Etiqueta: Dia Internacional da Mulher

  • Sobre Mulheres no Esporte

    Sobre Mulheres no Esporte

    (English version below)

    Quando Manon Rhéaume participou de uma partida de pré-temporada pelo Tampa Bay Lightning, em 1992, nenhuma das integrantes do NHeLas havia nascido. Isso significa que durante todas as nossas vidas, embora tenhamos visto jogadoras históricas e equipes multicampeãs disputarem partidas pelo hockey feminino, nunca pudemos ver mulheres em ação na NHL de fato. Neste meio tempo, passos importantes foram tomados, como o retorno da modalidade às Olimpíadas, o fortalecimento do hockey universitário e a criação de ligas próprias, que culminaram na National Women’s Hockey League (NWHL). No entanto, mesmo assim, os holofotes só se viravam para essas jogadoras a cada quatro anos. 

    Entretanto, este abismo entre a exposição do esporte feminino versus a modalidade masculina não é uma exclusividade do hockey. Afinal, quantas vezes você do Brasil ouviu que o futebol feminino não era legal ou que não fornecia tanto entretenimento quanto o masculino? E o curioso é que isso não se estende apenas ao lado atlético do esporte em si. Cada vez mais temos notícias de mulheres ocupando cargos em organizações esportivas. Como exemplo, podemos citar general managers, técnicas, árbitras e até mesmo a presidente do Comitê Olímpico das Olimpíadas de Tóquio

    Só que quando trazemos a discussão para nosso querido esporte no gelo, ficamos de mãos abanando quanto a exemplos de mulheres em posições de liderança. Afinal, o hockey (e sejamos honestos, a NHL também) tem um péssimo hábito de reciclar os mesmos quarenta homens brancos de meia-idade (ou idade avançada, a depender da organização) para as posições de GM, por exemplo. Embora a Liga pregue a inclusão e a diversidade com o Hockey is for Everyone, a realidade no dia-a-dia  não condiz com essa campanha. 

    Além disso, o machismo não se limita apenas às equipes e organizações envolvidas no esporte. Alguns anos atrás tivemos o caso envolvendo a jornalista Kathryn Tappen. Ela foi vítima de comentários sexistas por parte do então companheiro de emissora, o ex-jogador Jeremy Roenick. Mulheres envolvidas na cobertura jornalística do esporte também são vítimas de comentários misóginos disfarçados de críticas construtivas e, acima de tudo, vivem situações de mansplaining o tempo todo. 

    Parece que todo dia precisamos justificar nosso valor enquanto formadoras de opinião sobre o esporte com uma estatística obscura diferente e, caso não saibamos a resposta de algo, apontam o dedo na nossa cara para falar que só gostamos do esporte porque achamos fulano ou ciclano bonito. Qual é a diferença de começar a gostar do esporte por causa de um filme/desenho da Disney ou de um livro de romance? Isso mesmo, nenhuma. 

    Por isso, neste Dia Internacional da Mulher, ao invés de oferecer flores e chocolates, APOIE MULHERES NO ESPORTE. Sejam elas atletas, executivas, técnicas, árbitras ou jornalistas. E por favor, sem mansplaining. Se quisermos a sua opinião, nós vamos perguntar. 

    About Women in Sports

    When Manon Rhéaume took part in a Tampa Bay Lightning preseason game in 1992, none of the NHeLas integrants had been born yet. This means that, throughout our entire lives, though we have seen historical players and very successful teams play women’s hockey, we were never able to see women in action in the NHL itself. Even though important steps were taken in the meantime, like the return of the sport to the Olympics, the growth of college hockey and the creation of new leagues — which eventually culminated in the National Women’s Hockey League (NWHL) —, the spotlight would turn to these players only every four years. 

    However, the gap between the exposition of women’s sports vs. their men’s counterparts is not something exclusive to hockey. After all, how many times did we, as Brazilians, hear that women’s soccer wasn’t as fun or as entertaining as the men’s game? And it’s rather curious that this is not something that extends itself only to the athletic side of the sport. More and more there have been news of women in positions within sports organizations, such as general managers, coaches, referees and even the Olympic Committee president for the Tokyo Olympics. 

    Still, when we bring the discussion to our beloved ice sport, our hands are empty as far as examples of women in leadership positions go. After all, hockey (and let’s be real, the NHL) has this terrible habit of recycling the same forty white middle-aged (or elderly, depending on the organization) men for the GM spots, for example. Though the league preaches inclusion and diversity with its Hockey is for Everyone slogan, reality on a day-to-day basis does not live up to this campaign. 

    Moreover, sexism is not limited to the teams and the organizations surrounding the sport. A few years ago we had the situation involving journalist Kathryn Tappen, who was the victim of sexist comments made about her by her then co-worker, and former professional hockey player, Jeremy Roenick. Women involved in covering the sport are also victims of misogynistic comments disguised as constructive criticism and, above all, experience mansplaining all the time. 

    It seems like every single day we have to justify our value as opinion leaders in the sport with some new and obscure stat and, in case we don’t have the answer to something, a finger gets pointed to our face to say that we only like the sport because we think player X or Y is hot. What’s the difference about starting to follow the sport because of a Disney movie/cartoon or a romance book? That’s right, none.

    That’s why, on this International Women’s Day, instead of offering flowers and chocolates, SUPPORT WOMEN IN SPORTS. Whether they are athletes, executives, coaches, referees or journalists. And please, no mansplaining. If we want your opinion, we’ll ask.

  • Jogos da NHL tem primeiras transmissões por equipes femininas

    Jogos da NHL tem primeiras transmissões por equipes femininas

    Antes da Liga ser suspensa por causa do Coronavirus, tivemos um dos eventos mais legais da temporada. Isso porque o dia internacional da mulher foi cheio de surpresas na NHL. A Liga transmitiu pela primeira vez dois jogos compostos apenas por equipes femininas. Do broadcast ao controle de câmeras, foram elas quem dominaram a noite. 

    No entanto, elas não só dominaram como também fizeram história no esporte. Sendo assim, resaltamos ambas as transmissões e explicar a importância destes eventos para a inclusão das mulheres no mundo esportivo. 

    As mulheres assumem o controle

    No dia 16 de fevereiro, a NBC anunciou através de um comunicado oficial que, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, iria recrutar apenas mulheres para transmitir e produzir o jogo entre Chicago Blackhawks e St. Louis Blues. 

    A partida ocorreu no domingo (8). Estúdio, sidelines e backstage, por fim, ficaram pequenos diante de tamanho talento. A equipe foi composta por Kathryn Tappen (apresentadora no estúdio), Jen Botterill (âncora no estúdio), Kate Scott (play-by-play), Kendall Coyne (analista do jogo no gelo) e AJ Mleczko (analista da partida). A produção do jogo também contou com Rene Hatlelid (produtora) e Lisa Seltzer (diretora). 

    Ao longo da transmissão da partida, diversas mulheres que deixaram sua marca no esporte foram homenageadas. A intenção da NBC com o evento é tentar cada vez mais “inspirar as futuras gerações de mulheres a se destacarem no gelo e nos bastidores”. 

    Todavia, apesar de estarem participando da primeira transmissão apenas com mulheres, algumas destas profissionais já são conhecidas por seu trabalho no mundo do hockey. A apresentadora Kathryn Tappen é um exemplo, tendo transmitido diversos jogos da NHL nos estúdios da NBC. A jornalista afirmou ao próprio site que, embora já tenha participado do broadcast de diversos jogos, nunca teve a oportunidade de fazer parte de uma equipe que contasse apenas com o público feminino. 

    “Transmito (jogos) há 17 anos, mas a primeira transmissão que fiz com uma produtora foi apenas há dois anos atrás. O fato de celebrarmos o Dia Internacional da Mulher com uma equipe feminina de transmissão e produção me diz até onde chegamos em um tempo muito curto. Esperamos que nossa transmissão ajude a inspirar as jovens que assistem a seguir seus sonhos, porque provamos que tudo é possível e tenho orgulho de fazer parte disso.”

    Kathryn Tappen para o site da NBC. 

    No entanto, a NBC não foi a única a dar o controle do espaço para as mulheres no dia oito. A Sportsnet, por fim, também resolveu aderir a ideia e teve o jogo do Calgary Flames e Vegas Golden Nights também produzido e transmitido por uma equipe formada por apenas mulheres. Equipe esta composta por Christine Simpson (apresentadora), Leah Hextall (play-by-play), e Cassie Campbell-Pascall (analista do jogo) e o restante do time que faz tudo acontecer atrás das câmeras. 

    Os comentários em relação a transmissão

    Apesar de diversas pessoas na comunidade do hockey acharem a ideia de um broadcast feminino mais do que bem vindo, muitas pessoas ainda sim se mostraram contrárias a participação das mulheres nas transmissões do dia oito. Diversos comentários sexistas foram profanados nas postagens das emissoras sobre o evento nas redes sociais, sendo estes críticas nada construtivas em relação ao trabalho impecável feito pelas mulheres.

    Porém, apesar dos comentários negativos e ofensivos, diversos profissionais da área vieram a público defender a iniciativa das emissoras. Seguidamente, muitos destes, inclusive as próprias profissionais envolvidas nas transmissões, ressaltaram a importância de eventos como este em um esporte como o hockey.

    AJ Mleczko, que foi a analista de jogo da partida entre Blackhawks e Blues, fez questão de ressaltar para o site da NHL a necessidade de ver as mulheres ocuparem espaços no esporte e a partir daí, novas portas possam se abrir.

    “É significativo por causa da visibilidade que fornece. Para as pessoas sentadas em casa assistindo nós três aqui, e [Tappen] e [Botterill] no estúdio, vendo mulheres falando sobre hockey do jeito que falamos – estamos muito preparadas e educadas neste jogo – […]. Para quem está sentado em casa [assistindo], meninos, meninas, homens, mulheres, saindo da faculdade, seja o que for, permite que eles entendam que há mais oportunidades. Talvez eles optem por não seguir esse caminho, mas a mídia está aberta a homens, mulheres, qualquer pessoa e a visibilidade é a maior parte.”

    Mleczko para a NHL.

    Linda Cohn, jornalista da ESPN, também veio, em meio de suas mídias sociais, explanar sua felicidade ao ver as mulheres tendo oportunidades como estas no mundo esportivo. Todavia, ressalta também que não deveria ser algo que venha a acontecer apenas uma vez ao ano. 

    Seguidamente, em uma das páginas da NBC Sports, Laura Oakmin (apresentadora da NFL na Fox) também veio a público falar sobre o quão importante era ver mulheres quebrando barreiras. Principalmente no mundo dos esportes, que ainda é bastante hostil com o público feminino. 

    Após os jogos, Kendall Coyne, que também participou da transmissão feita pela NBC. A jogadora disse que se sentia honrada em fazer parte de uma equipe cheia de profissionais tão talentosas. 

    Por último, Mark Lazerus, correspondente dos Blackhawks no The Athletic, apontou o outro lado da história. Sendo homem e jornalista, viu a transmissão dos jogos com outra perspectiva. Para ele, este tipo de ação representa uma nova porta de oportunidades aberta para as meninas da nova geração no mundo do hockey. 

    Todos os dias, diversas mulheres no mundo do esporte sofrem assédio durante o exercício da profissão, questionando o trabalho delas apenas pelo seu gênero. Dentre estes comentários de mau gosto, existem diversos questionamentos sobre quais seriam as motivações por elas estarem ali, mas não levam em consideração que a profissional está ali pelo esporte.

    Geralmente, os comentários nas redes sociais questionam se, este interesse seria de fato é pelo esporte ou teria outra motivação por trás. Isso porque, aparentemente, a nossa sociedade machista persiste na ideia de que mulheres ainda são as vilãs e estão em busca de relacionamentos do qual podem tirar vantagens. 

    Mas esta ideia da Idade Média não cabe mais ao século 21. Cada vez mais as mulheres vem conquistando o seu espaço em cargos de grande importância em todas as esferas da sociedade. Dessa forma, eventos como estes são necessários em mais do que apenas um dia do ano. 

    A presença de mais mulheres no mundo esportivo é essencial para uma maior equidade de gêneros dentro e fora das arenas. O trabalho destas jornalistas cada vez mais estão em destaque e se incomoda tanta gente assim, é porque elas estão fazendo o trabalho direito. E, ao contrário do que estes comentários maldosos dizem, a motivação dessas profissionais é de cobrir o hockey da melhor forma possível, levando informações corretas e de boa qualidade para os fãs do esporte. 

    Portanto, está na hora de cada vez mais mulheres estarem a frente de transmissões esportivas, reportagens, entrevistas, podcasts  e demais cargos no mundo do esporte.

    Foto: Reprodução/nhl.com