageright.com/project-gallery/t-mobile-arena/

  • A estrela do sul continuará brilhando na pós-temporada

    A estrela do sul continuará brilhando na pós-temporada


    Que torcedor que nunca quis ver o seu time indo o mais longe possível em um campeonato? Ganhar prêmios, levantar taças, chegar aos playoffs depois de anos buscando este objetivo e falhando? Há três anos comecei a acompanhar hockey e, em pouco tempo, me apaixonei pelo Dallas Stars. Brinco que foi por causa do Jamie Benn, mas a verdade foi que me peguei sofrendo por um jogo, não lembro contra qual time, às 2 da manhã em um dia de semana que eu teria que acordar apenas três horas depois.

    Quando você começa a gostar de um esporte, e percebe que um belo dia você começa a respirar curto durante um jogo, chorar e rir histericamente, significa que aquele time te conquistou. Foi assim que começou este amor que a cada dia cresce mais.

    Março de 2018. Acompanhar hockey tinha se tornado um Porto Seguro no meio de incertezas. Falar sobre hockey, ler sobre hockey, ver jogos do Dallas. Não estava confiante que chegaríamos aos playoffs, mas coração de torcedor tem lógica? Esperava um milagre! Com Ken Hitchcock a frente do time seria nossa chance, ele já trouxe a única Stanley Cup, traria outra vez. Ha-Ha. Era claro que íamos perder dez jogos em sequência e afundar de vez qualquer chance de ir para os playoffs.

    Um ano depois. Abril de 2019. Mais uma vez, minha vida pessoal me levava a um outro rumo inesperado e, de novo, busco no hockey uma refúgio. Sabia que esta temporada tinha sido diferente. As falhas que o time vinha apresentando nos anos anteriores, de alguma forma, tinham sido corrigidas. Estávamos ganhando de times que em temporadas anteriores teríamos tido dificuldade. Estávamos fazendo gol e evitando gols.

    Desde o início eu acreditara que a escolha do time de ter buscado o técnico Monty no hockey universitário para comandar um time jovem tinha sido uma das melhores coisas para a temporada. Jogadores jovens, como Miro Heiskanen  e Tyler Pitlick, em uma forma impressionante e com oportunidade de jogar (e fazer gols!). A defesa se encaixando, coisa que há anos o time do Texas não via acontecer. Dois goleiros que pareciam imbatíveis, afinal, quem teria coragem de negar uma vaga nos playoffs para um homem chamado Dobby?

    A corrida para os playoffs começou e, conhecendo o Dallas Stars, é claro que ela seria fora de casa. Se podemos complicar, para que simplificar? E uma coisa que sempre deixa o meu coração de torcedora agitado, são jogos fora de casa e em como, em temporadas anteriores, os Stars pareciam dois times diferentes jogando na ACC e fora de casa. A temporada 17-18 ainda estava fresca na minha memória. Mas dessa vez o time estava completo.

    Dessa vez, ouvíamos mais nomes da boca do técnico do que apenas os jogadores de ataque. A dependência de Tyler Seguin e Jamie Benn já não era mais uma realidade. Tínhamos conseguido contratar Zucarello para construir um ataque mais consistente, tínhamos Radulov com sangue nos olhos querendo chegar nestes playoffs, e daí que iríamos ter quatro jogos contra times canadenses? A estrela do sul poderia ser de um lugar quente, mas estava provado que sabia muito bem competir no gelo tanto quanto os times do norte.

    Passamos pelos Jets, passamos por Calgary, passamos pelos Oilers. Nem acreditei quando vi que tínhamos conseguido vencer dois dos principais times da temporada regular. O jogo em Vancouver seria decisivo, mas a derrota no SO não pareceu tão amarga ao chegar em casa com 7 dos 8 pontos possíveis daquela viagem.

    Noite de terça! American Airline Center! O que eu não daria para ter estado presente naquele jogo? Mas da tela do meu celular, acompanhei cada jogada. Os Flyers não eram um time de intimidar, mas se tem uma coisa que já aprendi com hockey, é que neste esporte qualquer jogada pode ser fatal e quanto mais decisivo for o jogo, maior a pedra de sapato que o time adversário poderia ser.

    Primeiro período. 2 a 0, gols de Dickson e Lindell. Defensor fazendo gols foi o que não faltou nessa temporada dos Star. Segundo período. Flyers empatou o jogo, mas Radulov estava com sangue nos olhos e fez o terceiro pro time da casa. Pitlick fez o quarto, começando a dar vantagem para Dallas. Terceiro período. Meu coração já estava acelerado e o grito preso na garganta querendo que aqueles vinte minutos passassem voando. Mas nenhum dos jogadores estavam satisfeitos com aquele resultado e queriam mostrar que além de chegar nos playoffs, que eles estavam prontos para a pós-temporada. Comeau marcou o quinto gol. Radulov marcou o sexto e eu não conseguia acreditar.

    Uma da madrugada, sem me importar com o silêncio que deveria manter no prédio ou que os vizinhos achassem que era por causa de futebol, apenas comecei a gritar “estamos nos playoffs”!!!

    Depois de três anos, poder dizer essas três palavras era um alívio para o torcedor. Poder acreditar no time, ver que estamos preparados para jogar mais uma vez contra os times canadenses e qualquer outro que precisássemos enfrentar.

    O sentimento de finalmente ver um trabalho dando resultado não caberia em palavras, por mais que eu procurasse redigi-las. Torcer para um time de hockey é estar acostumado com uma montanha russa de sentimentos sem fim. É chorar, se emocionar, gritar e rir sem parar, tudo ao mesmo tempo. Ah, como eu queria estar em Dallas em um momento destes! E mesmo de longe, tenho certeza que um pedacinho do meu coração estará acompanhando o Dallas Stars nessa caminhada que está apenas começando. Não somos favoritos, longe disso inclusive, mas tenho certeza que com o jogo apresentado nestas últimas semanas, seremos nós a pedra no sapato dos adversários.

    FotoReprodução/Dallas Stars