No último mês, uma figura chamou mais atenção do que o normal no hockey twitter, com suas atitudes e personalidade peculiares para o jogador de hockey comum. Acontece que Igor Larionov II não tem nada de comum. O nome não é estranho para quem já acompanha o esporte há algum tempo; o jovem jogador é filho de uma das maiores lendas do hockey, Igor Larionov, que venceu três Stanley Cups (1997, 1998 e 2002) com o Detroit Red Wings, além de conquistar diversos títulos a nível mundial no esporte.
Porém, aos 22 anos, Igor Larionov II dá os primeiros passos de sua carreira profissional enquanto, ao mesmo tempo, conquista uma legião de apoiadores e fãs nas redes sociais, abraçando a comunidade e ecoando vozes que nem sempre vemos representadas no hockey.
O NHeLas conversou com ele sobre sua trajetória no esporte, sua presença nas redes e muito mais. Além desta entrevista, você também pode assistir ao vídeo dele respondendo perguntas do Twitter aqui. Confira também ele fazendo um quiz em nosso site aqui.
(Esta entrevista foi editada para fins de brevidade e clareza. Parte 2 | Parte 3)
Por que não começamos com a sua carreira? Conte para a gente sobre a sua vida no hockey, desde a infância até agora.
Eu nasci em 1998, em Detroit, Michigan. Meu pai era jogador de hockey, então eu cresci no rinque e conheci muita gente legal que joga hockey e está nesse ramo. Entre os três ou quatro anos, eu corria pela casa com um pequeno taco de hockey. A maioria das crianças brinca com carrinhos ou Legos. Eu sempre tinha um stick e uma bola ou puck comigo. Então foi basicamente assim que eu comecei a jogar. Na infância, eu joguei hockey em Detroit por um tempo e aí minha família se mudou para a Califórnia quando meu pai se aposentou, e eu passei dois anos jogando hockey na Califórnia. Depois disso foi muito difícil encontrar [rinques de] gelo aqui e muitas oportunidades para treinar, então nos mudamos de volta para Michigan, onde havia cerca de 15 rinques em um raio de 10 milhas da minha casa. Isso fez com que fosse muito mais fácil simplesmente ir para o gelo, treinar, trabalhar duro e tudo mais.
Eu joguei hockey juvenil em Michigan pelos seis anos seguintes, depois disso fui para o major junior, onde joguei na QMJHL na primeira temporada, o que foi uma boa experiência. Mas depois daquele ano recebi uma oferta de Windsor, que ficava a literalmente 30 minutos de carro da minha casa em Michigan. Então essa foi a oportunidade perfeita, porque não é todo dia que você consegue morar em casa e jogar hockey, então aceitei a oferta, tive um ótimo ano e joguei muito bem. Então na temporada seguinte eu tive a oportunidade de ir para Muskegon, porque em Windsor, eles estavam meio que em reconstrução, mas foi meu último ano em Muskegon. Estávamos em rumo ao título, tínhamos uma equipe muito forte. Então fui para Muskegon e tive um ótimo ano, muitas memórias boas. Infelizmente, eu quebrei minha clavícula em um dos últimos jogos da temporada, então minha temporada acabou. Acabamos perdendo as finais da conferência nos playoffs, o que, você sabe, foi chato não poder ajudar a equipe ou jogar, mas foi uma boa experiência jogar em Muskegon. Eu ainda falo com muitos dos caras, muitos dos jogadores são amigos próximos atualmente.
Depois disso, eu decidi ir para a Rússia. Comecei com o SKA na KHL, estava no camp deles, me falaram que eu consegui uma vaga no time, ótimas notícias, me chamaram para a Seleção Olímpica, basicamente a segunda seleção. Tem a seleção principal na Rússia e aí tem o time olímpico, que são os caras jovens, eles estão te preparando para torneios e eventos futuros. Então eu fui chamado para isso e dois dias antes de eu ter que ir para a seleção olímpica e assinar meu contrato da temporada com o SKA, eu rompi o músculo do glúteo no último dia do training camp. Por causa disso eu basicamente perdi toda a temporada. Quando me recuperei, eu só pude jogar duas partidas, e isso foi só para que eles pudessem me registrar. Eu estava escalado, mas não fui para o gelo, e foi só para que eu ficasse sob contrato na época, porque eles esperavam que em dois meses eu estaria preparado para jogar. Mas, obviamente, dois meses depois o mundo parou por causa da COVID. E eu acabei basicamente não jogando na temporada.
Então quando isso aconteceu, eu voltei para Michigan, onde eu estava morando na época, treinei muito, recuperei-me e tive algumas oportunidades de jogar na AHL temporada passada, mas nada estava acontecendo (na liga). Então eu comecei a pensar comigo mesmo “eu não posso tirar dois anos de folga,” não seria bom para o meu desenvolvimento. Foi quando recebi uma ligação do GM do Kunlun (Red Star) falando que eles estavam à procura de jogadores da América do Norte com raízes russas, o que basicamente significa uma pessoa com passaporte russo, porque eles precisam de determinado número de jogadores russos para cada jogo. E eu honestamente só falei “tá bom, quando você quer que eu vá?” E ele falou “que tal em alguns dias?” Assim, em alguns dias eu estava em um voo para Moscou. Eu fui de Detroit, para Chicago, Chicago para Londres, Londres para Moscou. E três ou quatro dias depois eu estava disputando minha primeira partida. Eu assinei um acordo de apenas três jogos pois (o time não tinha) dinheiro para assinar gente com contratos garantidos esse ano por causa dos cortes de orçamento devido à COVID. Depois de três jogos, eu tinha dois pontos e eles acabaram me contratando para o resto do ano. Eu joguei mais duas partidas depois disso, aí eu peguei COVID. Acabei perdendo três semanas com a doença. Não foi tão ruim, tive sintomas bem leves. Mas quando eu voltei, tive problemas com o meu coração e depois de tentar me recuperar, eles basicamente me tiraram do resto da temporada.
Ainda bem que eu pude voltar aos EUA para receber um tratamento apropriado. Eles basicamente me falaram “tire dois meses de folga, não faça nada, não force seu coração” e eu tive que usar alguns monitores cardíacos por algumas semanas para que eles acompanhassem tudo. Depois que esses dois meses passaram, eles falaram “vai ser como um interruptor. Do nada você irá ganhar sua energia de volta e voltar a se sentir bem de novo, poderá treinar,” e realmente aconteceu como eles disseram que seria. Por dois meses eu me senti muito fadigado, muito cansado, não conseguia fazer nada sem subir meus batimentos cardíacos. E aí quando esses dois meses passaram, boom, eu me senti ótimo. Agora, eu estou treinando há mais de um mês e meio. E, honestamente, sinto-me melhor do que nunca. Eu estou só me preparando para a próxima temporada neste momento.
Na sua opinião, quais são as maiores diferenças entre jogar hockey na América do Norte versus jogar na Rússia?
Existe uma diferença considerável entre esses dois países, tanto culturalmente quanto no estilo de jogo. Eu diria que na América do Norte, existe um sistema mais estruturado onde você sabe seu trabalho e todo mundo sabe o seu papel. Mas na Rússia, é meio cada um por si, no qual os caras meio que decidem o que vão fazer, e isso não é necessariamente a melhor coisa. Eu acho que o melhor é quando você pode fazer uma mistura dos dois sistemas, em que as pessoas têm a liberdade para criar, mas também existe uma estrutura e um sistema onde, se você cometer um erro, você sabe que seu colega vai estar lá para te cobrir, porque estão seguindo a mesma ideia que você. Foi muito interessante jogar (na Rússia). Eles basicamente tinham fãs em todo lugar que a gente jogava, o que foi bem estranho considerando os tempos atuais. Foi uma experiência diferente, as cidades, elas não são cidades típicas com hockey profissional como aquelas em que se jogaria na América do Norte. (Nos EUA) são normalmente as maiores cidades da América, você fica em hotéis legais. Lá, existem algumas boas cidades, mas uma vez que você vai para alguns dos times menores, as cidades não são tão legais, eles só têm um restaurante, que era tipo um Burger King ou algo assim, e o hotel era algo (que parecia ter saído) direto dos meus pesadelos, (risos) tem, tipo, sangue nas paredes e mofo no chuveiro, esse tipo de coisa.
Foi bem peculiar, mas, no fim, foi muito divertido, porque eu sinto que meus colegas de equipe… Nós éramos vários caras da América do Norte e, é aquela coisa, era tão diferente para tantos de nós que, na maior parte do tempo, estávamos só rindo do que se passava. O avião do nosso time era muito, muito estranho. Todo voo tinha um momento em que você sentia o avião descendo lentamente, e no início ficava muito quieto no avião. Mas aí todo mundo começou a se olhar, tirar os fones de ouvido, e então um dos meus colegas sempre começava a gritar “bom, garotos, é assim que a gente vai!” E todo o time começava a rir. Momentos assim, o que, olhando para trás, era aterrorizante como a gente sentia o avião caindo e depois voltando ao normal. Mas só coisas pequenas assim, já que sempre estávamos zoando as coisas ruins. E isso tornou tudo mais divertido, e tornou a experiência mais legal para todos nós.
Como eram os protocolos da KHL em comparação ao que vimos da NHL naquele momento?
Eu acredito que na NHL eles estão sendo testados todos os dias, o que tínhamos eram testagens a cada três dias. Outro diferencial na NHL é que se algumas pessoas estão doentes, eles basicamente desativam todo o time e ninguém joga até todos se recuperarem, até que todos voltem. Mas para a gente, era totalmente diferente. Se você estivesse doente, você só ia para casa, mas o resto da equipe continuava. Então nós tivemos um momento antes mesmo de eu ter ido para o time em que acho que tínhamos, tipo, 17 caras doentes ao mesmo tempo. Quando eu cheguei lá, quando eu fiquei doente, a gente tinha seis caras doentes ao mesmo tempo. Então foi meio que uma bagunça porque eles não sabiam como lidar de uma forma melhor, como eles fazem (na NHL). Nosso gerente de equipamento ficou doente, e ao invés de ficar em casa, ele foi para o rinque afiar nossos patins. E aí cinco de nós ficaram doentes. Então foi meio estranho por causa disso. Mas, você sabe, é uma cultura diferente, eles fazem as coisas de outra forma lá. Então não posso culpá-los pela forma como o país é administrado, porque é simplesmente o jeito que as coisas são. Mas eu definitivamente acho que eles poderiam ter tido uma abordagem mais cuidadosa. Porque no fim, eu acho que 95% da liga ficou doente. E eu sei que vários jogadores tiveram problemas similares aos meus, onde eles não conseguiram finalizar a temporada porque tinha algo errado. Alguns caras inclusive foram parar no hospital, com respiradores. Então foi uma situação assustadora para muitos de nós, mas ao chegar, eles basicamente falaram para a gente que era 100% certo que iríamos ficar doentes em determinado ponto, então sabíamos os riscos ao participar.
Eu acho que na América do Norte você seria processado na hora só por falar isso.
Você seria. É engraçado, quando eles falaram comigo pela primeira vez, eles falaram “você já teve COVID?” e eu respondi “não.” E eu estava pensando que isso era uma coisa boa. Mas aí eles ficaram tipo “puts, seria melhor se você já tivesse tido, porque aí significaria que você não pegaria de novo” (nota das NHeLas: já foi comprovado que isso não é verdade, então usem máscaras e sigam os protocolos, fãs!) E eu fiquei tipo “oh.” (risos) Eles falaram “dentro das primeiras duas semanas, você provavelmente vai pegar.” Eu consegui durar quase um mês e meio antes de pegar, o que não sei explicar, fui muito, muito sortudo. Mas, basicamente todo mundo que foi para lá pegou, a não ser que a pessoa já tivesse tido no verão.
Pensando no futuro, quais os seus planos e expectativas para a próxima temporada? E como é sua rotina na intertemporada, o que você costuma fazer?
Minha expectativa para a próxima temporada é permanecer na América do Norte, e eu tenho algumas oportunidades de ir para alguns camps ou então já assinar um contrato na AHL direto. Eu sei que muitos dos caras que jogavam na KHL, e que estão na NHL agora, tiveram uma pontuação similar à minha em menos jogos. Então para mim, eu vejo isso e falo “se eles tinham menos pontos que eu, e estão jogando na NHL, eu provavelmente poderia fazer o mesmo.” E eu realmente acredito que, se eu não tivesse meu histórico de lesões, eu estaria lá neste momento. Mas, você sabe, você não pode controlar essas coisas. Obviamente, é difícil às vezes, mas eu sou muito grato pela forma como tudo aconteceu na minha vida até agora. Mas é, eu tenho algumas oportunidades. E eu realmente acho que uma vez que eu tenha a chance de me mostrar, tudo ficará bem.
Minha rotina, basicamente, o que eu faço é treinar na academia. Geralmente, nessa época do ano, treino três vezes por semana. E aí, quando chega mais perto da temporada, mais ou menos em junho, eu começo a ir quatro vezes na semana, julho, quatro vezes na semana, agosto, quatro vezes na semana. Então, no final de julho eu começo a ir pro gelo duas vezes na semana e continuo fazendo isso, porque não gosto de patinar muito na offseason, sinto que fico muito cansado se patinar demais. Prefiro só trabalhar em construir meu físico, aumentar minha resistência, todas essas coisas diferentes. Porque sinto que quando você tem tudo isso ajustado, e vai para o gelo, sinceramente três semanas antes da temporada começar, eu começo a aumentar o ritmo e patinar quatro ou cinco vezes na semana, e é tudo o que eu preciso para estar pronto, fisicamente. Mas ao mesmo tempo, estou descansado o bastante de modo que não fico muito cansado durante o training camp por conta de tudo isso.
Qual é a história por trás de você vestir o número 69 e como isso virou praticamente sua marca pessoal? Você acha que vai poder continuar usando esse número no futuro, dependendo de onde sua carreira te levar?
Esse ano, no Kunlun, a gente não tinha muito dinheiro no meu time da KHL, então eles tinham uma determinada quantidade de camisas pré-selecionadas, e quando estavam falando em assinar comigo, eles me ofereceram uns cinco números diferentes. Três dessas camisas eram grandes demais, então eu não podia usá-las. Elas eram quase do tamanho para goleiro. E aí as duas que eram do meu tamanho eram número 69 e, eu acho, número 52 ou 53, algum número bem sem graça o que, como vocês sabem, eu não gosto de coisas sem graça. Então, naquele momento, eu basicamente percebi que 69 era a melhor opção, além de que, eu tive a oportunidade de impressionar algumas pessoas, o que é sempre divertido. (risos) Eu gosto de fazer coisas criativas, e eu acho que muitas pessoas não usam o número 69 porque é visto de uma forma ruim pela sociedade. Mas eu não vejo nada de ruim com a mensagem que isso passa. Porque, no fim do dia, não há nada de errado com o que isso é, é uma coisa que quase todos os seres humanos fazem.
Não há nada de tabu nisso na minha mente. Você sabe, muitas pessoas, quando falam de sexo ou algo do tipo, elas acham que tem muito tabu nisso, mas na realidade, quer dizer, está literalmente na Bíblia, sabe, se a gente for voltar tanto no tempo. (risos) Então eu não vejo nada de errado com isso e acho que é uma mensagem positiva, não apenas para ser você mesmo e se divertir, porque muitas pessoas veem seu esporte como um emprego e não um jogo, e eu acredito que você pode considerá-lo as duas coisas porque, no final, se é divertido, eu sinto que você joga melhor e, se você está aproveitando aquele jogo, você joga melhor. Basicamente (o número) me escolheu. Eu não tive muita escolha, mas quando eu descobri que era minha única opção, eu fiquei bem animado porque já vinha querendo fazer algo escandaloso assim havia algum tempo e só teria acontecido se fosse minha única opção. Eu não acredito que teria a coragem de escolher 69 de cem números diferentes ou algo assim.
Você tem alguma superstição relacionada ao seu jogo? Alguma coisa que você gosta de fazer antes de cada partida?
Não, na verdade não. Eu acho que eu amarro meu patins esquerdo primeiro, o que seria a única superstição que daria para considerar como tal, mas todo o resto eu sou bem, bem tranquilo, eu me deixo levar. Antes dos jogos, eu não gosto de ficar muito pilhado. Eu gosto de me divertir e aproveitar, brincar. E quando eu faço isso, eu sinto que eu jogo melhor porque não tem absolutamente nenhum nervosismo para mim e eu saio relaxado e confiante, pronto para jogar. Mas quando eu penso demais, fico muito estressado, aí é quando eu me complico. Eu prefiro jogar com base em meus instintos e não no que acontece (na minha cabeça) porque eu sinto que quando a gente pensa muito, começa a duvidar de si mesmo. Enquanto que se você só joga pelos seus instintos, você vai bem melhor. Então quando eu chego no rinque, eu brinco, jogo um pouco de futebol, basquete, futebol americano, você sabe, só para descontrair. Daí eu faço meu aquecimento, o que não é exatamente uma rotina, o mesmo aquecimento, passo a passo. Eu tenho uma certa quantidade de exercícios, mas eu os faço numa ordem diferente. É praticamente isso. Eu entro no gelo, faço os mesmos exercícios e stick handling. Não é uma superstição, eu só estou acostumado a fazer os mesmos exercícios porque eu sei que eles esquentam o meu corpo corretamente. É basicamente assim que eu me preparo, não tem nada de muito especial, é mais tentar aproveitar cada momento disso.
Não tem uma comida ou roupas especiais?
Eu sigo uma dieta bem restrita, eu não como muito. Então normalmente antes dos jogos, eu como uma salada, depois um queijo quente com batata doce. Já com roupas, eu gosto de me divertir com isso, não presto tanta atenção, eu visto praticamente qualquer coisa e vejo se cai bem, se eu acho que ficou legal, eu uso. Se houver um código de vestimenta, eu meio que fico bem no limite do código, de modo que eu siga as regras mas ainda faça algo do meu jeito. É o que eu gosto de fazer.
Não há autoexpressão com um código de vestimenta. É por isso que eu tento seguir um pouco para não arranjar problemas, mas no final eu o faço de forma um pouco diferente.
Qual carreira você gostaria de seguir se não fosse jogador de hockey? Você pensa sobre a vida pós-hockey e o que você gostaria de fazer depois?
Sim, eu penso bastante sobre isso. Porque sempre falo para as pessoas, quando me apresento, eu não digo que sou um jogador de hockey. Primeiro, eu digo, por exemplo, eu sou um ser humano, e aí, depois de um tempo, eu conto que sou jogador de hockey, porque eu não quero que elas pensem que aquilo é exatamente quem eu sou. Eu tenho vários interesses, diversas paixões fora (do hockey). Então eu adoraria fazer algo por trás das câmeras. Eu sempre fui um fã de filmes, sempre fui um fã de televisão. Mas quando eu me mudei para LA, alguns meses atrás, eu estava cortando o cabelo num salão em Beverly Hills. E era super sofisticado, vários figurões, eu na verdade estava sentado do lado da Kesha, a cantora, o que foi super, super legal. Mas essa mulher me aborda e pede meus dados, nós começamos a conversar e acontece que ela era a vice-presidente de uma agência de modelos em Los Angeles. Então eu estava conversando com ela, ele pediu meu Instagram e me seguiu, fizemos essa conexão e ela queria que eu fizesse algumas coisas para (a agência), falasse com eles e potencialmente assinasse um contrato. E eu fiquei um pouco assustado porque eu não quero que isso interfira com o hockey, porque muitas vezes, quando você faz qualquer coisa criativa, depois volta ao hockey e as pessoas te olham de um jeito um pouco diferente. E basicamente eu mandei uma DM para ela “vamos dar sequência,” e depois cancelei o envio porque eu não estava confortável fazendo aquilo. Obviamente, é algo que eu gostaria de seguir, se a vice-presidente de uma agência me aborda do nada, eu imagino que seja um bom sinal. Honestamente, eu adoraria retomar isso uma vez que eu tenha me estabelecido ou assinado um contrato, algum tipo de segurança. Eu definitivamente amaria fazer alguma dessas três coisas, algo na indústria do entretenimento, porque eu não gosto muito quando você não pode se expressar e eu sinto que ramo é a oportunidade perfeito em que você pode literalmente ser você mesmo e não ser julgado por isso, (pelo contrário) você é aplaudido, e isso é algo que eu realmente gosto.
Então você nunca trabalharia num escritório ou coisa do tipo?
Eu não sou muito bom em ficar sentado o dia todo numa cadeira, sentado num escritório. Quer dizer, talvez, se eu estiver apaixonado por alguma coisa, eu posso tentar fazer isso, mas não é algo que eu vejo em meu futuro. Eu sou extrovertido demais. Eu um dia literalmente acordaria e diria “por que estou fazendo isso?” E aí, você sabe, compraria uma passagem só de ida para a Austrália, e cruzaria o país numa vã, só filmando e fotografando as coisas. Acho que essa é mais a minha cara, e trabalhar num escritório, o que eu não acho que tenha nada de errado, obviamente muitas pessoas têm profissões e ganham dinheiro com isso, muitas pessoas gostam. Mas para mim, é algo que eu não acho que jamais seria capaz de fazer.
O cinema está repleto de grandes filmes de esporte. Alguns dos nossos favoritos, e que levam o hockey como tema principal, estão listados aqui(nota da autora: página em construção). Há histórias que nos fazem rir, que nos fazem chorar, que são tão emocionantes quanto uma partida decisiva do seu time do coração. Às vezes essas histórias se baseiam em acontecimentos reais, às vezes são completamente fruto de uma imaginação fértil. Em qualquer um dos casos, cabe ao mesmo profissional colocar essa história no papel antes que ela possa “tomar vida” em nossas telas: o roteirista.
Conversamos com um especialista da área para entender melhor o roteiro cinematográfico no universo dos esportes – em particular, do hockey. Michel Lichand é roteirista, podcaster e atualmente reside em Los Angeles. Tem graduação em Rádio e TV pela FAAP e pós-graduação em roteiro pela University of Southern California, e já trabalhou com Disney Studios, AMC Networks, Wayfarer Studios e Lionsgate. Ele é um dos apresentadores do podcast “Fullmetal Analysts”, em que analisa o roteiro de diversas produções internacionais.
A entrevista foi levemente editada para maior clareza.
Qual é o apelo de um filme de esportes?
Um filme de esportes, assim como qualquer tipo de filme, é um tipo de escapismo. Um jeito do espectador escapar de sua realidade normal e viver uma história diferente por algumas horas. Isso é a base de qualquer filme, seja ele um filme de ação da Marvel ou do James Bond, ou um drama mais íntimo tipo aqueles que ganham Oscars. A mesma coisa acontece com filmes de esporte.
Nem todos nós seríamos bons jogadores de esporte, por exemplo, eu não sou a pessoa mais ágil do mundo e seria horrível em qualquer esporte que precise de velocidade. Mas por meio de um filme ou uma série, ou posso viver e entender a experiência de um corredor, me conectar com o corredor e me emocionar com o corredor. É por isso que os americanos adoram filmes de futebol americano, por exemplo, porque eles providenciam uma conexão ainda maior entre espectador e jogador.
Por que o hockey não é tão popular no cinema americano?
Por aqui, filme de esporte geralmente é sobre beisebol ou futebol americano, já que esses dois são os esportes mais populares pelo país (basquete está em terceiro lugar, mas de futebol americano para basquete o número de filmes já desce muito). Acho que o que impede o hockey de ter sucesso no cinema americano é que parte do público ainda não conhece as regras (o filme Vale Tudo, de 1977, literalmente começa com um dos personagens explicando as regras do esporte). E, como os jogadores de hockey usam uniformes que cobrem o corpo inteiro, e acabam se metendo em situações de violência, dá pra imaginar que muitos atores não estão interessados em passar a maior parte do filme usando uma máscara ou quase se machucando.
Além disso, quando você pensa nos dois esportes populares aqui nos EUA, eles são muito fáceis de adaptar para uma estética visual cinematográfica. Você mostra uma imagem de um jogo de futebol ou beisebol e dá para ver na hora quem está ganhando, em quem o espectador deve prestar atenção etc. Já o hockey requer um pouco mais de paciência, ao menos no começo… e por aqui a regra é literalmente “tempo é dinheiro.” Muitos produtores acabam indo para outros esportes por serem mais fáceis de adaptar pro cinema. E aí o que você tem são os filmes hockey-adjacent.
Extrato da primeira página do roteiro do filme “Vale Tudo” (1977), escrito por Nancy Dowd.
O que é um filme hockey-adjacent?
É um filme que tem hockey, mas não é sobre hockey, ou seja, está adjacente a hockey. Não é pra menosprezar o filme ou a série, é simplesmente um fato que os hockey-adjacent usam o hockey pra contar uma outra história, então não são exatamente “filmes de hockey.” Pensa no “Fada do Dente”, com (Dwayne “The Rock” Johnson). O filme usa hockey na sua história, mas a história foca mais no relacionamento entre o personagem de The Rock e a família dele.
Esse tipo de filme usa o hockey como cenário, basicamente, porque o espectador sabe alguns elementos do hockey (é violento, joga-se no gelo, usam roupas pesadas) mas não sabe o suficiente para se importar quando o filme muda de assunto e foca em outros elementos. De novo, isso não quer dizer que o filme é ruim. Mas não é um filme de hockey do mesmo jeito que “Tudo Pela Vitória” é um filme de futebol americano ou “Um Maluco no Golfe” é um filme de golfe (este último inclusive usa elementos do hockey, mas o filme em si é de golfe).
Extrato do roteiro do filme “Um Maluco no Golfe” (1996), escrito por Tim Herlihy, Adam Sandler e Dean Lorey.
A gente não vê roteiristas especializados em filmes de esporte. Por que isso acontece? E faria sentido ter um profissional do tipo na indústria?
Porque “filme de esporte” não é um gênero cinematográfico. Por exemplo, todo mundo já viu o filme em que um técnico revolucionário transforma um time de perdedores em vencedores ou algo assim. É tão comum, que virou clichê em Hollywood. Mas esse tipo de história não se aplica só a um esporte. Existe esse tipo de filme com futebol, baseball, até hockey. Isso mostra que filmes de esporte são um tipo de narrativa e não um gênero, como comédia, terror, drama. Sem contar que existem filmes de esporte que são comédia, filmes de esporte que são terror, etc.. Não faria sentido alguém se especializar assim, porque seria que nem eu me especializar em “filmes sobre crianças que encontram um mundo mágico” ou “filmes sobre pessoas que trocam de corpo.”
Como uma partida de hockey é escrita para o cinema?
A primeira coisa que você aprende sobre roteiro é que você tem que cativar a imaginação do leitor. Muita gente lê as primeiras dez páginas de um roteiro e se não gostar, joga o resto do roteiro fora. Você tem que usar o formato do roteiro para transmitir a ação e a intensidade do momento pro leitor. E isso serve pra qualquer tipo de cena, seja uma partida de um esporte, um jantar de família ou uma perseguição em alta velocidade. Então uma partida de hockey não pode ser uma transcrição – “ele atira, ele defende, ele atira,” etc. –, tem que ser algo que capture a emoção do momento.
Um exemplo que eu gosto é do filme “Os Brutamontes.”Para quem não viu, é um filme que enfatiza o lado violento do hockey – o personagem principal literalmente é contratado para ser um enforcer de um time. Então os roteiristas, nesse caso Jay Baruchel e Evan Goldberg, usaram de tudo para fazer o leitor entender o quão violenta a situação é.
Extrato do roteiro do filme “Os Brutamontes” (2011), escrito por Jay Baruchel e Evan Goldberg.
Se pegarmos o roteiro de “Os Brutamontes” como exemplo, a onomatopeia “CRRRNCH” enfatiza o quão forte o ataque foi. Em vez de só falar “ele cai”, eles descreveram o capacete e as luvas voando para fora e caindo no gelo. Eles basicamente estão fazendo uma narração para rádio. O melhor de tudo é que você entende tudo mesmo se não souber as regras do jogo. Como o filme é sobre violência, o foco fica na violência.
Um outro exemplo que eu gosto é do filme “Desafio no Gelo”, escrito por Eric Guggenheim. Esse é baseado numa história real, então o foco do filme é mais no drama.
Extrato do roteiro do filme “Desafio no Gelo” (2004), escrito por Eric Guggenheim.
Enquanto a história mais violenta exagera nos adjetivos e na onomatopeia, a versão mais dramática é simples e mais direto ao ponto. Na segunda frase, eles usam adjetivos rápidos para demonstrar o quão rápido os jogadores são (sharp, quick). Dá até para ver o filme na cabeça, e como o roteiro está descrevendo isso de um jeito calmo e controlado, você capta a emoção da cena perfeitamente.
Outro exemplo de “Desafio” é o momento mais emocionante do filme, a jogada final, e o roteirista está tirando todo o drama possível da cena. E note que quando algo importante e incrível acontece, ele escreve tudo com letras maiúsculas, ou sublinha um adjetivo. Esse é o tipo de roteiro que quando você lê, não tem como não celebrar junto.
Qual o futuro para os filmes de hockey?
Infelizmente, assim como quase todos os filmes sobre esportes, esse tipo de história está, pelo momento, “na geladeira”, já que é difícil filmar um filme de esporte durante uma pandemia. Mas assim que as coisas melhorarem, acho que vamos ver uma nova onda de filmes sobre hockey, em vez de filmes que apenas usam hockey como cenário. Os americanos começaram a apreciar mais os esportes durante a pandemia, e serviços de streaming como Netflix estão fazendo dez filmes sobre cada esporte, tanto que até a própria Disney fez umreboot de “Nos Somos os Campeões” para o Disney+. O problema é que esse reboot continua pintando o hockey como um esporte ou para crianças ou de menos importância quando comparado ao beisebol e ao futebol americano.
Que filme de hockey você escreveria?
Eu com certeza tentaria fazer algo com o hockey feminino, especialmente porque já tá na hora! Mulheres jogando hockey e uma ideia tão simples e tão óbvia que até os Simpsons fizeram uma história em 1994 sobre a a Lisa jogando hockey (apesar que, assim como várias outras histórias, o episódio acaba sendo mais sobre a rivalidade entre Lisa e Bart do que sobre o jogo de hockey mesmo). Já tá na hora, né?
Há algumas semanas, a NHL e a ESPN firmaram um novo acordo pelos direitos de transmissão da liga até o ano 2028 nos Estados Unidos. Conforme reportado na véspera do anúncio, trata-se de um acordo não-exclusivo, mas pelo qual a ESPN se torna principal parceira da liga na mídia americana.
O contrato inclui direitos de transmissão para os canais ESPN (cabo), ABC (TV aberta) e plataformas de streaming nos Estados Unidos pelos próximos sete anos. A partir da temporada 2021-22, quatro das sete finais da Stanley Cup nesse período terão cobertura exclusiva na ABC. Além disso, junto com a ESPN, os canais também transmitirão metade dos Playoffs da Stanley Cup a cada temporada. Além disso, 25 partidas da temporada regular terão transmissão nacional exclusiva na ESPN ou ABC.
Já para os serviços de streaming, serão mais de mil jogos disponibilizados por temporada para assinantes do ESPN+ nos Estados Unidos. As plataformas digitais ESPN+ e Hulu (disponíveis nos EUA) ainda disponibilizarão nacionalmente 75 partidas exclusivas durante cada temporada regular. Com isso, a NHL.TV deixará de existir para o público americano, e o assinante do ESPN+ poderá adquirir um pacote completo para acompanhar ainda mais jogos da liga.
O acordo também inclui alguns eventos especiais como jogos de abertura de temporada, NHL All-Star Game e Skills Challenge. Por fim, o release da emissora confirmou os direitos internacionais na América Latina, Caribe e partes da Europa também como parte do acordo. Com essa aquisição, portanto, espera-se uma maior cobertura da NHL para o público brasileiro a partir da próxima temporada.
Grande passo para a #NHLnaESPN
“O anúncio do novo acordo entre ESPN e NHL é de grandíssima importância pra ESPN Brasil,” comentou Lucas Hanashiro, produtor dos canais ESPN, para o NHeLas. “Começaremos a aproveitar de uma cobertura muito mais extensa dos Estados Unidos e que nos ajudará de diversas formas, a começar pelas transmissões. Agora com a sede de Bristol assumindo os sinais, o trabalho de produção interno aqui no Brasil será muito facilitado.”
Ainda não houve um anúncio oficial sobre a quantidade exata de transmissões entre TV e digital durante a próxima temporada. Contudo, a expectativa é de que o número de transmissões para o mercado brasileiro acompanhe o da TV americana. Atualmente, a ESPN Brasil exibe até cinco partidas ao vivo da NHL por semana, todas acessíveis pelo ESPN App (serviço disponibilizado aos assinantes da emissora na TV paga) e parte delas também na TV, com narração em português.
Apesar de não ter feito parte do catálogo da ESPN americana desde 2004, quando o último acordo com a emissora nos EUA chegou ao fim, a parceria exclusiva entre NHL e ESPN no Brasil remonta a desde os anos 1990. Mas não foi até a temporada 2010-11 que a cobertura nos canais começou a tomar a forma que vemos hoje por aqui. Ano após ano o público de hockey se tornava maior e mais exigente, enquanto a emissora se via presa ao acesso limitado a jogos e imagens para pôr no ar. Isso tudo muda daqui para frente.
“Teremos acessos a highlights, matérias e todo tipo de conteúdo que veiculará na ESPN matriz, junto de um pacote gráfico que abrirá muitas opções para nossa equipe daqui,” disse Hanashiro. “Conseguiremos dar uma identidade muito mais firme para o produto, além de ter acesso a conteúdos editoriais que não tínhamos antes. O que antes era uma das transmissões mais complexas e trabalhosas agora passa a ser mais rica e prática. Sem palavras mesmo pro que significa pra gente.”
NHL invadindo os streamings?
As possibilidades não param aí. Um novo serviço de streaming da Disney que chega em junho à América Latina talvez ofereça ainda mais jogos ao vivo e conteúdo exclusivo. O Star+ (ou Star Plus) será um serviço parecido com o Disney+, porém independente, e com o objetivo de trazer um conteúdo diferenciado e menos infantil das marcas de propriedade Disney. Além de filmes e séries, o Star+ também vai contar com conteúdo esportivo da ESPN ao vivo e sob demanda. Não há confirmação ainda se a NHL estará de fato no Star+, mas a chance existe. (Especialmente quando essa é a imagem usada pela própria Disney na apresentação do produto).
Quanto à disputa pelo mercado americano, as negociações ainda não chegaram ao fim. Uma parte dos direitos da NHL nos EUA segue à venda, e a NBC é a principal candidata a levar o “pacote B” da liga. A negociação desses direitos restantes é crucial para as finanças da NHL nos próximos anos, já que o impacto da pandemia pode se prolongar por mais algumas temporadas.
Mesmo assim, a NHL se mostrou muito contente com o anúncio do novo acordo, e não só pelos US$ 2,8 bilhões que ele significa para a liga nos próximos anos. É impossível subestimar o alcance da marca ESPN nos Estados Unidos e no mundo, e a NHL sabe disso.
“Essa parceria da maior liga de hockey no mundo e as plataformas da The Walt Disney Company é uma grande vitória para nossos fãs e nosso esporte,” disse o comissário da NHL Gary Bettman no dia do anúncio. “Não somente esse acordo revolucionário de sete anos permitirá à NHL se beneficiar dos incomparáveis poder, alcance e influência da The Walt Disney Company e ABC/ESPN, ele marca um novo padrão de entrega do nosso jogo para os fãs mais apaixonados e tecnológicos dos esportes nas formas como eles agora demandam e nas plataformas que eles usam.”
Na noite de sábado (20), as universidades de Wisconsin e Northeastern se enfrentaram na decisão do hockey feminino pela NCAA. Com um gol no início do overtime, Wisconsin garantiu o título pelo segundo ano consecutivo e pela sexta vez na história do programa.
Nos últimos vinte anos do torneio, somente uma outra universidade também ergueu o troféu seis vezes: Minnesota. Além disso, as Badgers também estão empatadas com Minnesota pelo maior número de aparições na final nacional do hockey universitário feminino, com nove cada.
O torneio da Divisão I da NCAA aconteceu este ano em Erie, no estado da Pensilvânia, e teve início no dia 15 de março. No atual formato da competição, as quatro campeãs de cada conferência nos EUA (WCHA, Hockey East, ECAC e CHA) se qualificam automaticamente, enquanto outras quatro equipes são selecionadas por um comitê da NCAA. As oito universidades são então ranqueadas e organizadas em um formato mata-mata até a decisão.
A primeira colocada e campeã da Hockey East, Northeastern, vinha de uma impressionante campanha de 20-1-1 na temporada. Com um time repleto de boas jogadoras, incluindo a goleira do ano e finalista do prêmio Patty Kazmaier (dado anualmente à melhor jogadora universitária nos EUA), Aerin Frankel, as Huskies eram grandes favoritas em seu caminho até a final. Nas quartas, a equipe venceu a Universidade Robert Morris por 5-1, e em seguida superaram Minnesota-Duluth na prorrogação, por 3-2.
Por sua vez, Wisconsin foi campeã da WCHA, com uma campanha 14-3-1, e ficou com o segundo lugar no ranking nacional. As Badgers passaram pela Providence College nas quartas de final com uma vitória por 3-0, e em seguida venceram as rivais de conferência de Ohio State por 4-2. A equipe também contou com uma finalista do Patty Kazmaier no elenco, Daryl Watts, peça-chave do ataque de Wisconsin durante toda a temporada.
Badgers 2, Huskies 1 (OT)
Os primeiros 40 minutos não viram as redes balançar nenhuma vez. As goleiras Kennedy Blair (Wisconsin) e Aerin Frankel (Northeastern) fizeram nove defesas cada no primeiro período, e, respectivamente, seis e onze no segundo.
Foram três power plays na segunda etapa para Northeastern, mas o time não conseguiu converter em nenhuma das vezes.
Aos 11 minutos do terceiro período, Makenna Webster abriu o placar e colocou Wisconsin na frente.
Dali até o final do tempo regulamentar, o jogo tomou um ritmo ainda mais agitado com ambas as equipes buscando o segundo gol. Ao todo, no terceiro período, Wisconsin teve mais 13 disparos a gol contra 9 de Northeastern.
Três períodos não foram suficientes, e as equipes se dirigiram ao overtime para decidir o título na “morte súbita”.
No minuto inicial, a atacante Miceala Sindoris (Northeastern) teve um tiro bloqueado por Chayla Edwards. Esse foi o único chute das Huskies na prorrogação. Em seguida, Frankel defendeu duas tentativas do ataque de Wisconsin, e Northeastern pediu um tempo para se organizar.
Aos 3:16 do overtime, a veterana Daryl Watts selou a vitória para as Badgers ao marcar de trás do gol, usando uma adversária como tabela para direcionar o puck para dentro.
Watts disse que viu a goleira se posicionar e decidiu tentar fazer o puck quicar nela e entrar. Ela acabou atingindo a defensora Megan Carter no final, mas o resultado foi como o esperado, para totalizar 19 gols na temporada. Em seu último ano, Watts chega ao total de 240 pontos no hockey universitário, a 14ª maior marca da NCAA.
“Foi como um roteiro,” disse o técnico de Wisconsin, Mark Johnson, sobre o gol de Watts. “Se você pudesse escrever (o roteiro) e escolher alguém para marcar o gol da vitória, seria ela.”
Daryl Watts começou sua carreira na NCAA na Boston College, onde se tornou a primeira caloura a vencer o Patty Kazmaier, em 2018. Ela decidiu se transferir para Wisconsin em 2019, e se juntou ao time na temporada 2019-20.
“Uma das razões pelas quais ela quis vir para Wisconsin ao escolher uma escola era a oportunidade de vencer um campeonato nacional,” acrescentou Johnson.
Johnson é atualmente o técnico mais vitorioso na história da NCAA, com 539 vitórias ao todo. Com seu sexto troféu nacional ele ultrapassa Shannon Miller pela marca de mais títulos no hockey universitário feminino nos EUA.
Enquanto a temporada do hockey universitário chega oficialmente ao fim para as mulheres, o torneio masculino se prepara para começar. Na noite de domingo (21), as 16 universidades selecionadas para brigar pelo campeonato nacional serão anunciadas pela NCAA. Após as primeiras rodadas do bracket, as quatro equipes finalistas do bracket disputarão o Frozen Four em Pittsburgh, que acontece nos dias 6 e 8 de abril.
Há exatamente um ano, o comissário da NHL, Gary Bettman, anunciou que a liga entraria em pausa por tempo indeterminado em razão do crescente número de casos de COVID-19 na América do Norte. A decisão veio no dia 12 de março de 2020, data que viu também diversas ligas e associações esportivas em todo o planeta cancelar desde jogos decisivos a reuniões e eventos de pré-temporada.
Este movimento se desencadeou na noite anterior, uma quarta-feira, quando Rudy Gobert (Utah Jazz, NBA) testou positivo para o novo coronavírus. Quase que de imediato, a NBA suspendeu indefinidamente o resto de sua temporada regular. A partida preste a acontecer na liga foi interrompida e milhares de torcedores foram evacuados da arena.
“Eles instantaneamente entraram em modo de paralisação,” comentou Bettman, em uma coletiva de imprensa na tarde de ontem (11). “Nós não queríamos passar por aquela situação. Não queríamos um prédio cheio de pessoas. Nós queríamos ser um pouco proativos.” Era claro para Bettman que a liga logo também teria que lidar com casos positivos de COVID.
Naquela mesma noite de 11 de março de 2020, a NHL concluiu suas últimas cinco partidas com as arenas lotadas. Com o avanço do novo vírus nas semanas que antecederam a pausa, a liga já se estruturava para tomar as medidas necessárias para a segurança de seus jogadores, funcionários e fãs. Vimos a limitação do acesso da mídia aos vestiários, e estávamos nos acostumando à ideia de jogos sem torcida em algumas cidades. (Eu mesma ainda tinha planos de ir a um jogo da NBB aqui em São Paulo naquele final de semana – a liga brasileira anunciou no dia seguinte que os próximos jogos aconteceriam com portões fechados).
Bettman e o comissário adjunto da NHL, Bill Daly, convocaram uma reunião naquela quinta-feira (12) com o Conselho Executivo da liga, e não muitas horas depois foi anunciada a pausa. Desde então, acompanhamos um ano inteiro de decisões e mudanças na NHL, lidando com cada desafio conforme eles aparecem. Ninguém sabia como a situação iria se desenvolver a partir daquele fatídico 12 de março. Até hoje, um ano depois, ainda há incógnitas, não só nos esportes, mas em todos os aspectos de nossas vidas em meio à pandemia.
“Nosso objetivo e nosso trabalho era conduzir (a situação) da melhor forma possível, entendendo que saúde e segurança precisavam ser a preocupação nº1. Foi nosso foco 365 dias atrás. É nosso foco e prioridade nº1 hoje.” comentou Bettman.
“Mesmo hoje, é quase difícil de acreditar que estamos fazendo isso há um ano. E ainda não acabamos,” Bettman comentou. Ao examinar todos os meses que se passaram desde a pausa na temporada anterior, o comissário exaltou a cooperação com médicos e especialistas. Da mesma forma, mencionou a colaboração com o governo dos estados/províncias e cidades que abrigam cada uma das franquias.
No início desta temporada reduzida, até o seu segundo mês, a NHL lidou com algumas complicações face ao avanço do vírus. Porém, com novos protocolos e medidas em vigor, parece caminhar para uma situação de maior controle e segurança para todos. Bill Daly ofereceu “bastante crédito” à NHLPA e aos jogadores ao aderir aos novos protocolos necessários. No dia 12 de fevereiro, a lista de jogadores no Protocolo de COVID da liga atingia um pico de 59 pessoas. Um mês depois, eram apenas quatro nomes listados, dentre todas as equipes.
Ainda com alguns desafio à frente, pouco a pouco, a liga acredita em um retorno a alguma normalidade. “Conforme olhamos adiante, mais da metade de nossos clubes têm fãs nas arenas, em um número limitado,” disse Bettman. “Ao vermos esse número aumentar, contanto que a pandemia coopere e tenhamos mais e mais vacinações, estamos otimistas de que ao irmos em direção aos playoffs, o número de clubes e o número de pessoas continue a crescer. Vamos continuar nos ajustando conforme o necessário para completar a temporada regular e conduzir os playoffs. E nós seguimos otimistas de que possamos estar bem próximos, se não totalmente de volta ao normal para o começo da próxima temporada.”
Gary Bettman e Bill Daly durante a coletiva de imprensa desta quinta-feira (captura de tela/NHL.com)
Mudanças que não vieram para ficar
A atual temporada 2020-21 começou na metade de janeiro, e teve seu calendário regular reduzido de 82 para 56 jogos. Além do menor número de jogos, a NHL também precisou realinhar suas divisões em razão das restrições de viagem entre Estados Unidos e Canadá.
Vimos os 31 times se dividirem em quatro novos grupos: Leste, Central, Norte e Oeste. As equipes jogam apenas em sua própria divisão até o segundo round dos playoffs, e isso serviu para reviver algumas antigas rivalidades e também oferecer um produto inédito com os confrontos só entre times canadenses.
Apesar dos diversos apelos deste formato quase 100% divisional, Bettman esclareceu na coletiva que o realinhamento não deve se estender além dessa temporada. “Nós fizemos o que precisava ser feito se quiséssemos jogar este ano,” disse o comissário da liga. “Nós entendemos o problema da fronteira entre Canadá e Estados Unidos e criamos a Divisão Norte. Poderemos focar mais em confrontos divisionais no futuro, porém eu não tenho certeza se isto se manteria em uma agenda de 82 jogos.
“Funcionou bem este ano. Eu não vejo isso se propagar. Fãs nos EUA querem ver Connor McDavid, fãs no Canadá gostariam de ver Sidney Crosby,” ele concluiu. Dessa forma, a única mudança que veremos a partir da próxima temporada será a já confirmada ida do Arizona Coyotes para a Divisão Central, deixando uma vaga para a chegada do Seattle Kraken na Divisão Pacífica.
Voltando a cruzar fronteiras
Na coletiva, tanto Bettman quanto Daly não se precipitaram ao falar dos planos para esta pós-temporada. Após as finais de divisão, na segunda rodada dos playoffs, será necessário que o vencedor do Norte enfrente uma das equipes americanas, e ainda não há decisão sobre a melhor forma de realizar estas partidas.
Dadas as atuais restrições de viagem e de público em eventos no Canadá, tudo ainda é muito incerto. Por isso, espera-se que até chegar a hora de disputar o terceiro round, haja menos limitações para que os jogos aconteçam. Daly afirmou estar em contato com oficiais do governo canadense para discutir as possibilidades. “A primeira vez que o time canadense teria que viajar para fora do Canadá ou vice-versa, um time dos EUA entrando no Canadá, seria em meados de junho, então temos algum tempo para lidar com isso,” ele disse.
Após a realização dos jogos do NHL Outdoors em Lake Tahoe no mês passado, a liga também voltou a atenção para a possibilidade de retomar seus eventos especiais na próxima temporada. Entre eles, os jogos na Europa, que não foram possíveis no ano anterior por conta das restrições da COVID-19, tanto na América do Norte quanto no velho continente. Daly disse que “se não pudermos, por qualquer motivo, relançar esses jogos no próximo outono, certamente espero que possamos fazê-lo na temporada seguinte.”
A NHL e NHLPA também vêm discutindo sobre as condições do retorno aos Jogos Olímpicos de Inverno. A próxima edição do evento está marcada para fevereiro de 2022, em Pequim, na China. “O COI agora está ocupado em termos de finalizar os planos para o que será (Tokyo 2020) e, ainda que eles tenham notado essa questão – o hockey e a potencial participação da NHL e seus jogadores – em seu radar e que eles precisam lidar com isso, ainda não estão em posição de fazê-lo concretamente,” afirmou Daly. Uma vez finalizada a preparação para as Olimpíadas deste ano, o Comitê deve se engajar novamente com a IIHF para retomar as conversas sobre a participação dos NHLers.
Os principais pontos a se acordar entre liga, PA, COI e Federação envolvem algum tipo de seguro e o custo disso para os participantes, além dos custos de viagem e acomodação dos jogadores, suas famílias. Espera-se também que NHL e NHLPA briguem pela obtenção de algum direito de uso de imagem e vídeo dos eventos olímpicos.
As próximas grandes estrelas
Bettman e Daly não se prolongaram a falar do NHL Draft deste ano ou das possíveis mudanças no formato da loteria.
O comissário causou certa polêmica ao afirmar que “não acredita haver tanking na NHL.” Este termo se refere a um mecanismo pelo qual um time realiza uma temporada ruim a fim de terminar entre os últimos colocados e garantir uma escolha alta no draft.
As mudanças propostas à loteria, e que devem ser votadas pelo Conselho Executivo da NHL em breve, poderiam limitar a até duas as vezes em que um mesmo time receberia uma das primeiras escolhas num período de cinco anos. Além disso, um participante da loteria do draft não poderia subir mais que dez posições na ordem das escolhas. Por fim, no lugar das três primeiras picks, apenas as escolhas 1 e 2 seriam sorteadas entre os times participantes.
Quanto à data do 2021 NHL Draft, o comissário adjunto Bill Daly afirmou que ainda não há decisão se o evento precisará ser adiado. No entanto, ele acredita que provavelmente continuará marcado para os dias 23 e 24 de julho deste ano.
O principal argumento para um possível adiamento é o de que muitos jogadores que participariam do draft não puderam competir regularmente este ano. Da mesma forma, não podendo viajar e comparecer a muitos jogos, os scouts não tiveram o mesmo acesso via vídeo para fazer suas avaliações finais. Contudo, mais e mais observamos as principais ligas de hockey funcionando em meio à pandemia, tanto na América do Norte quanto na Europa. Muitos jogadores puderam encontrar times em atividade para jogar e continuar seu desenvolvimento. Daly afirmou que “é certamente uma situação imperfeita, mas nós vimos lidando com situações imperfeitas.”
Assim como muitos se mantêm otimistas quanto à volta à normalidade (dependendo do país em que você vive), autoridades da NHL acreditam que não só os eventos planejados num futuro próximo devam ocorrer sem maiores complicações, mas também a próxima temporada já deve se parecer muito mais com o que estávamos acostumados. Ainda, os preparativos para times como o New York Islanders e o Seattle Kraken também estão em dia para abrir a próxima temporada em suas novas arenas.
O plano, segundo Bettman, é retomar o calendário de 82 jogos a partir de outubro deste ano, para abrir a temporada 2021-22. “Estamos esperançosos, estamos planejando, estamos otimistas, e acreditamos sermos capazes de começar a próxima temporada em dia.
“Há uma luz no fim do túnel, mas essa não é a hora de baixar nossa guarda ou reduzir nossa vigilância.”
Segundo reportado hoje (09) por Chris Johnson, da Sportsnet (Canadá), a NHL e a ESPN americana parecem ter entrado em um acordo pelos direitos de transmissão da liga de hockey nos Estados Unidos a partir do próximo ano.
Fontes na própria liga e na indústria televisiva norte-americana teriam confirmado um novo acordo, não-exclusivo, de sete anos entre as duas partes. A ESPN se tornaria assim uma das parceiras da NHL na mídia a partir da próxima temporada. Espera-se que a NBC detenha a outra parte destes direitos, mas mais companhias também podem estar envolvidas em negociações.
Contudo, a liga ainda não confirmou tal acordo, nem detalhes financeiros foram divulgados até o momento da publicação desta notícia. Além disso, segundo Johnson, a ESPN deve receber exclusividade para transmitir quatro Finais da Stanley Cup entre os anos de 2022 e 2028, além dos direitos de streaming para a Disney.
Atualmente, a NBC detém direitos exclusivos de transmissão da NHL nos Estados Unidos. O acordo que gera 200 milhões de dólares anualmente para a liga chega ao fim este ano, após a conclusão da atual temporada.
O que isso significa pro Brasil?
Ainda não é possível determinar como ou o quanto este novo acordo afetará a cobertura da NHL no Brasil. As transmissões nacionais como vemos hoje acontecem desde a temporada 2010-11 nos canais ESPN, e atualmente a emissora tem pouca liberdade para disponibilizar muitas partidas ao vivo na televisão e em seu próprio serviço de streaming.
Pode-se especular que, com um acordo entre NHL e ESPN nos EUA, as transmissões nos canais Disney no Brasil se tornem mais frequentes e até mais variadas, como vemos acontecer com outras grandes ligas profissionais norte-americanas. Este seria um importante passo para não só a cobertura do esporte no país, mas também para sua propagação em nível nacional.
Atualmente, as opções legítimas para o fã brasileiro de NHL acompanhar a liga são poucas e muitas vezes inacessíveis, seja pelo valor ou pelo idioma. Uma vez confirmada a parceria, diversas opções se abrem para vermos cada vez mais o hockey crescer por aqui. Torcemos para que este novo acordo traga muitas transmissões ao público brasileiro, e, eventualmente, novos fãs para a nossa comunidade.
Costuma-se dizer, mesmo que de brincadeira, que onde menos se espera “sempre tem um brasileiro.” Sorte a nossa quando este brasileiro em questão também é fã de hockey e nos permite espiar por trás da cortina e acompanhar de perto os bastidores da NHL.
Jefferson Mizuno, 35, é natural de São Paulo, mas hoje mora em Toronto, no Canadá. Ele integrou uma das equipes mais cruciais para o funcionamento da bolha da Conferência Leste da NHL durante os Playoffs da Stanley Cup, e contou um pouco de sua experiência trabalhando lá.
Se você nos acompanhou durante os últimos meses no Instagram, deve ter visto alguns dos registros feitos por este “insider” nas primeiras duas rodadas da pós-temporada. (Caso contrário, aproveite para nos seguir agora mesmo e não perder mais nenhum conteúdo exclusivo!)
Jefferson chegou no Canadá há alguns meses, no meio da pandemia. “Eu consegui entrar porque tenho o documento de residência. Quando cheguei aqui, comecei a trabalhar em construção, aquelas coisas” ele contou. Mas logo um anúncio de vaga para cleaner na Scotiabank Arena chamou sua atenção no WhatsApp. “Achei estranho, porque ia começar a Stanley Cup lá. Eu apliquei e foi muito fácil, eles me ligaram e eu já comecei a trabalhar.”
A princípio, Jeff não imaginava que trabalharia no centro da operação montada pela NHL para o trazer o hockey de volta após a pausa que encerrou a temporada regular. “Eu não sabia que ia trabalhar lá no meio mesmo, no coração da coisa,” ele relembrou a surpresa ao descobrir que ia ver de perto o esporte e o time que tanto gostava.
“Comecei a acompanhar (hockey) desde 2015, e virei um fã dos Leafs. Eu nunca pensei que eu ia gostar de um esporte assim, ainda mais hockey que, pelo menos pra gente ali no Brasil, é uma coisa tão distante.”
Jeff em frente ao logo do Toronto Maple Leafs (Foto cortesia de Jefferson Mizuno)
A função em si era de limpeza. Os protocolos para o retorno da liga previam um ambiente em constante desinfecção para evitar a propagação do novo coronavírus. Isso significava, em suma, passar álcool em tudo, o tempo todo.
“Tinha umas coisinhas que eram desnecessárias, mas o verdadeiro serviço nosso era entrar nos bancos de reservas, no final de cada período, e dar uma geral lá. Ali sim eu acho que era importante — porque o pessoal cospe no chão, sua — e dentro dos vestiários.”
Quando aceitou o trabalho, Jeff não ficou tão preocupado com o risco de exposição ao vírus. Apesar de poder sair da bolha, diferentemente dos jogadores e outros funcionários dos times, por exemplo, os trabalhadores da equipe de limpeza também eram constantemente testados. “A gente já ficou sabendo que teria que fazer exame todos os dias lá, então isso já era um alívio; tinha dias que eu tinha que fazer dois turnos e cheguei a fazer três exames no mesmo dia.”, relembra.
“Pela organização que eu vi lá dentro, aqui na bolha de Toronto, eu vi que realmente ia ser difícil acontecer alguma coisa. Mesmo a gente, que sai, volta pra casa, o resultado (do teste) saía em 40 minutos. Na hora já pegava, cortava, via as pessoas que estavam junto também.”
Além disso, Jeff contou como funcionava a proteção da arena. “Os protocolos de segurança eram de outro planeta. Ninguém entra, era impossível. E lá dentro também ninguém podia ficar perto um do outro, aonde você ia tinha marcações, no chão, e pouquíssima gente trabalhando.”
Jeff trabalhando na limpeza de um dos bancos antes dos jogadores retornarem. (Captura de tela de um episódio de “Inside The Bubble“/NHL)
Todo o cuidado refletiu no sucesso da NHL em concluir a temporada 2019-20 e coroar um vencedor da Stanley Cup sem registrar nenhum caso de COVID-19 entre os jogadores participantes. No entanto, talvez por pouco este esforço não foi por água abaixo ainda nas rodadas iniciais.
“Essa é bomba.” Uma de quantas que nunca iremos descobrir? “O motorista dos Flyers estava com COVID, só que isso aí foi abafado e ninguém falou, né? Aí fizeram o teste com todos os jogadores que estavam no ônibus, com todo mundo. E, ainda bem, não deu nada. Mas o motorista falhou no teste, no caso, aí ele teve que ir pra casa. Perdeu o job, mas que bom que não contaminou ninguém!”
O acesso aos jogadores era mínimo durante as horas de trabalho na bolha. Os funcionários não tinham autorização para ter algum contato ou conversar, “mas a gente sempre falava um ‘oi’, ‘bom dia’, e eles respondiam na medida do possível.
“Aliás, o Crosby é o mais gente boa,” Jeff recordou o encontro com o capitão do Pittsburgh Penguins. “Teve um jogo contra Montreal, não lembro qual foi… e ele é sempre o último a entrar no gelo e o último a sair. Eu fiquei esperando ele sair porque (pensei que aquela seria) minha única oportunidade, era o único jogo (dos Penguins) que eu ia fazer. Então ele passou e eu troquei umas duas palavrinhas com ele, e ele foi muito atencioso, mesmo estando puto porque tinha perdido o jogo.”
Mesmo que as interações com os jogadores dentro da bolha fossem limitadas, a equipe de limpeza estava sempre por perto e ao dispor. Aonde quer que fossem e no que quer que encostassem, era preciso higienizar logo em seguida.
“A gente era meio que babá deles nesse sentido. E os garotos são mimados, hein?”
Para Jeff, o sentimento de trabalhar na casa do Toronto Maple Leafs, ver o time que gosta de perto era também a realização de um sonho. “Todo mundo encarava como um trabalho mesmo, ‘tem que ir lá limpar o banco; tem que fazer hora extra; pô, tem que limpar o vestiário dos Leafs’ — que é um saco porque é todo de carpete, então passar o aspirador lá é fogo, e é gigante o vestiário -, mas pra mim era ‘que legal, vamo lá cara!’ Porque você entrar no gelo, ver os jogadores de perto assim, eu estava num sonho, e principalmente sendo (em Toronto).”
A emoção, no entanto, quase custou sua vaga ainda na rodada de Qualifiers.
“Deve ter sido o Jogo 4 de Leafs e Columbus Blue Jackets. (Tanto que Toronto estava) usando o vestiário dos Raptors, porque ele não era o mandante. Quando foi pro segundo período, eu estava lá porque eu estava limpando — quando eles saem do gelo tem que limpar porque fica cheio de gelo no chão e tem que passar um pano pra não ficar molhado. Quando eles estavam voltando eu falei um ‘vamo aê, pra cima dos caras, let’s go boys!’ E o Nylander até gritou também ‘yeah, let’s fucking go!’ (Eu respondi ainda) ‘yeah, man, let’s go!’ Eu comecei a bater na parede assim, não sei o que deu (risos).
O momento de torcedor não durou muito, mas foi o suficiente para chamar a atenção de um oficial que estava por lá. “Ele falou ‘cara, você não pode fazer isso aqui. Vai que os jogadores estão concentrados e eles perdem a concentração e tropeçam e caem… eu não quero você aqui embaixo mais.’ Chegou meu supervisor, falou comigo e eu perguntei (se já podia ir embora.) Eu pensei que tinha sido demitido.”
Por sorte, a fama de torcedor apaixonado salvou o emprego de nosso insider.
“Aí falaram que eu era brasileiro, (que estava) acostumado com futebol.” Além disso, o fato de que estava fazendo o seu melhor trabalho foi decisivo para que Jeff continuasse na equipe, afinal, ele queria participar de tudo que fosse possível.
“Tudo o que era escala que ninguém queria fazer eu me oferecia, porque eu queria estar lá. Então eles quiseram me manter e ‘passaram um pano’, mas quase que eu dancei.”
A motivação “extra” na volta para o período final, entretanto, parece que surtiu efeito nos jogadores de Toronto. A equipe superou um déficit de três gols, vencendo no overtime e forçando o Jogo 5 na série.
“Aquele jogo ninguém acreditava. Eu assisti ali embaixo, do lado dos zambonis, e foi uma festa lá, parecia que tinha ganhado a Stanley Cup,” ele lembrou. Infelizmente, o resultado não ecoou na partida seguinte, que resultou na eliminação do time da casa. “Não é fácil ser o fã do Leafs não, mas quando eu escolhi eu já sabia.”
Só podemos imaginar se o resultado seria outro caso Jeff estivesse lá no Jogo 5 para oferecer algumas palavras de incentivo ao time.
Um dos gols utilizados em partidas (Foto cortesia de Jefferson Mizuno)
Com Toronto já fora da competição, e sem poder vibrar e comemorar ao lado do gelo, Jeff aproveitou um momento único para demonstrar sua torcida e lealdade a seu time, mesmo que em silêncio. “Eu dei uma encarada no Marchand, que era o meu sonho! Quando eu vi ele passando, os Bruins estavam voltando (do gelo), e eles tinham ganhado o jogo. Ele passou e eu olhei pra ele e dei uma encarada (risos).”
Apesar da rivalidade, Boston foi uma equipe que marcou positivamente sua experiência na bolha. “O time dos Bruins é sensacional. Quando eles entram no gelo, arrepia. No vestiário, a gritaria que eles arrumam lá não é brincadeira. Eles começam a bater os sticks no chão, e o pessoal no outro vestiário escuta porque eles estão ali na porta. O vestiário dos Raptors e dos Leafs estão perto um do outro, então eles intimidam mesmo.”
Após um jogo entre Boston e Carolina no primeiro round, não foi o barulho feito pela equipe que surpreendeu Jeff, mas sim o tamanho de um jogador em particular. “(Os jogadores dos Bruins estavam) saindo, e a gente esperando pra limpar o vestiário. Eles estavam de terno e tudo, passando pelo pessoal. E eu me distraí, olhei pro outro lado, e quando eu olho de novo eu vejo, na minha altura, só uma bunda. Quando eu olho pra cima é o Chara! Ele é gigante, é impressionante a altura do cara.”
Foram muitos momentos marcantes e experiências únicas que Jeff passou na bolha, mas suas memórias não foram tudo que ele levou de seu tempo trabalhando lá.
“No começo, (os registros eram) totalmente liberado, podia tirar foto, podia assistir aos jogos,” Jeff contou sobre a liberdade que tinha para postar conteúdo de dentro da bolha. “Aí depois eles proibiram, proibiu foto, vídeo, só que eu continuei clandestinamente (risos) porque foi mais forte que eu.”
O NHeLas e seus seguidores agradecem!
E os souvenirs não ficaram restritos ao rolo da câmera. Pucks, sticks, entre outros objetos deixados para trás pelos times agora são parte da coleção pessoal de hockey memorabilia de Jeff.
“Estou redecorando a minha casa (risos). Eles estavam deixando tudo lá, principalmente quando foi acabando. Ficou muita coisa pra trás e, como a gente era da limpeza, ou joga fora ou pega. Sticks eu tenho um do Weber, e por sorte achei um inteiro, porque o cara quebra tudo com aqueles slapshots dele! Achei um sobrevivente,” Ele relatou, contente.
Durante o segundo round, todos na bolha de Toronto se preparavam para encerrar as atividades por lá. Isso porque as Finais de Conferência e Final da Stanley Cup seriam disputadas todas em Edmonton.
Jeff sentiu que, como estava quase no fim do período de trabalho, os responsáveis e supervisores das equipes, e a própria NHL, estavam preocupados com os funcionários que tinham cada vez mais tempo livre, já que o número de equipes e jogos era reduzido a essa altura da competição. Isso resultou numa restrição das liberdades que os trabalhadores tinham lá dentro.
“Como estava acabando, eles ficaram com medo do pessoal relaxar. Antes tinha oito times e depois tinha dois só, então tinha bastante tempo vago. Começaram a ficar bem no nosso pé, mas a gente fez o nosso serviço lá direitinho. O que eles bateram na tecla mesmo foi para não assistir os jogos lá em cima mais, na arquibancada, acho que porque (pegaram um funcionário dormindo lá).
“Mas deu certo, e no final foi muito legal também! Estava todo mundo muito orgulhoso e o pessoal da NHL, o tratamento que eles davam pra gente lá era sensacional, eles reconheciam ali que a gente estava na linha de frente.”
A liga de fato não poupou elogios e agradecimentos a todos os trabalhadores que possibilitaram a execução destes playoffs. Na série de vídeos produzidos durante os jogos, “Inside the Bubble”, esse sentimento fica bem claro.
Já estamos a menos de 50 dias para uma possível data de início da nova temporada, no entanto a NHL ainda não confirmou detalhes sobre seus planos para 2021. Especula-se que os times voltem a jogar em suas respectivas arenas, sem fãs, e que o calendário vise reduzir o risco de exposição ao vírus para os jogadores.
Cogita-se também realinhar as divisões de modo a trabalhar com as restrições de viagem entre Estados Unidos e Canadá, e ainda não foi descartada a possibilidade de bolhas em diferentes cidades, em um primeiro momento. É difícil prever a evolução da pandemia nos próximos meses, e a liga espera chegar à melhor solução para realizar uma temporada em segurança.
Sobre suas expectativas para a próxima temporada, Jeff afirmou que não sabe o que esperar, “mas provavelmente acho que eles vão manter o mesmo protocolo.” Uma coisa é certa, se houver outra oportunidade em Toronto de trabalhar dentro da bolha, a NHL pode contar com ele.
“Com certeza! É muito legal ver as coisas acontecendo, eu sempre gostei dos bastidores, o por trás das câmeras. Você ver como funcionam as coisas, acho que a paixão pelo esporte só aumenta.”
A NHL se prepara para o retorno no dia 1º de agosto com os jogos do Stanley Cup Qualifiers. A rodada inicial da pós-temporada de 2020 vai contar com oito séries melhor-de-5 entre os 5º a 12º colocados de cada conferência, além de um turno todos-contra-todos entre os top-4 do Leste e do Oeste, nas respectivas hub cities (Toronto e Edmonton).
Serão ao menos 32 partidas distribuídas entre os primeiros nove dias da competição, com até 6 jogos podendo acontecer no mesmo dia. No entanto, podemos esperar um total ainda maior, já que a probabilidade de todas as séries acabarem depois de três jogos é baixa.
Com as equipes já instaladas nas “bolhas” no Canadá, a ansiedade cresce para a volta do melhor hockey do mundo. Desde o início da Fase 3 do retorno, protocolos estritos vêm possibilitanto uma retomada segura em meio a uma pandemia.
Na segunda-feira (27), a NHL divulgou que nenhum dos mais de 800 jogadores envolvidos na Fase 3 havia testado positivo para COVID-19 entre os dias 18 e 25 de julho. Foram administrados 4.256 testes nesse período, e 6.874 ao todo (desde 13 de julho), dos quais apenas dois foram positivos.
Entre 28 e 30 de julho, cada time jogará um amistoso contra outra equipe da sua hub city. Será a primeira vez que as equipes da NHL se enfrentam desde 11 de março, antes da temporada ser pausada.
(Reprodução/NHL.com)
Abaixo, você confere a agenda de jogos para a rodada qualificatória e das transmissões nos canais da ESPN Brasil. Esse post será atualizado conforme novos anúncios de horários e jogos na TV.
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(Todos os jogos estão no Horário de Brasília)
Sábado, 01/08
Conferência Leste
New York Rangers v. Carolina Hurricanes, Jogo 1, 13h00 Florida Panthers v. New York Islanders, Jogo 1, 17h00 Montreal Canadiens v. Pittsburgh Penguins, Jogo 1, 21h00
Conferência Oeste
Chicago Blackhawks v. Edmonton Oilers, Jogo 1, 16h00 Winnipeg Jets v. Calgary Flames, Jogo 1, 23h30
Domingo, 02/08
Conferência Leste
Philadelphia Flyers v. Boston Bruins, 16h00 (round-robin) | WatchESPN (em inglês) Columbus Blue Jackets v. Toronto Maple Leafs, Jogo 1, 21h00
Conferência Oeste
Arizona Coyotes v. Nashville Predators, Jogo 1, 15h00 St. Louis Blues v. Colorado Avalanche, 19h30 (round-robin) Minnesota Wild v. Vancouver Canucks, Jogo 1, 23h30 | ESPN 2 (em inglês)
Segunda, 03/08
Conferência Leste
New York Rangers v. Carolina Hurricanes, Jogo 2, 13h00 Washington Capitals v. Tampa Bay Lightning, 17h00 (round-robin) Montreal Canadiens v. Pittsburgh Penguins, Jogo 2, 21h00 | WatchESPN (em inglês)
Conferência Oeste
Winnipeg Jets v. Calgary Flames, Jogo 2, 15h30 Dallas Stars v. Vegas Golden Knights, 19h30 (round-robin) Chicago Blackhawks v. Edmonton Oilers, Game 2, 23h30
Terça, 04/08
Conferência Leste
Florida Panthers v. New York Islanders, Jogo 2, 13h00 Columbus Blue Jackets v. Toronto Maple Leafs, Jogo 2, 17h00 | ESPN Carolina Hurricanes v. New York Rangers, Jogo 3, 21h00
Conferência Oeste
Arizona Coyotes v. Nashville Predators, Jogo 2, 15h30 Calgary Flames v. Winnipeg Jets, Jogo 3, 19h45 Minnesota Wild v. Vancouver Canucks, Jogo 2, 23h45
Quarta, 05/08
Conferência Leste
New York Islanders v. Florida Panthers, Jogo 3, 13h00 Tampa Bay Lightning v. Boston Bruins, 17h00 (round-robin) Pittsburgh Penguins v. Montreal Canadiens, Jogo 3, 21h00
Conferência Oeste
Nashville Predators v. Arizona Coyotes, Jogo 3, 15h30 Colorado Avalanche v. Dallas Stars, 19h30 (round-robin) | ESPN 2 (em inglês) Edmonton Oilers v. Chicago Blackhawks, Jogo 3, 23h30
Quinta, 06/08
Conferência Leste
Washington Capitals v. Philadelphia Flyers, 17h00 (round-robin) Toronto Maple Leafs v. Columbus Blue Jackets, Jogo 3, 21h00
Conferência Oeste
Vancouver Canucks v. Minnesota Wild, Jogo 3, 15h30 Vegas Golden Knights v. St. Louis Blues, 19h30 (round-robin) Calgary Flames v. Winnipeg Jets, Jogo 4, 23h30
Sexta, 07/08
Conferência Leste
New York Islanders v. Florida Panthers, Jogo 4, 13h00 Pittsburgh Penguins v. Montreal Canadiens, Jogo 4, 17h00 | ESPN Toronto Maple Leafs v. Columbus Blue Jackets, Jogo 4, 21h00
Conferência Oeste
Nashville Predators v. Arizona Coyotes, Jogo 4, 15h30 Edmonton Oilers v. Chicago Blackhawks, Jogo 4, 19h45 Vancouver Canucks v. Minnesota Wild, Jogo 4, 23h45
Sábado, 08/08
Conferência Leste
Philadelphia Flyers v. Tampa Bay Lightning, 21h00 (round-robin)
Conferência Oeste
Vegas Golden Knights v. Colorado Avalanche, 16h00 (round-robin)
Domingo, 09/08
Conferência Leste
Boston Bruins v. Washington Capitals, 13h00 (round-robin) Columbus Blue Jackets v. Toronto Maple Leafs, Jogo 5, 21h00 | WatchESPN (em inglês)
Conferência Oeste
Dallas Stars v. St. Louis Blues, 16h00 (round-robin)
Quando o Brasil se associou à Federação Internacional de Hockey no Gelo, em 1984, provavelmente não se imaginava o exato rumo que o esporte tomaria aqui nas décadas seguintes. Apesar da menor familiaridade com o gelo, em comparação aos vizinhos ao sul, o país foi o primeiro na América do Sul a se vincular oficialmente à IIHF.
Trinta anos depois, brasileiros competiram pela primeira vez em um torneio internacional oficial de hockey no gelo, organizado pela Federação Mexicana do esporte e sancionado pela IIHF. Sem tradição na modalidade, nem estruturas permanentes disponíveis no país, a equipe brasileira terminou a competição em último lugar entre as cinco participantes, com quatro derrotas e um saldo negativo de 48 gols sofridos.
“Coincidiu com duas cidades, Rio e São Paulo, estarem com uma quadra de gelo e com pessoas que eram do (hockey) inline, ou já tiveram experiência no gelo, treinando de uma forma recorrente” disse Julio Baptista, um dos jogadores que participou desta primeira edição do torneio. “E aí juntou esse pessoal de SP e do Rio e fizemos essa primeira viagem, foi tudo novo. Uma galera que foi com a cara e a coragem de viver uma experiência nova, e foi bacana. A gente precisou passar por 2014 pra entender o que a gente precisava.”
“Depois que todos participaram, eu voltei para o Brasil e a primeira coisa que a gente precisava era de um treinador” recordou Alexandre Capelle, na época dirigente do hockey no gelo pela Confederação Brasileira de Desportos no Gelo.
No ano seguinte, o convite veio novamente para participar do torneio no México. Desta vez, com algum apoio também da CBDG, o país voltou para o segundo ano da competição e alcançou a primeira, e até hoje mais importante conquista brasileira no hockey no gelo: a medalha de bronze.
Para este capítulo do 10 for 10, o NHeLas conversou com o presidente do Brazil Ice Hockey e Federação Paulista de Hockey no Gelo, Alexandre Capelle, o treinador, Jens Hinderlie, e onze atletas da equipe brasileira que participaram do Pan-Americano de Hóquei no Gelo de 2015. Estes atletas são a prova de que é possível ter hockey no gelo no Brasil, e este é um sonho que está apenas começando.
Neste texto, damos voz a esses pioneiros. O NHeLas, acima de tudo, acredita no esporte e nas possibilidades que ele traz. Acredita que se pode quebrar a cultura mono-esportiva no Brasil e incentivar outras práticas, como a do nosso amado hockey. Essas são algumas das recordações daquela equipe sobre o torneio no México; relatos que vão além do jogo, e nos mostram as diversas facetas que uma competição assim pode ter.
(Todas as posições e títulos referem-se a 2015. As entrevistas foram levemente editadas para maior entendimento e clareza)
Bruno Gomes, atacante: Até hoje eu tenho certeza disso: em geral, a gente tinha melhores jogadores de hockey do que todos os outros times. Eles tinham melhores patinadores de gelo, (mas) de todos os jogadores da seleção brasileira, tinha pelo menos uns 10 que já tinham sido campeão mundial, tinha uma história ali de vice-campeão mundial, tinha vários jogadores de roller hockey muito, muito bons. E foi por isso também que a gente conseguiu chegar a esse nível nessa competição.
Luis Roberto Custódio, defensor: Foi um campeonato que deu um ânimo, né? Esse estar no gelo deu um ânimo a mais, e ao mesmo tempo uma tristeza no sentido de ‘por que eu não estava aqui antes?’ Mas foi muito bom, um sonho para todos praticamente, porque mesmo quem já era do gelo, quem tinha um contato maior com o gelo, estava ali, a grande maioria, num primeiro momento com a camisa do Brasil no gelo. Então de alguma forma era realmente um sonho do grupo, para seleção, técnicos…
Allen Ruane, goleiro: É bom esses torneios com todas as equipes da Latin America porque todo mundo é igual, não tem equipes tão fortes ou tão fracas também, nós só precisamos treinar um pouquinho mais.
Henrique Degani, atacante: Engraçado, quando a gente chegou lá, já tinha oito rinques de gelo na Cidade do México, se não me engano. Oficiais. A única coisa que não tinha era alguém que (tivesse) organizado um campeonato, porque todo mundo já podia participar. O meu ponto nem é a falta de quadra aqui no Brasil, o meu ponto é que a gente poderia ter organizado campeonato lá mais cedo ainda, né? A gente não fez nada de diferente, que não tenha sido feito no passado, que levou a gente a jogar esse campeonato.
Pedro Tonietto, goleiro: O sentimento que eu tive esse campeonato inteiro foi incrível. Eu joguei só cinco minutos, contra a Colômbia, num jogo antes do campeonato começar. E por mais que tenha sido só um jogo de ‘pré-temporada’, digamos assim, o fato de colocar a camisa da seleção e pisar no gelo, parece que eu nem sabia patinar mais. Pulei o banco e até chegar lá no gol acho que foram os dez segundos mais lentos da minha vida. Como é em todo jogo em que a gente fica nervoso, depois da primeira defesa as coisas fluem. Mas foi realmente uma experiência incrível, eu acho que nunca vou esquecer daqueles primeiros dez segundos com a camisa da seleção no gelo.
Yan Graciano, atacante: Eles meio que me fizeram o ‘bicho’ da seleção, porque eu era o mais novo, então eu tinha que carregar equipamento, encher água, mas ao mesmo tempo eu lembro que eu tinha 19 ou 18 anos, e, tirando o goleiro, era o que tinha mais experiência no hockey no gelo, então era meio estranho.
Jens Hinderlie, treinador: Eu sei que muitos deles estavam cansados e os quartos tinham esse cheiro horrível de hockey, que é o pior cheiro que há na Terra; equipamento de hockey, luvas, é simplesmente nojento. Eles tinham que colocar aquilo nos quartos e deixar tomando ar todo o equipamento, com os ventiladores… Esse torneio em si tem seu peso e leva um tempo para se preparar, e o pessoal conseguiu fazer isso num curto período, o que foi uma verdadeira prova de seu já bom condicionamento físico, mas também da determinação para aprender. Muitos deles só queriam aprender e isso é meio caminho andado para qualquer coisa.
Equipe do Brasil no Torneio Pan-Americano de Hockey no Gelo em 2015 (Foto cortesia de Alexandre Capelle)
Antes do torneio
Hinderlie: Em 2015, eu resolvi me mudar para o Brasil e, durante o processo, literalmente um mês antes da mudança, minha esposa, Gabriela, entrou em contato com a Confederação Brasileira de Desportos no Gelo e eles a puseram para falar com o (Alexandre) Capelle. Ela falou para ele da minha paixão pelo hockey e nos colocou em contato. A partir daí, o Capelle e eu começamos a nos falar e basicamente foi assim que começou.
Alexandre Capelle, dirigente do hockey no gelo (CBDG): A gente se conheceu, falei ‘Jens, você não quer ser o treinador?’, ‘Mas de hockey inline?’ e eu falei ‘Não, de hockey no gelo. Vai ter no México de novo, o segundo evento, e gostaria que você fosse como treinador.’
Hinderlie: Eu me mudei para o Brasil e cinco dias depois estava em (Contagem) assistindo a todos esses jogadores de (hockey) inline, e um mês, talvez dois meses mais tarde a gente estava no México e entrou no gelo pela primeira vez. O Capelle tinha uma lista com os caras que estavam interessados, então ele só me pediu para assistir a esses jogadores e eu os vi jogar e fiquei bem impressionado com o nível de habilidade de todo mundo. Eu não cheguei a jogar muito inline na minha vida porque eu cresci em Minnesota e jogava hockey no gelo praticamente em qualquer lugar que eu ia, mas eu fiquei muito admirado com como eles paravam num instante e giravam, e tinham uma boa movimentação lateral… Fifo (Luis Roberto Custódio) foi um jogador pelo qual eu me apaixonei, só a maneira como ele controla o jogo e, mesmo no gelo, ele pode ser um ótimo defensor ou um ótimo atacante. Honestamente, só escolhemos quem achamos que iria ajudar esse time.
Capelle: Em 2015, teve esse campeonato em Minas, o Campeonato Nacional de Hockey, onde estavam as melhores equipes (do Brasil). Se não me engano, tinham 12.Eu conversei com treinadores das equipes (no congresso técnico) dizendo que a gente ia selecionar os atletas e se tivesse alguém interessado, (era para) procurar o Jens para ele fazer a escolha. A maioria foi o pessoal do Rio e de São Paulo, o pessoal que praticava mais o hockey no gelo. Em 2015 a gente tentou levar os melhores atletas, os que tinham experiência no gelo e eram os melhores atletas no Brasil.Tivemos o apoio da Confederação também, tivemos patrocínio da passagem, de uniforme, os treinos e clínicas, as taxas do campeonato, isso tudo a gente conseguiu através do Emílio Strapasson, que era o presidente na época da CBDG. Fica o agradecimento a ele por essa oportunidade da gente conseguir levar os melhores atletas.
Daniel Hämmerle, goleiro: Foi uma ajuda muito significativa que nos possibilitou levar um time bem melhor que a gente levou nos anos anteriores, e a gente conseguiu chegar com uma força muito legal lá, (tanto) que a gente conseguiu trazer medalha. Foi muito significativa a ajuda da CBDG nesse campeonato.
Gomes: O melhor ano que a gente foi, foi quando a gente teve apoio.
Daniel Vannuchi, defensor: Era um sonho começando a se tornar realidade, da gente jogar um campeonato de hockey no gelo, da Confederação ajudar a levar uma equipe competitiva. A maioria dos atletas não tinha experiência com o gelo. A experiência que eu tinha era aqui no hockey no gelo do Rio, mas a quadra era muito pequena, não retrata muito a realidade de como é um campeonato de ice hockey.
A experiência prévia
Ruane: Eu nasci aqui nos Estados Unidos. Minha mãe é brasileira e meu pai é americano. Comecei (a jogar) hockey com onze anos, sempre fui goleiro, no high school, depois faculdade, joguei um pouquinho pro. Mas em 2012, eu fui para o Brasil, eu fui pro Rio, morei lá oito meses e comecei vendo que tinha hockey (no) Brasil. Eu achei o Capelle, outros jogadores, e foi assim.
Hämmerle: Eu patino desde os 10 anos no gelo, eu sou do Rio de Janeiro e tinha uma quadrinha de gelo perto da minha casa, então eu aprendi a patinar lá com 10 anos e nunca parei. Eu decidi jogar hockey e comecei a jogar no gol em 2012. (O Allen) que me ensinou a jogar no gol. Quando eu comecei a jogar hockey ele tava morando no Rio, ele tem família lá, e ele que me ensinou a jogar. Então 2015, eu só jogava no gol há três anos, foi muito em cima da hora.
Graciano: Eu fazia parte da seleção júnior de inline, não a sênior, e na de gelo eu sempre joguei os campeonatos que tinha no Brasil, com o Capelle, mas na época eu estava morando no Estados Unidos, jogando em uma universidade. Eu lembro que eu voltei para o Brasil e o Capelle me chamou. Acabei conhecendo o Jens mesmo no México, mas 99% da equipe eu conhecia do Brasil já.
Tonietto: Para mim foi bem diferente isso tudo porque eu sou gaúcho e moro nos Estados Unidos há algum tempo já, então ninguém tinha ouvido falar de mim. Eu vi o Brasil de 2014, que eles colocaram no YouTube e entrei em contato com o Capelle. A gente já tinha dois goleiros, o Allen e o Daniel, e o Capelle disse ‘olha, não deu pra te colocar no time, ninguém te conhece, ninguém nunca ouviu falar de ti, eu entendo que tu mora nos Estados Unidos, tu joga hockey no gelo todo dia, mas mesmo assim não tem como chamar alguém que não conhece.’ Então eu disse, ‘olha, Capelle, deixa eu ir pra treinar com vocês.’ Foi legal porque eu conheci todo o pessoal lá e, ainda mais que ninguém tinha ouvido falar de mim, todo mundo me recebeu super bem.
Gomes: 2015 acho que a gente chegou quatro, cinco dias antes, se não me engano. A gente ficou concentrado na Vila Olímpica deles, que ficava do lado do rinque de gelo.
Tonietto: Eu acabei indo para um outro lugar, peguei um táxi, o táxi me largou lá, eu estava sem telefone, com todos os meus equipamentos, no meio do nada, no México. Aí eu meio que arranhando o espanhol falei com uma pessoa e ela falou ‘não, não, tem que ir lá num outro lugar, eu te dou uma carona.’ Eu entrei no carro de uma estranha, e ela me largou onde era pra ser, na Vila Olímpica.
Gustavo Tecchio, defensor: Esse espaço que eles cederam para a gente, se não me engano, foi das Olimpíadas que teve no México mesmo. Eles ficaram com o legado das Olimpíadas e eles utilizam para todos os atletas olímpicos deles, tanto que tinha muita gente boa lá de wrestling, judô, que estava tendo campeonato, ginástica artística, o pessoal do vôlei também acho que estavam treinando lá. Então a gente chegou lá e sentiu que a gente foi muito bem tratado e isso acho que pesa positivamente, a gente sempre junto, comendo junto, comida boa, horário pra sair, horário pra voltar, horário ‘pra dormir’.
Julio Baptista, atacante: Nível PANAM mesmo.
Hinderlie: Eu cheguei no aeroporto, conheci o goleiro, Allen Ruane, e alguns dos outros caras, nós pegamos o ônibus para o rinque, fomos direto para o gelo, o Capelle estava lá e já tinha marcado algumas horas de gelo para a gente naquela noite. Não tivemos tanto tempo para nos preparar. A gente tinha literalmente, a princípio, talvez três ou quatro horas de gelo.
Tecchio: E por isso que a gente saiu correndo, acho que a gente treinava de manhã, já se organizava para treinar depois do almoço, já se organizava para treinar no final do dia para estar no gelo o máximo que pudesse e quando chegasse o primeiro jogo, a gente tivesse o mínimo preparo.
Os treinos no México
Degani: Eu lembro que a gente ficava fazendo correria pra treinar em um monte de lugar.
Gomes: É, a gente foi para o shopping, a gente foi para uns quatro, cinco rinques diferentes para treinar. Foi uma semana louca. Todo mundo com vários mundiais de roller nas costas, vários campeonatos mundiais, sul-americanos, com muita experiência no roller hockey e de repente, do nada, a gente estava dentro do gelo. Vários já jogavam, patinavam no gelo, mas nunca competiram em alto nível, e foi legal essa experiência, foi engraçado.
Hinderlie: Assim que a gente percebeu que precisava de mais tempo de gelo, acabamos comprando um monte de horas em lugares diferentes, em vários horários do dia, então a gente precisava percorrer a cidade para chegar nesses outros rinques e usar um ônibus que a Federação Mexicana forneceu.
Custódio: Opa, um micro-ônibus. Vinte caras ‘monstros’ mais as malas ‘monstras’, um em cima do outro, chegava no shopping lá do ‘centrão’ que ninguém acreditava que teria uma pista no terceiro piso, e de repente surge aquela pista gigante.
Tonietto: Era desconfortável ir pro rinque e voltar, mas quando a gente estava no rinque ou quando a gente estava na Vila Olímpica era ótimo. A gente dividia o quarto com quatro pessoas, então a gente estava assistindo às finais da NHL, foi o ano que Tampa perdeu pra Chicago. Eu, que sou torcedor fanático do Tampa, não gostei muito… (risos) A gente assistia hockey, a gente se reunia no restaurante, o Jens conversava com a gente. Quando a gente estava na Vila Olímpica também tinha bastante palestra, a gente fez muito estudo de vídeo, às vezes tinha tempo de ir para a academia, fazer um alongamento, fazer um suporte muscular.
Graciano: Acho que 50% entendia mesmo o que (o Jens) queria fazer, os outros 50% não entendiam nada e dependiam de algum atleta tentar explicar.
Hinderlie: E eu não falava nada de português, o Bruno foi meio que o tradutor para espanhol e português, e um pouco de inglês, então era sempre engraçado porque eu pensava às vezes ‘Estou falando em inglês e muitos deles provavelmente não têm ideia do que eu estou dizendo.’ Foi um tipo de, não sei, sexto sentido ou algo assim que os jogadores conseguiam absorver a magnitude do momento e colocar em prática, talvez nem sabendo se o que eu falava fazia algum sentido para eles. Mas a gente tinha que acordar acho que 4h da manhã para chegar no rinque às 5h30 ou 6h e ninguém estava muito animado com isso. Eles já tinham treinado algumas vezes, eu sei que alguns estavam cansados, com dor, mas da minha perspectiva era só ‘a gente tem que estar no gelo o máximo possível!’ Eu lembro que eu acordei, desci as escadas e eles estavam dormindo nas cadeiras, o Fifo e o Degani, e eu perguntei ‘Vocês estão prontos?’ Eles falaram ‘Não!’ (risos)
Graciano: Os treinos foram bem rigorosos, né? Porque a maioria não sabia patinar direito no gelo, então foi focado mais na patinação do que qualquer outra coisa. Acho que eram duas vezes por dia, duas horas, e acho que o Jens tentou fazer a gente treinar o quanto mais possível, todo dia. Quando acabava os treinos ele tentava achar mais hora para colocar, para tentar meio que correr atrás do prejuízo. Ninguém conseguia patinar, frear, e as regras eram diferentes do inline também, tinha checking, hitting.
Hinderlie: A gente se adaptou e conseguiu incorporar muitas das habilidades e conhecimento do jogo que eu sabia que eram só o básico do hockey. É um jogo completamente diferente do inline.
Vannuchi: Numa quadra oficial grande, a velocidade do jogo é outra, muda totalmente a sensibilidade do patins, então foi muito difícil, foi muito complicado.
Atletas da seleção brasileira reunidos em um dos treinos na Cidade do México (Foto: CBDG)
Hinderlie: Nós treinávamos tiros, antes de tudo a gente precisava parar e girar e aprender como se levantar e cair no gelo. Porque essa é a chave para qualquer iniciante, você tem que aprender a cair porque você tem que aprender como se levantar de uma queda. E o gelo é completamente diferente de estar sobre rodas e sobre patins inline, então frear era muito difícil e levou um tempo para os rapazes entenderem. É claro, você não aprende esse jogo do dia para a noite. Mas quando eles entenderam, acho que assim que voltamos do primeiro jogo, contra o México ‘B’, foi aí que a gente começou a perceber que seríamos um bom time e que a gente poderia jogar esse esporte.
Degani: A gente fazia muita coisa. A gente tinha muito jogo, o conjunto era muito legal, muito bom, mas a gente ainda estava jogando um esporte que era diferente do hockey no gelo. A gente tava jogando o inline sobre o gelo.
Tonietto: Eles tinham o chute, tinham os dangles do pessoal de alto nível, mas não sabiam patinar, não conheciam as regras e como era a cultura do hockey no gelo. E por mais que o meu nível não tava muito alto naquela época, eu conseguia perceber essa diferença do hockey aqui nos Estados Unidos e o hockey que o Brasil tava tentando jogar.
Hinderlie: É uma questão de criar a estrutura para que eles entendessem o básico do gelo, onde estar, o que fazer… e uma vez que eles tinham compreendido, eles podiam desafiar qualquer um que estivesse no nosso nível. Parecia, para mim, que havia mais times com mais coesão, que já tinham jogado no gelo, ou era mais fácil para alguns jogadores (ter acesso ao gelo), e talvez essa seja só a minha impressão, mas, no final, é difícil para um time se estruturar ao longo de seis, sete dias. É um processo, leva tempo para melhorar e construir um time.
Gomes: Quase todos os times tinham jogadores ‘estrangeiros’. A Colômbia, por exemplo, tinha quase todo um time que morava nos Estados Unidos, todos ‘quase gringos’, a Argentina tinha vários também que jogavam fora.
Baptista: Acho que fora o Allen, a gente não tinha nenhuma pessoa de fora.
Tecchio: Mas, como a gente já tinha feito dois amistosos, a gente realmente sentiu que eram equipes muito boas no gelo, tanto Colômbia quanto México ‘B’, que viviam no gelo e tinham condições de estar ali toda semana, e a Colômbia com melhores acessos, acessibilidade que tinha pelas quadras. Percebemos que realmente seria um torneio bem forte pra gente. Contra o México ‘A’ a gente sabia que era dois, três passos que a gente deveria galgar aí no futuro, ainda estamos galgando, não chegamos lá ainda.
Hinderlie: Muito do pessoal jogava defesa no inline, que é um papel mais ofensivo, então entender que o defensor no ice hockey tem que usar bem a visão com o puck, fazer passes. Jogadores como o Zé (José Alexandre Guilardi), Fifo, (Gustavo) Tecchio, (Daniel) Vannuchi, (Marcelo) Campos, todos eles realmente chegaram lá. Eles foram, assim como o Allen, no gol, a grande força do nosso time, foi a nossa defesa e o goleiro. E nós meio que partimos daí, tínhamos o Yan (Graciano), acho que com 19 anos na época, ele era muito jovem e teve shifts muito bons. O (Henrique) Degani foi um jogador bem versátil, marcou alguns gols importantes, o Julio Baptista também estava lá, e ele realmente dava duro em todos os momentos. Como treinador, você só quer que os jogadores saibam que eles têm um potencial maior para atingir e ainda assim, mesmo hoje, eu acho que tem muito potencial com o Brazil Ice Hockey. Então é ajudá-los a entender e ao mesmo tempo falar para eles que é preciso dar 110% em cada shift.
Durante o torneio
Degani: A gente devia ter colocado o Pedro de segundo goleiro e o Daniel na linha.
Hämmerle: (risos) O pessoal brinca porque, como eu comecei patinando no gelo, eu tenho uma patinação legal, minha patinação é razoável, e eu cheguei a jogar na linha muito tempo atrás.
Hinderlie: Você tem um torneio de uma semana, passa muito rápido, e é realmente o único tempo de gelo para eles no ano. Mas todas as peças se juntaram e eles trabalharam muito e mereceram o que conquistaram.
Tonietto: Foi uma experiência para todo mundo, para tentar conhecer o jeito brasileiro de jogar hockey, porque foi realmente a primeira seleção brasileira de hockey no gelo, e cada time tem uma maneira de jogar. Aos poucos a gente foi entendendo a nossa, o que dava certo, o que não dava, mas foi jogo após jogo. Foi uma experiência muito bacana ver o time evoluir daquela maneira.
Degani: Eu lembro que a gente fazia muita falta. O campeonato inteiro a gente fazia muita falta. Acho que a gente fez umas três ou quatro de too many men.
Graciano: (O Allen) foi o que mais passou nervoso jogando.
Ruane: Todo mundo estava feliz porque estava jogando hockey no gelo, eu joguei num nível muito alto aqui e não gosto de perder um jogo. Quando eu perco um jogo eu fico bravo. (risos) Acho que é uma coisa que o pessoal reclama, que eu não tô feliz igual todo mundo. Mas eu não gosto de perder, e todo mundo estava feliz, (ganhando ou perdendo) parece o mesmo não muda muito.
Custódio: Como foi, no meu caso e de muitos, um primeiro momento no gelo competindo de verdade, era a realização de um sonho de criança. Era o sonho em 2015, estar ali no gelo competindo de verdade, e o hockey surge do gelo pra gente, então foi muito legal.
Graciano: Acho que foi a primeira vez para a maioria do time que teve um treinador mesmo, que estava de terno, dando dica sobre tudo, falando o que tinha que fazer, situações de jogo, então acho que a maioria da galera não estava acostumada com isso.
Vannuchi: Foi uma sensação de ser profissional, né? De você estar num alojamento, você tem refeitório, tem toda a estrutura disposta pra você, tinha o Jens de técnico.
Hinderlie: O rinque em si, o Ice Dome, tinha alguns problemas com névoa, então a gente precisava lidar com aquilo, precisava parar o jogo de vez em quando e patinar dando voltas. Mas era um rinque bom, uma estrutura legal. Em qualquer evento esportivo internacional você tem as pessoas torcendo com suas bandeiras, então foi muito legal para esses times ‘B’ mais jovens, porque eles são adolescentes, mas jogam hockey o tempo todo, e para eles competir contra uma equipe nacional como o Brasil eu sei que foi algo importante para aquelas crianças e também para os pais. Era uma atmosfera festiva, para dizer o mínimo.
Tonietto: Tinha uma seleção (brasileira) feminina aquele ano, mas elas não estavam com a CBDG. Então tinha uma certa diferença ali, mas claro, brasileiro é brasileiro e vai torcer para brasileiro, e não foi muita gente, mas tinha uma torcida brasileira legal, a gente gritava, a gente fazia festa. Era muito legal assistir aos jogos do México, os jogos contra o México, porque lotava a arquibancada.
Hämmerle: Lembro que a mãe do Yan e do Leandro (Graciano) estava lá, gritando para caramba. O pessoal da Argentina estava lá, eles levaram time ‘A’, ‘B’ e feminino, então ficava a maior galera lá e a (mãe deles) do lado. (risos)
Hinderlie: A gente teve lideranças fortes, como o Bruno Gomes, eu realmente me apoiei nele bastante naquele primeiro ano porque ele era um jogador mais velho, veterano, que conhecia praticamente todo mundo. Ele mora na Argentina então ele não é um paulista, ele não é um carioca, ele podia meio que fazer essa ponte um pouco.
Hämmerle: Eu lembro muito dos papos do Bruno, das conversas dele, do jeito que ele vinha falar e deixar todo mundo animado antes do jogo. Isso é um papel que ele faz muito bem que eu gosto muito na verdade.
O torneio teve início numa quarta-feira, dia 3 de junho. No segundo jogo do dia, o Brasil fez sua estreia contra o México Sub-17 e venceu por 5-2. Esta foi a primeira vitória na história da competição para a seleção brasileira.
Hinderlie: A gente estava perdendo por 2-0 no começo. Eu acho que tivemos um power play e o puck foi por trás do nosso defensor e eles literalmente tiveram um 2-contra-0 e marcaram o segundo gol. No entanto, conforme a gente se esforçava e batalhava em cada shift, começamos a criar algumas chances, tivemos alguns power plays e marcamos cinco gols sem resposta.
Tonietto: Foi um jogo difícil, aquele time do México era bem novo, eles tinha bastante força, bastante patinação, mas eles não tinham a experiência que os nossos jogadores tinham.
Custódio: A gente tinha uma bagagem já, não eram atletas partindo do zero numa competição. Por um lado ajudou, por outro às vezes atrapalhava, era uma brecada de inline, um giro de inline, enfim… Eu lembro de estar na quadra com um nível de concentração para tudo muito alto e mesmo assim tinha momentos em que a gente acabava fazendo o que era natural para a gente no inline.
Vannuchi: Essa experiência deu uma equilibrada no jogo e fez total diferença. Eu lembro que a gente jogava com muita calma, dava pra ver que a gente, tecnicamente, estava sofrendo para ficar em cima do patins, mas o conjunto era muito bom.
Baptista: Não sei se vocês já pegaram para rever os jogos desse ano, mas nitidamente dá pra ver que é um time de pessoas que não são familiarizadas com o gelo, é uma coisa não tão bonita de se ver, e de repente sai uma jogada de um time bom de hockey. Então acho que a galera estranhou um pouco isso também e foi o que fez a gente vencer, chegar ao gol jogando hockey de uma forma ou de outra; no gelo, mas trazendo coisas do inline. Acho que um outro ponto que diferencia bastante dos outros campeonatos é que como era, para a maioria, a primeira vez de todo mundo ali, todo mundo conseguiu limpar a cabeça e absorver cada coisinha nova que o Jens trazia do gelo. Lembro da gente passar noites vendo e revendo, com planilha, com TV, o que a gente poderia ter feito. Acho que todo mundo limpou literalmente a cabeça e começou a receber e aplicar aquilo.
Tecchio: Mas esse jogo ele chegou pra gente e falou assim ‘Vocês precisam trocar a chavinha, vocês não estão jogando inline. Aqui é gelo. Tratem de abrir a caixa de ferramentas.’
Custódio: E aí você abriu o supercílio. (risos)
Tecchio: (risos) Abriu tudo, né? A gente começou a entender que o checking fazia parte… Ele veio com essa pressão ‘Vocês não estão jogando inline, o contato faz parte.’ A única vantagem que a gente tinha era essa, de ser atletas um pouco mais velhos, com certeza mais velhos, e talvez mais fortes. A gente era mais forte e, claro, a partir do momento que entendeu que podia fazer esse contato a gente acabou ganhando o jogo.
Graciano: A gente segurou mais no físico, porque era uma molecada mesmo do México. Acho que não passavam de 1,75m, eram um monte de criança jogando contra um monte de marmanjo.
Hinderlie: Foi nesse momento que eles entenderam. Levou um período e meio praticamente, mas do segundo até o terceiro período nós dominamos, ficamos em cima deles, e marcamos alguns gols definitivos no power play. Acho que foi nossa linha veterana, Bruno, Johnny (João Henrique Vasconcelos) e Lu (Luis Fernando de Almeida), que mais marcou para a gente.
José Alexandre Guilardi, defensor: Eu acho que esse jogo com o México deu principalmente para a gente a condição de seguir, de participar de fato da competição, porque se a gente tivesse ido mal já nesse primeiro jogo, acho que ia comprometer muito qualquer possibilidade de crescer dentro do campeonato. O fato da gente ter vencido, ter ganho energia e ter surpreendido deu para a gente uma sobrevida e levou a gente até o caminho da medalha, e também nos trouxe muita confiança no Jens. Quando o Jens foi pro vestiário e desceu a lenha na gente e mandou a gente parar de jogar que nem criança e começar a ser jogador de hockey de fato, a gente começou a acreditar no treinador e a coisa funcionou, para o restante da competição também. Acho que isso foi muito interessante desse jogo em específico. E muitas das coisas que o Jens testou durante os treinos e das quais ele tinha só a visão técnica ‘Esse aqui não patina bem, esse aqui não passa bem,’ porque tem as deficiências e tal. Chegou na hora de jogar de fato, a grande maioria, que já tinha muita experiência em quadra e muita noção, conseguiu se sobressair e colocar um jogo de hockey melhor dentro de quadra mesmo sem ter a técnica ideal. Então também mudou aos olhos do Jens, do treinador, a condição dos atletas. Teve até uma reviravolta em termos de linhas e duplas e parceiros logo após esse jogo. Ele conseguiu ver diferente o grupo depois desse jogo, então acho que foi muito importante essa primeira partida para a gente em diversos aspectos. Na verdade, acho que aí foi o grande ponto da medalha. Foi aí nesse jogo que a gente pegou um pedacinho dela já.
Hinderlie: Depois do jogo foi incrível para mim. Eu estava literalmente vivendo em um país estrangeiro há menos de 60 dias e estava ensinando hockey, um esporte que eu cresci jogando em Minnesota, e eu estava no México, treinando esse time, e ver eles cantarem o hino nacional para seu país foi muito emocionante. Até hoje quando eu assisto ainda fico um pouco emocionado, porque foi um momento muito especial. Foi a primeira vitória deles de todas e foi ótimo para eles entenderem que não só eles podiam mudar a história, mas era o começo de tudo relacionado ao hockey naquele jogo, eu acredito. E eu sei que o Capelle ficou muito orgulhoso dos meninos, e todo o esforço que ele havia colocado até então também. Foi um momento muito, muito legal e nós usamos aquilo para vencer mais alguns jogos.
Treinador Jens Hinderlie e jogadores do Brasil no vestiário (cena do documentário ‘Sonhos de Gelo‘/LoonarCity: Jack Davis)
Na manhã seguinte, o Brasil manteve a invencibilidade na competição ao golear a Argentina ‘B’ por 7-0.
Tecchio: Clássico dos clássicos, né? Eles já tinham jogado contra o Brasil em 2014, se não me engano, tinham ganho do Brasil, e talvez não imaginavam que ia acontecer o resultado da forma que aconteceu.
Graciano: Desse jogo eu não lembro bem. Eu lembro que deu confusão, no que deu não sei. (risos) Brasil e Argentina sempre dá alguma confusão.
Hinderlie: Uma coisa que eu percebi logo com esses jogadores foi o fato de que era difícil para eles entender o que era um forecheck. Porque no inline você só está esperando o time voltar e vir até você, e você defende. Ter um forecheck agressivo é algo que a gente ainda tem dificuldade, mas aquele jogo em particular, eu lembro que, porque a gente tinha jogadores grandes, uma vez que eles aprenderam como dar hits e usar o corpo no gelo, isso desgasta o defensor e nós conseguimos ter muitas chances boas, colocar o puck na rede e marcar sete gols. Foi um momento em que eu vi o time começar a se ver como jogadores de ice hockey. Isso foi o que eu falei a semana inteira, o que significava ser um jogador de hockey. Muitos deles estavam lidando com lesões, porque eles nunca tinham recebido checks e isso definitivamente pesa no seu corpo, mas a gente foi o time dominante naquele jogo e conseguiu de fato usar nosso tamanho em nosso favor.
Vannuchi: Foi bem legal esse jogo contra a Argentina porque a gente conseguiu se soltar um pouco mais. Foi um resultado bem importante para construir a confiança da equipe.
Hämmerle: A gente pegou logo o México ‘B’ e depois a Argentina ‘B’, então deu para a gente começar um pouco mais devagar, e devagar que eu digo é pegar uns times mais fáceis no início para poder acostumar com o gelo.
Hinderlie: É um jogo bem simples uma vez que você bloqueia qualquer bobagem que às vezes entra na nossa cabeça quando você tenta fazer demais. Eles conseguiram se manter centrados e jogaram muito bem.
Tonietto: Jogar contra a Argentina é sempre interessante, porque é a rivalidade. Acho que isso existe em todo esporte, no hockey não é diferente. Por mais que a gente seja dois times que estão tentando crescer, tentando achar maneiras de jogar hockey, principalmente em 2015, a gente meio que se ajuda fora do gelo, a gente ainda é meio amigo, mas quando chega na hora do jogo, é jogo. Foi um jogo bom, mas foi um jogo mais fácil, porque o time ‘A’ e o time ‘B’ da Argentina tinham uma grande diferença de nível, então foi mais um ‘jogo de descanso’ entre todos os que a gente tinha. Ainda assim, serviu muito para ver como o time faz gol, quais jogadas dão certo, quais não dão certo, mudar linha, coisas assim que a gente precisa ter essa experiência, jogar contra um time mais fácil, para poder ajeitar as pequenas coisas e poder pegar depois os times mais complicados. Caiu na hora certa, no calendário, o segundo jogo ser contra a Argentina, a gente ganhou dois jogos seguidos e isso levantou a moral do time.
Tecchio: Nesse jogo também, tecnicamente a gente já conseguiu se soltar e viu que era bem mais superior talvez em nível de jogo. Ainda tínhamos nossas deficiências de fundamentos, de patinação e algumas coisas, mas ainda assim a gente conseguiu jogar. Até porque ganhamos de 7 a 0 e acho que podia ter sido até mais. Saímos bem contentes dessa partida.
Hinderlie: Essa foi a minha primeira experiência com (a rivalidade Brasil-Argentina), com certeza, e nos anos seguintes ela se mostrou um pouco mais. Mas foi legal vencê-los e, ironicamente, minha primeira experiência na América do Sul foi na Argentina, numa missão, quando eu tinha 19 anos. Quando eu cheguei lá eles me falavam ‘Boca ou River Plate’, era meio que a moda, e eu sempre tive meio que um amor pela Argentina por causa disso. Aí eu casei com uma brasileira e morei no Brasil e comecei a entender mais a cultura brasileira. Ambos são países ótimos, pessoas ótimas, é claro, mas a rivalidade é bem intensa e foi divertido testemunhar os jogadores se enfrentando e usando dessa rivalidade para jogar no gelo.
Na noite de sexta-feira, 5 de junho, a seleção brasileira sofreu a primeira derrota do torneio para a Colômbia, por 3-0.
Guilardi: A gente tinha empatado com eles num amistoso. Foi 3 a 3.
Gomes: Se não me engano, o amistoso teve que ser parado no meio porque quase terminou em briga.
Hinderlie: Eles estavam tentando se matar. Eles iam para cima dos nossos caras, nós íamos para cima dos caras deles, chegou num ponto em que o técnico da Colômbia e eu só falamos ‘Beleza, a gente precisa parar esse jogo porque vai sair do controle.’
Tecchio: Com certeza contra a Colômbia a nossa expectativa vinha alta. Como a gente tinha ganho esses dois jogos, empatado com eles (no amistoso), falou ‘Bom, vai ser elas com elas, vamos entrar junto com eles.’ Só que daí a gente sentiu que fisicamente o negócio apertou. Contra os meninos do México não tinha muita pressão, Argentina praticamente zero também. Mas contra eles não, contra eles virou aquele jogo de hockey que realmente talvez a gente nunca tivesse tido. Chegava o puck e já tinha um cara em cima de você, então você já tomava um check. Se você estava patinando sem olhar, ‘boom’… Então você não tinha tempo, era um jogo muito rápido, era realmente o que é o hockey no gelo.
Degani: E estava longe, né? Você tinha que receber o passe e ainda estava longe pra caramba do gol.
Tecchio: Ou quando chegava, você estava sozinho, só você e três colombianos chegando já. E eu acho que nesse jogo começou a pesar as pernas de todo mundo. Fisicamente, a gente já estava bem esgotado pela questão de carga horário de treinos, dos amistosos e dos jogos que vinham acontecendo.
Gomes: A gente chegava no banco e pegava no peitoral e tentava abrir e buscar ar porque ninguém conseguia respirar.
Guilardi: Quem estava na defesa percebia que o cansaço estava aumentando na frente e sem recuperação, e nesse jogo da Colômbia a gente sentiu muito. A gente limpou muita sujeira lá atrás. Não tinha muita condição de criar nada porque a gente estava sendo muito pressionado na defesa, então quando a gente pegava o puck, já estava tomando pancada, já estava sem condição de criar. E acho, na minha opinião, que a gente deu uma subidinha na cabeça achando ‘Não, a gente é bom, a gente ganhou aqui, ganhamos aqui, empatou com eles…’
Hämmerle: Mas eles não tinham o jogador principal deles (no amistoso), o capitão, Daniel Echeverri, que era, que é o melhor jogador dos caras.
Guilardi: Um jogador que é um diferencial e chegou na hora de jogar para valer com a gente e ‘apertaram o play’ do rapaz e ele fez valer a condição dele.
Vannuchi: Todos os anos que a Colômbia está com ele, ele leva o time nas costas, ele performa os resultados, então ele é o playmaker da coisa toda e ele realmente fazia diferença.
Tonietto: Esse jogo, na minha opinião, foi o melhor jogo que o Brasil jogou naquele ano, com exceção da medalha de bronze. A gente pegou um time da Colômbia pronto, tinha o número 10 que simplesmente estava destruindo, acho que ele foi, deve ter sido o principal jogador do torneio. E a gente só levou três gols deles. A defesa muito boa, o Allen, nosso goleiro, jogou muito bem, e a gente conseguiu segurar a Colômbia por um bom tempo.
Capelle: Esse jogador realmente fazia a diferença, eu não estou com a súmula aqui, mas, se não me engano, tenho certeza que ele fez os três gols.
Graciano: Eu lembro que a gente só não perdeu por mais porque o nosso goleiro segurou. Acho que era o nosso melhor jogador, ele conseguiu segurar bastante nesse jogo. Esse jogo foi a gente só defendendo, defendendo e indo no contra-ataque.
Hinderlie: Mas naquele jogo nós tivemos chances, tivemos um 5-contra-3 no começo, acho que estávamos perdendo por 2-0 e não conseguimos marcar. E o Daniel Echeverri, número 10 da Colômbia, basicamente tomou controle do jogo e marcou o terceiro no Allen. Nós jogamos forte e eu estava bem orgulhoso dos rapazes e do nosso esforço, mas a gente não conseguia achar um gol, e às vezes isso acontece. Mas no final, a Colômbia acabou vencendo o torneio, então foi um bom feito jogar com um time daquele calibre e que acabou ganhando e derrotando (o México) que, na minha opinião, no quesito habilidade, era o melhor. Nós tivemos oportunidades e não conseguimos convertê-las, porque a gente desafiou bastante a Colômbia. Echeverri tinha bastante o puck e controlava grande parte do jogo, mas quando a gente teve chances e segurou o forecheck, (o goleiro) estava lá para fazer a defesa.
Tonietto: Uma vitória seria muito melhor, mas ainda assim, vindo de duas vitórias, depois segurar a Colômbia no 3 a 0, nossa moral ainda estava muito boa depois do jogo, e o time batalhou muito.
Ruane: Sim, foi bom, mas nossa equipe não fez gol. É difícil ganhar sem gol. Eu não posso fazer gol, é muito difícil. (risos) Mas eu não gosto de perder jogos assim.
Tecchio: Mas a minha visão após o jogo contra a Colômbia, claro a gente perdeu, mas a gente saiu de quadra sabendo que tinha feito um bom jogo, talvez algumas coisas não tinham se ajustado e perdemos… e acho que a gente foi com a mesma confiança contra o México, só que daí o tombo foi um pouquinho maior.
O quarto jogo do Brasil foi contra a seleção principal do México, quase um dia inteiro depois da partida contra a Colômbia. Os brasileiros saíram na frente no placar, mas o time da casa respondeu com força e venceu por 11-1.
Hinderlie: De novo, esse foi um jogo com névoa. O desumidificador não estava funcionando direito o tempo todo e tinha bastante névoa na arena, o gelo estava mais macio do que o devido… mas nós usamos a névoa no começo e marcamos um gol logo na saída de um faceoff, eu acredito, na zona deles.
Custódio: Foi o Degani, na ‘fumaça’.
Graciano: Eu ganhei o faceoff para o Henrique Degani e ele fez o gol.
Hämmerle: Ele falou que chutou e nem conseguia ver o gol direito, de tão embaçado que estava. Eu não sei se foi algum problema de isolamento lá, ficou um nevoeiro absurdo na quadra. A gente falava ‘ó, todo mundo patina em círculos aí para ajudar o negócio a sair’ e aí ficou todo mundo patinando em círculos, e a gente teve que parar para fazer isso umas três, quatro vezes durante o jogo. Foi engraçado, sabe? Todo mundo já super cansado e ainda tinha que ficar patinando em volta. Era bom ao mesmo tempo porque dava uma descansadinha no jogo, mas não ajudou a gente muito, porque os caras descansaram também.
Faceoff entre Brasil e México ‘A’ em meio à névoa (Foto cortesia de Alexandre Capelle)
Hinderlie: O Degani marcou e eles marcaram onze gols depois. Quer dizer, a gente não está no mesmo nível. Eles são 30º no mundo, eu acho. Não tenho certeza hoje, mas na época eles eram.
Baptista: Foi o melhor time do México, na minha opinião, de todos os anos.
Tonietto: A moral estava boa e tudo mais, mas o time do México não era brincadeira. Eles tinham, não lembro se naquele ano ou no seguinte, mas eles tinham ganho um mundial Divisão II ou III, se não me engano. Sei que eles ganharam uns mundiais da IIHF mais ou menos com aquele time que a gente jogou. Era um nível muito acima da gente, o time inteiro treina junto o ano inteiro, todo mundo lá no México, então é bem difícil competir com um time desses quando a maioria dos nossos jogadores estavam aprendendo a patinar no gelo. Mas serviu meio que pra gente acordar e ver que o Brasil ainda tem muito para avançar e que a gente era praticamente o primeiro time que o Brasil teve de hockey no gelo.
Gomes: Se eu não me engano, acho que (o Jens) trocou (de goleiro) quando tomou o terceiro gol seguido. Já no primeiro tempo tomou três gols seguidos e ele tirou, e ele não voltou mais com o Allen.
Tecchio: Três chutes três gols, foi algo assim. A questão da névoa dentro do ginásio às vezes, parecia engraçado para quem estava fora, mas para nós às vezes até ficava meio perigoso, você não via de onde o cara vinha.
Hämmerle: Atrapalha demais, né? Você não consegue ver direito, o puck já vem super rápido pra você ver. Se a iluminação não tá muito boa já atrapalha muito, imagina quando tá foggy.
Tonietto: Eu lembro que o Brasil começou bem no início do primeiro período, mas não tem como, hockey é um jogo pegado, quando começam a jogar o corpo em cima da gente e tudo mais, e pegar a patinação, é bem difícil de correr atrás do jogo. E o México jogou muito bem, também teve isso. É natural também (ter muitas faltas), a pressão começa a subir e a gente estava jogando tão bem, veio de vários jogos que foram muito bons, para depois pegar um time que estava preparado e a gente não conseguiu se aguentar. Então um penalty atrás do outro contra um time que sabe jogar, que sabe patinar, tem um power play muito bem preparado, realmente não ajudou. Não foi que nem o jogo contra a Colômbia que a gente ficou responsável o jogo todo e conseguiu segurar por mais tempo.
Vannuchi: Era basicamente se defender. Eles eram muito fortes, muito consolidados, e esse jogador (Bruno Arroyo), o capitão do México, realmente era um diferencial, ele chamava a responsa. Foi um jogo de muito contato, eu lembro que foi um jogo muito violento
Gomes: Contra o México ‘A’ foi 40 faltas, alguma coisa assim.
Hinderlie: A gente se colocou na penalty kill demais. Provavelmente tivemos o maios número de penalties no torneio, e isso vai acontecer quando você tem jogadores que não sabem dar hit. E sinceramente, a arbitragem no México não era sempre o que talvez devesse ter sido…
Degani: Eu lembro que eles provocavam bastante também.
Tecchio: Eles sabiam que tinham o respaldo da arbitragem.
Gomes: A arbitragem foi ridícula. A gente já jogou campeonato sul-americano e tudo, mas no México foi tanto que a gente decidiu na última vez nunca mais ir também.
Tecchio: Contra o México eu acho que a gente pegou adultos, da nossa idade, caras mais fortes, e aí o negócio pegou mesmo. Foi um jogo de muito contato físico, tanto que isso se prorrogou para 2016 e 2017. A gente teve bons entreveros com eles, mesmo não tendo a mesma qualidade técnica. Mas fisicamente a gente sabia que não ia perder pra eles.
Degani: Eu lembro que uma hora o cara do México foi passar atrás do gol e eu falei ‘Nossa, vou arrebentar esse cara agora.’ Aí ele fez tipo o Sub-Zero, ele fez ‘vup, vup’ e eu não vi nada, só vi borda. Eu não sei pra onde ele foi, até agora estou procurando o cara. (risos)
O jogo da medalha
Diferentemente de outras edições do torneio, em 2015 a competição não contou com uma fase final, e foi definida em turno único. O quinto e último jogo do Brasil foi contra o time ‘A’ da Argentina, uma vitória por 6-1. A equipe brasileira terminou sua participação com nove pontos, ficando em terceiro lugar na classificação geral e conquistando, assim, a medalha de bronze.
Gomes: Essa foi boa, porque eu moro na Argentina e conheço o pessoal. Eles tinham certeza que iam ganhar da gente. Eles tinham certeza. Eu lembro muito bem disso, eles tinham uns gringos que jogavam para eles, muitos jogadores de gelo também, patinavam super bem, mas eles não tinham um time tão bom de jogadores de hockey, ou pelo menos do mesmo nível, e isso fez muita diferença. E a gente jogou muito forte. O quanto a gente derrubou eles no meio do gelo foi impressionante. E o Allen também, nesse jogo ele fechou o gol. Os caras chutavam e até desanimavam de chutar.
Capelle: Eles estavam crentes que iam ganhar, mas esse grupo era muito bom, a gente escolheu no dedo lá em Minas os jogadores, e todos com muita experiência.
Tecchio: Eu lembro que dentro do vestiário já a gente falou ‘Bom, a gente vai para um Brasil e Argentina, acho que é isso que talvez a gente mais espera dentro de um hockey sul-americano. Jogando no gelo ainda contra esses caras, vamos para destruir. Último jogo do campeonato, vamos fazer o que a gente tem que fazer lá.’ E as coisas saíram bem bacanas, acho que foram bons gols ainda.
Tonietto: Pelo que eu percebi, o clima era só ir e dar o nosso melhor, competir. Eu nao lembro como estava a classificação, não lembro se a vitória dava a medalha, mas eu lembro que a nossa mentalidade era ir e jogar o nosso melhor jogo, que é o que a gente pode fazer.
Capelle: Acho que a gente precisava ganhar senão o México ‘B’, pelo saldo de gols, ficaria em terceiro.
Gomes: Deu tudo que no último jogo era Colômbia e México e a gente sabia que era decisivo contra a Argentina, estava definido já.
Graciano: Deu mais briga com a Argentina ‘A’ do que com o ‘B’, o ‘B’ dava só umas discussões, agora com a ‘A’ deu bastante. É sempre legal ganhar (contra a Argentina), principalmente num torneio em que está todo mundo no mesmo barco, tirando o México. Mas jogar contra a Argentina é sempre legal a rivalidade.
Ruane: Acho que é da cultura do brasileiro, tem que ganhar contra a Argentina, todo ano é assim. (risos)
Tonietto: Ganhar da Argentina é ótimo, ganhar do time ‘A’ da Argentina está ficando cada vez mais difícil, todo ano é mais difícil.
Hinderlie: Esse foi um jogo muito bom. Eu tenho quase certeza de que a gente tinha levado em consideração os pontos e sabia que se ganhasse a gente levaria o bronze. Foi similar ao primeiro jogo, contra o México ‘B’, foi surreal, os caras realmente apareceram e continuaram jogando forte durante todo o torneio. Tirando contra o México ‘A’, a gente estava em toda partida e jogamos o nosso jogo. Nesse jogo eu acho que coloquei o Lu, o Degani e o Yan juntos e eles foram super bem. E o Johnny foi uma força consistente com o Bruno o torneio inteiro. Porque o Johnny é nosso principal center, quem disputava o puck e ele ganhou muitos faceoffs para a gente.
Gomes: A gente jogou super bem. A gente terminou esse campeonato e era impressionante a diferença do primeiro jogo amistoso para o último jogo. Impressionante a melhora do time, individual e no todo.
Vannuchi: A experiência jogou para o nosso lado muito bem, então a gente soube lidar com essa intensidade toda do jogo devido à experiência dos jogadores. A gente tinha uma galera já da velha guarda que soube dosar muito bem. Foi o auge. Quando você vê acontecendo, concretizando todo aquele esforço, e uma coisa improvável, né? Quem dava para a gente que a gente ia chegar a conquistar uma medalha de bronze?
Medalha de bronze entregue ao Brasil após o torneio (Foto cortesia de Alexandre Capelle)
Gomes: Sobre essa vitória nossa, acho que foi aí que a gente decidiu que podia ser jogador de gelo e que o hockey brasileiro podia ir para esse lado também, não só roller hockey. Acho que foi muito importante. Quem gosta de hockey, quem ama hockey, a maioria começou vendo e se apaixonando pelo gelo, e foi um sonho estar dentro do gelo, jogando nesse nível. Então foi uma realização para todos.
*Capelle: Eu estava no banco como dirigente e treinador auxiliar do Jens, cuidando do ataque. Fiquei muito feliz no final do jogo e com a importante conquista da medalha de bronze para o Brasil. Foi a primeira medalha que o brasil conquistou num campeonato de hockey no gelo, a primeira de um país sul-americano. Foi maravilhoso. Parabéns a todos os envolvidos.
Hämmerle: Foi sensacional a gente de pé lá no gelo esperando a medalha. Você fica com tanta adrenalina que até esquece das coisas, aí toca o hino e tu chora, muito maneiro.
Tonietto: Eu lembro muito bem a sensação da medalha, sabe? Só estar na fila lá para receber a medalha depois do jogo.
Vannuchi: Foi como se a gente ganhasse o campeonato porque a gente não esperava. A medalha de bronze era uma coisa que parecia longe. E quando você vê que estava acontecendo, esses minutos sempre muito intensos emocionalmente para o atleta, e você saber dosar isso foi a grande diferença da equipe do Brasil. Foi sensacional, a gente indo lá todo mundo no goleiro, todo mundo comemorando, foi algo emocionante, assim, uma comemoração como se fosse um título mesmo.
Depois do torneio
Tonietto: Foi uma festa que eu não imaginava jamais fazer parte disso, sou muito grato de ter incomodado o Capelle para ter ido e fazer parte disso. Foi simplesmente incrível, não tenho nem palavras pra dizer.
Hämmerle: A gente ter conseguido aquela medalha ali foi sensacional, acho que foi a maior conquista da minha vida até hoje, e eu tenho o maior orgulho daquilo. Por mais que eu não tenha jogado, eu estava ali em todos os treinos e eu me empenhei e tava com meus amigos, e foi sensacional. E me fez desenvolver como atleta demais também, porque você tá lá, você tá vendo tudo, você tá participando então você cresce, você cria vínculos mesmo. É muito bom, queria muito voltar no tempo e poder fazer de novo.
Degani: Para a comunidade aqui, brasileira, do hockey foi muito importante esse campeonato. Acho que muita gente que não enxergava o hockey brasileiro como podendo estar presente no cenário mundial, mudou bastante esse conceito. Porque no hockey inline a gente sempre teve conquistas excelentes. A gente teve resultados ótimos, mas mesmo tendo esse respeito no cenário mundial, acho que mesmo dentro do Brasil o fato da gente não ter nenhuma conquista no hockey no gelo, o pessoal falava ‘ah, mas é só inline.’ Acho que para dentro da comunidade brasileira de hockey foi muito importante participar desse campeonato e mais ainda ter ganho essa medalha.
Capelle: Hockey é hockey. É claro que existe uma transição, alguns que podem e jogam no gelo todo dia, outros ficam um ano sem jogar e põem os patins, mas o time evoluiu muito e hoje eu tenho a maior felicidade de ter essa medalha aqui. A gente está no país do futebol, mas uma medalha assim acho que é a mais importante que eu tenho.
Hämmerle: A gente está tentando crescer o esporte, mas tem que ser aos poucos, tem que ter paciência, a gente tem que fazer o que a gente pode e da melhor maneira possível. Daqui a pouco aparecem aí os caras que são melhores que eu, que o Bruno, que o Fifo, o Degani, e vão tomar o nosso lugar, mas alguém tem que começar.
Hinderlie: Foi ótimo ter aquele primeiro torneio de experiência como um time de verdade e eu sinto que muitos dos jogadores achavam que as coisas iam mudar e talvez teria um pouco mais de estrutura e organização, e até hoje isso é difícil, porque não tem um rinque de verdade.
Hämmerle: Hoje a gente está colhendo um pouco dos frutos do que gente fez em 2015. Porque se você for parar pra pensar, o que a gente fez em 2015 não vai trazer frutos em 2016. Nada funciona tão rápido desse jeito.
Hinderlie: Estou animado com o que vai acontecer. Tenho esperança de que como organização a gente possa dar mais oportunidades ao maior número de pessoas possível para jogar esse jogo fantástico. É o melhor esporte coletivo porque você precisa sempre ter certeza de que todos estão na mesma página. Porque se você tem pessoas que são só passageiros e não trabalham junto com o resto, você não vai tem um time de sucesso. Eu acho que o hockey no gelo é um modelo para ajudar as pessoas, no geral, unir todo mundo, porque vivemos em um mundo politizado agora em que tudo é tão dividido e chega a ser repugnante, e eu penso que é ótimo ter um esporte como o hockey, em que você pode colocar tudo de lado e trabalhar em equipe e tentar conquistar algo maior do que você. Isso é o que eu sempre falei para o pessoal, não é sobre você como indivíduo, é sobre o time, sobre todos se unindo e trabalhando duro e usando seus dons e talentos para ajudar o time. Nem todo mundo vai ser um artilheiro, mas você pode entrar no gelo e, se você estiver se movimentando e se esforçando, você pode fazer coisas boas acontecerem, e isso, no final, é o que significa ser um jogador de hockey de sucesso.
*: depoimento editado pós-entrevista, a pedido da fonte.
A NHL se pronunciou nesta terça-feira (26) sobre seu planejamento para a retomada dos jogos da temporada 2019-20. Além da confirmação do modelo de 24 equipes na pós-temporada, a Liga divulgou também como planeja realizar a loteria do draft de 2020, que determina a ordem das primeiras 15 escolhas no evento.
Segundo o anúncio do comissário Gary Bettman, o sorteio envolverá as sete equipes já eliminadas com o fim da temporada regular, mais as oito que perderem na Rodada Qualificatória (Qualfying Round) dos playoffs.
O protocolo estabelece de três a seis sorteios a serem realizados em uma ou duas fases. A possibilidade de uma segunda fase depende dos resultados da primeira.
A primeira fase está marcada para o dia 26 de junho, antes da Rodada Qualificatória (no caso dela realmente acontecer). Serão feitos três sorteios envolvendo as sete equipes não qualificadas para a pós-temporada, mais as oito posições a serem preenchidas pelas eliminadas no Qualifying Round. Estes oito times serão representados como “escolhas não-atribuídas”.
Os três sorteios definirão, respectivamente, as 1ª, 2ª e 3ª escolhas do NHL Draft de 2020. Se uma das oito potenciais eliminadas da Rodada Qualificatória for sorteada nesta primeira fase, um novo sorteio será realizado entre estas equipes, após a definição de cada uma delas.
As chances de vitória na loteria dos sete times já eliminados (listadas abaixo) são baseadas em seu aproveitamento de pontos até o momento da pausa da temporada regular, em 12 de março. A cada sorteio, a probabilidade aumenta proporcionalmente para cada equipe.
Probabilidade de cada time vencer o primeiro sorteio (percentual de aproveitamento de pontos entre parênteses):
Detroit Red Wings (27,5%): 18,5% para a primeira escolha
Ottawa Senators (43,7%): 13,5%
Ottawa Senators (do San Jose Sharks, 45%): 11,5%
Los Angeles Kings (45,7%): 9,5%
Anaheim Ducks (47,2%): 8,5%
New Jersey Devils (49,3%): 7,5%*
Buffalo Sabres (49,3%): 6,5%*
Time do Qualifying Round A: 6,0%
Time do Qualifying Round B: 5,0%
Time do Qualifying Round C: 3,5%
Time do Qualifying Round D: 3,0%
Time do Qualifying Round E: 2,5%
Time do Qualifying Round F: 2,0%
Time do Qualifying Round G: 1,5%
Time do Qualifying Round H: 1,0%
*Os Devils recebem chances maiores que os Sabres pois tiveram um percentual menor de vitórias no tempo regulamentar em relação às em prorrogação (respectivamente 34,8% e 40,6% para cada time)
Caso as três primeiras escolhas fiquem entre sete últimos colocados da temporada regular, não haverá segunda fase. Dessa forma, os quatro times restantes entre os eliminados receberão as escolhas de 4 a 7, em ordem inversa de seu aproveitamento de pontos na temporada regular. Por fim, as escolhas de 8 a 15 serão distribuídas ao final da Rodada Qualificatória às equipes eliminadas, também seguindo a ordem inversa de aproveitamento de pontos.
A segunda fase da loteria, se necessária, acontece entre o Qualifying Round e a primeira rodada dos Playoffs da Stanley Cup. O número de sorteios neste segundo evento será determinado pela quantidade de times classificados para a pós-temporada que ganharem um sorteio na primeira fase.
Para cada time do Qualifying Round (não-atribuído) que vencer uma das três primeiras escolhas, um sorteio da segunda fase será conduzido entre as equipes eliminadas restantes. As chances para cada uma das equipes do Qualifing Round no primeiro sorteio da segunda fase da loteria são de 12,5%.
No caso de três equipes da Rodada Qualificatória vencerem os primeiros sorteios, as escolhas de 4 a 15 serão distribuídas entre as sete últimas colocadas, na ordem inversa de aproveitamento de pontos na temporada regular.
Caso uma ou duas equipes vençam na primeira fase, qualquer um dos últimos sete times receberá a respectiva escolha da equipe sorteada, respeitando a ordem inversa de aproveitamento de pontos.
Percentual de aproveitamento de pontos para as 16 equipes disputando a Rodada Qualificatória:
Montreal Canadiens: 50%
Chicago Blackhawks: 51,4%
Arizona Coyotes: 52,9%
Minnesota Wild: 55,8%
Winnipeg Jets: 56,3%
Calgary Flames: 56,4%
New York Rangers: 56,4%
Vancouver Canucks: 56,5%
Nashville Predators: 56,5%
Florida Panthers: 56,5%
Columbus Blue Jackets: 57,9%
Toronto Maple Leafs: 57,9%
Edmonton Oilers: 58,5%
New York Islanders: 58,8%
Carolina Hurricanes: 59,6%
Pittsburgh Penguins: 62,3%
As quatro equipes no topo de cada conferência, bem como as oito que avançarem para o primeiro round dos playoffs, não participam da loteria do NHL Draft. Com a esperada conclusão da pós-temporada, a ordem das escolhas restantes será definida de acordo com a classificação final de cada um dos 16 participantes.